Com as desistências de Paulo Serra (PSDB) e Kim Kataguiri (Missão) de disputar o governo de São Paulo, a forte possibilidade de a eleição estadual ser decidida ainda no primeiro turno elevou a tensão no PT paulista e na campanha de Lula. O presidente não cogita ficar sem palanque no maior colégio eleitoral do país em um eventual segundo turno na eleição nacional e pediu ao partido uma estratégia para evitar que isso aconteça.
O planejamento eleitoral traçado pelos petistas e seus aliados até agora para São Paulo pressupõe que Lula tenha um defensor de primeira linha até o final da campanha no estado. Esse papel foi determinado a Fernando Haddad (PT) e encarado por ele como “missão” ou até mesmo “sacrifício” em nome de uma causa maior, a reeleição do presidente.
As mais recentes pesquisas, como a do Instituto Datafolha divulgada no sábado (20/6), indicam um eventual segundo turno apertado entre o presidente e Flávio Bolsonaro (PL), apoiado por Tarcísio: o petista tem 47% das intenções de voto contra 43% do senador de oposição. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos.
Outro efeito da renúncia de Serra deverá ser sentido diretamente na campanha de Tarcísio de Freitas (Republicanos). O PSDB, a partir de agora, está liberado para avançar nas negociações com o governador, candidato à reeleição, no sentido de integrar sua coligação. Caso a adesão se confirme, estará formada a maior frente de centro-direita das eleições para o governo de São Paulo desde a redemocratização.
No sábado (20/6), Kataguiri anunciou sua desistência. No dia seguinte, foi a vez de Serra. Juntos, eles somavam entre 7% e 11% nas pesquisas de intenção de voto para o Palácio dos Bandeirantes e disputavam uma fatia do eleitorado de centro-direita, assim como Tarcísio de Freitas. Sem os pré-candidatos do Missão e do PSDB na disputa, aumenta muito, com base nos dados atuais, a chance de o governador ser reeleito no primeiro turno.
Conforme a legislação eleitoral, um candidato é eleito em primeiro turno quando obtém a maioria absoluta dos votos, excluindo os em branco e os nulos. As mais recentes pesquisas para o governo de São Paulo, com Serra e Kataguiri apresentados aos entrevistados como pré-candidatos, mostram Tarcísio obtendo taxas superiores a 40%, chegando a 45% em alguns cenários.
Portanto, sem Serra e Kataguiri, a provável tendência é de um aumento nas intenções de voto de Tarcísio, o que, praticamente, definirá a eleição na primeira fase em favor do governador. Esse cenário aumenta a pressão sobre Haddad e pode prejudicar Lula na batalha pela reeleição.
Em 2014, Geraldo Alckmin, então no PSDB e na oposição ao PT, foi reeleito governador em primeiro turno em São Paulo. Na fase decisiva, com os petistas sem palanque no estado, Aécio Neves (PSDB) abriu quase sete milhões de votos sobre Dilma Rousseff (PT) no segundo turno.
Agora, o PT volta a enfrentar o fantasma de ser derrotado em primeiro turno, que já o assombrou em 2006 e 2010, e a enxergar a hipótese de Haddad não ter espaço para continuar desempenhando seu principal papel na pré-campanha até agora, o de defender o presidente e seu governo, no qual foi ministro da Fazenda.
No pior cenário para o PT, o encerramento da eleição em São Paulo no primeiro turno pode desmobilizar o campo da centro-esquerda no maior colégio eleitoral do país e, em sentido contrário, deixar a frente formada em torno de Tarcísio completamente focada em ajudar Flávio ou qualquer outro candidato a presidente de centro-direita em um eventual segundo turno nacional.
Terceira via
Tanto Serra quanto Kataguiri buscavam ocupar o espaço de uma terceira via, historicamente determinante nas eleições paulistas. Em todas as disputas nas quais houve um segundo turno, ela foi forçada por três ou mais candidatos competitivos. Na mais recente, por exemplo, em 2022, além de Tarcísio e Haddad, havia o então governador, Rodrigo Garcia, que disputou votos no primeiro turno com o atual ocupante do Palácio dos Bandeirantes.
Não por outro motivo, desde o final da semana passada, quando foi informado nos bastidores de que Kataguiri e Serra poderiam desistir das pré-candidaturas, o PT passou a buscar alternativas para evitar a polarização do cenário entre Tarcísio e Haddad já no primeiro turno. Uma das alternativas aventadas é lançar o ex-governador Márcio França (PSB) ao Executivo paulista ou até mesmo a ex-ministra Simone Tebet (PSB).
A hipótese esbarra na intenção de ambos de concorrer ao Senado, pois as pesquisas indicam boas chances de o campo da centro-esquerda conquistar uma cadeira na Casa. No entanto, se Lula e o Planalto julgarem ser necessário o lançamento de uma outra candidatura de centro-esquerda ao governo de São Paulo, trabalharão com a ideia de “sacrifício” e “missão” para convencer o PSB a encabeçar uma chapa que, na prática, poderá se transformar em linha-auxiliar de Haddad.
Fortalecer os partidos
Os desistentes anunciaram que deverão concorrer a deputado federal para fortalecer seus partidos. Kataguiri, que já ocupa uma vaga na Câmara, disse que também estará diretamente empenhado na candidatura de Renan Santos (Missão) a presidente da República, enquanto Serra sinalizou que o PSDB abandonou o projeto presidencial e terá como prioridade o Legislativo.
O comando do Missão ainda avalia lançar um nome ao governo, mas, dificilmente, ele terá o mesmo apelo de Kataguiri, um dos fundadores do Movimento Brasil Livre (MBL), que deu origem ao partido. Outra alternativa é declarar neutralidade na disputa pelo Palácio dos Bandeirantes, pois o deputado federal, na condição de pré-candidato, vinha criticando a gestão Tarcísio de Freitas e se posicionando à direita do governador.
A tendência do PSDB, no entanto, é integrar a coligação de Tarcísio, que já conta com os compromissos de PL, MDB, PSD e da federação União-Progressistas, entre outras forças desse campo político. Aliados do governador se comprometeram a abrir espaço para os tucanos em eventual novo mandato de Tarcísio.
Com a desistência de Paulo Serra, será a primeira vez que o PSDB não terá um candidato ao governo de São Paulo desde a criação do partido, em 1988. A decisão sobre apoiar ou não Tarcísio será tomada pelas direções nacionais do PSDB e do Cidadania, que integram uma federação. Na prática, porém, prefeitos, vereadores e deputados tucanos já estão liberados para aderir ao atual governador.