Crise do petróleo pode de fato impulsionar a transição energética?

O fechamento do Estreito de Ormuz, decretado pelo Irã após ataques dos Estados Unidos e Israel ao país em fevereiro, forçou economias mundiais a buscar alternativas energéticas já no curto prazo. Agora, o acordo de cessar-fogo firmado em junho por americanos e iranianos está por um fio, e a rota no Golfo Pérsico continua em disputa, com efeitos ainda incertos para a economia e o futuro da energia. 

Antes da guerra, Ormuz era passagem para um terço do comércio marítimo de petróleo bruto mundial e um quinto de gás natural liquefeito. Com o bloqueio, o preço do petróleo no mercado internacional subiu imediatamente e as nações se viram rendidas por colocarem “os ovos na mesma cesta”: os combustíveis fósseis. 

Apesar do choque, especialistas entrevistados pelo JOTA avaliam que ele não foi suficiente para impulsionar a busca por fontes mais sustentáveis no curto prazo. Mas ele deixou clara a necessidade de avançar na transição ao mesmo tempo em que se busca segurança energética.

“A percepção sobre fontes renováveis ao longo deste primeiro semestre de 2026 sai de uma agenda que parece puramente ambiental para ser tratada como um instrumento de soberania energética”, afirma Talita Pinto, coordenadora do FGV Bioeconomia.

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O primeiro sinal de urgência foi o preço, e a saída imediata foi dobrar a aposta no petróleo. No final de 2025, o barril do petróleo estava cotado em US$ 64,00 e, após o ataque ao Irã, a cotação alcançou o pico de US$ 120,00 em março. A reação global foi recorrer justamente às fontes fósseis para suprir a demanda energética – antes que elas encarecessem ainda mais. Segundo um levantamento feito pela Bloomberg, os estoques globais de petróleo, estimados em quase 9 milhões de barris em fevereiro, caíram para cerca de 7,6 milhões de barris em junho.

“No curto prazo, a crise reforça o recuo para fontes fósseis, principalmente para países importadores que ficam mais expostos. Os governos acabaram utilizando suas reservas de petróleo ou, em alguns casos, trocam o gás pelo carvão, priorizando a segurança energética das nações”, avalia Pinto. Assim, a via da transição energética ficou para um horizonte mais distante. 

Impactos da crise, um efeito dominó

O mercado internacional continua a sofrer os impactos da crise, principalmente em economias dependentes dos navios que transitam pelo Golfo Pérsico, como a Ásia. “O fechamento de Ormuz marca o maior choque na cadeia de petróleo da história, o impacto só não foi maior porque reservas de petróleo foram usadas”, avalia Felipe Serigati, pesquisador da FGV e doutor em economia. 

O temor de uma nova escalada não deve acabar logo. O vai e vem do cessar-fogo entre os EUA e o Irã entrou em uma nova fase após novos bombardeios entre os países em julho, impedindo a reabertura de Ormuz. E o presidente Donald Trump passou a afirmar que Washington irá tomar o controle da rota e passará a cobrar 20% de tarifa pelas mercadorias que passarem por lá. 

A incerteza gerada pela incapacidade de os países cumprirem acordos e avançarem nas negociações mantém o valor do petróleo oscilante. Após uma breve queda em junho, ele voltou a subir em julho. 

Nos últimos meses, diversos setores da economia foram afetados pela que é considerada uma das maiores crises energéticas das últimas décadas. O bloqueio da região no Golfo Pérsico não impactou somente o abastecimento de petróleo e gás natural, mas respingou no setor de fertilizantes e outros insumos industriais – inclusive aqueles que sustentam a transição energética, como o enxofre e ácido sulfúrico, usados para produção de baterias que transitam pelo Estreito, além de grafite para veículos elétricos. 

Isso tudo desencadeou um efeito dominó. “É um transbordamento que acaba impactando em diversos segmentos da economia”, afirma a coordenadora Pinto.

Um sofrimento em escala e a resposta ao desespero 

A principal região afetada foi a Ásia, que era destino da maior parte dos insumos que transitavam pelo Estreito de Ormuz. “A redução inicial da oferta global já foi de mais ou menos 10 milhões de barris por dia e foi a maior perda de oferta de petróleo já registrada.” explica a coordenadora. 

Os principais países afetados incluem as Filipinas, Indonésia, Tailândia e a China. Porém, mesmo economias que não dependem fortemente do petróleo que transita por Ormuz foram afetados pela guerra, mas de insumos da região. É o caso do Brasil, que utiliza os fertilizantes importados no setor agropecuário. 

Logo após a guerra as nações tomaram diferentes ações para lidar com a crise no curto prazo. A China ordenou a suspensão das importações de petróleo e passou a utilizar suas reservas; o Reino Unido liberou ajuda de custos para famílias de baixa renda que utilizam óleo para calefação; no Egito houve mudanças no período laboral, reduzindo a jornada de trabalho para poupar energia; o Sudão do Sul racionou a eletricidade em Juba, capital do país; as Filipinas declararam emergência energética implementando semana de trabalho de quatro dias, além de fornecer subsídios aos motoristas de transporte afetados pela crise; a Tailândia estabeleceu orientações para uso reduzido de ar-condicionado e migrou o trabalho em órgãos governamentais para o home office, conforme mostrou um levantamento da rede BBC logo no início da crise. 

Assim, muitos desses países optaram por utilizar estoques de petróleo, enquanto outros decidiram implementar medidas de racionamento ou corte de custos. Essas medidas são ações imediatas para conter um quadro de insegurança energética, porém a crise do petróleo despertou a necessidade de uma resposta estrutural em direção à autonomia energética. 

“Quando o petróleo entra em crise percebe-se a necessidade de reduzir cada vez mais a dependência dessas fontes fósseis que estão concentradas em algumas regiões”, afirma Pinto.

A autonomia energética pode ser alcançada pelo uso de fontes alternativas, sobretudo renováveis, mas esse tipo de movimento demanda tempo e investimentos – recursos que não se têm à disposição no dia seguinte a uma emergência, mas que exigem olhar de longo prazo, antes de um novo choque. 

Um aceno à transição? 

Em alguns casos, foi isso o que aconteceu, com o avanço de fontes alternativas aos fósseis desde o acirramento do conflito no Oriente Médio. Segundo dados do think tank Ember, a geração eólica e solar global aumentou em 13% em abril após o início do conflito e o bloqueio de Ormuz. 

Mesmo os Estados Unidos de Donald Trump – conhecido pelo seu lema “Drill, baby, drill” em referência à queima dos combustíveis – aumentaram a geração de energia eólica e solar em 8%. Outras potências mundiais, como o Reino Unido e a China, aceleraram sua geração energética por renováveis de forma ainda mais expressiva, com um aumento de 35% e 13%, respectivamente.

As Filipinas, um dos países mais afetados pela crise, triplicaram as importações de painéis solares no primeiro trimestre de 2026 em relação ao mesmo período em 2025, segundo a Agência Internacional de Energia (IEA). A Agência também projetou uma queda na demanda mundial por petróleo em 420 mil barris por dia, resultando em 104 milhões de barris por dia em 2026, o que, segundo a agência, representa 1,3 milhões a menos da demanda prevista pré-guerra.

Segundo o especialista em energia do ClimaInfo, Alexandre Gaspari, a transição energética tinha uma carga muito voltada para o discurso do clima e meio ambiente mas “a guerra, escancara a necessidade de segurança energética. Ela joga a urgência da transição energética numa componente econômico-financeira, não apenas climática.” Gaspari defende que a urgência da transição já está comprovada, mas o ritmo que ela irá tomar ainda é uma incógnita.

Oportunidade à vista 

Os especialistas entrevistados pelo JOTA concordam que fontes renováveis já se mostraram capazes de atender à demanda energética e se tornam cada vez mais competitivas no mercado de energia mundial, porém, uma transição de fato exige tempo. O momento atual se mostra crítico para unir a eficiência das renováveis às demandas econômicas.

Em 2025, a energia limpa foi capaz de, pela primeira vez, suprir a demanda global por energia elétrica, segundo dados da Ember. Enquanto o uso no ano chegou a 849 trilhões de watts por hora (Twh), e fontes limpas geraram 876 Twh. Destaca-se neste dado o protagonismo da energia solar, que sozinha gerou 636 TWh. 

“Esse dado conta uma história; o crescimento da produção via energia solar tem superado expectativas e, pela primeira vez, toda demanda mundial por eletricidade poderia ter sido atendida por renováveis”, considera Serigati.

Gaspari, por sua vez, destacou a competitividade das baterias de armazenamento de energia eólica e solar. “Um dos principais elementos para acelerar a transição energética é o barateamento dos sistemas de armazenamento de energia, que são a grande chave para garantir um fornecimento firme das fontes eólica e solar, fontes intermitentes de energia.”

Segundo o relatório da Associação Internacional de Energia Renovável (IRENA), as fontes renováveis já superaram os combustíveis fósseis em custo. Os dados apontam custos fixos para energia solar armazenada que variam de US$ 54 a US$ 82 por megawatt-hora (MWh). Enquanto para novas plantas de carvão na China o custo varia entre US$ 70-85, e ultrapassa US$ 100 por MWh para novas usinas a gás em escala global.

Dessa forma, quando se trata de segurança contra a escalada de preços da energia, as fontes renováveis se tornaram uma opção segura. Mas esse caminho não parece ser simples. 

O Brasil é um exemplo do que pode ser visto como um descompasso com o que o momento demanda. É um país que possui infraestrutura e matéria-prima disponíveis para a produção de biocombustíveis, parte da matriz elétrica brasileira provém de fontes renováveis, e há um histórico de transição e incentivo a fontes limpas, como o etanol, para superar momentos de crises. Além disso, existem leis de incentivo à produção de energia limpa e biocombustíveis, como o Renovabio e a Lei do Combustível do Futuro. 

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Em novembro passado, o país recebeu a COP30 em Belém (PA) e o governo Lula pediu o desenvolvimento de um “Mapa do Caminho” para reduzir a dependência de combustíveis fósseis pelos países signatários, o que tem sido liderado pela presidência brasileira até a próxima conferência climática, em novembro, na Turquia. O documento deve prever medidas combinando redução da demanda com uso de alternativas. Ainda assim, o Plano Decenal de Energia (PDE), aprovado na quinta-feira (5/7), caminha na direção oposta à transição energética, ao estabelecer 80% dos investimentos em energia até 2035 para a expansão de combustíveis fósseis.

Ao JOTA, o Ministério de Minas e Energia (MME) defendeu que o volume de investimentos discriminados no Plano e que concentra 80% dos valores à cadeia de gás e óleo reflete as características econômicas e tecnológicas do segmento, que envolve “elevada intensidade de capital”. 

“Conforme demonstrado pelo PDE 2035, a expansão projetada é compatível com a continuidade da transição energética brasileira. A participação das fontes renováveis na Oferta Interna de Energia permanece acima de 50% ao longo de todo o horizonte decenal, enquanto a participação de petróleo e derivados é reduzida de 33% para 29%.” O Ministério reforça que o plano não aloca investimentos públicos, apenas desenvolve estimativas que projetam investimentos esperados na economia brasileira.

O argumento que pesa no bolso 

Em escala nacional e global, o choque da guerra pode não impulsionar a transição energética a curto prazo, mas reflete em mudanças a longo prazo que já estão sendo pavimentadas e reforça a competitividade de fontes renováveis. Os especialistas especulam que a tão aguardada transição não seja desencadeada pela emergência climática, mas pela necessidade de segurança energética.

“Ficou muito claro, sobretudo para os países do sul global, por razões econômico-financeiras, que é preciso avançar na transição energética. Os impactos agora estão escancarados. Está doendo diretamente nos cofres das empresas e nas contas públicas dos países”, conclui Gaspari.

Serigati pondera que o mundo está pensando em renováveis, mas as mudanças acontecem a longo prazo. “Não é, necessariamente, o fechamento do estreito de Ormuz que vai fazer com que o planeta pense em soluções alternativas. É algo que podemos ver acontecer a longo prazo, principalmente no avanço das fontes alternativas e no desenvolvimento tecnológico”, conclui.

“O risco geopolítico continua incorporado ao custo do petróleo. Quando convertemos a segurança de suprimento no principal argumento a favor de fontes de eletrificação, isso sobrevive à eventual reabertura do Estreito de Ormuz. É um momento muito importante para transformar a crise num custo de oportunidade que vai trazer benefícios futuros, não só econômicos, mas também ambientais”, conclui Pinto.

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