‘Caiu a ficha do mundo real’: urgência climática domina reunião da ONU antes da COP31

Após dez dias de negociações intensas na 64ª Sessão dos Órgãos Subsidiários da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (SB64), a última grande reunião técnica antes da próxima Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP31), está claro que o importante é o que está fora do trilho das negociações formais do clima. O debate sobre a descarbonização dos sistemas energéticos, alimentado por uma crise sem precedentes, varreu as salas dos negociadores em Bonn, na Alemanha, onde estiveram reunidos todo esse tempo.

Não por acaso, a sala onde foi apresentado um primeiro rascunho do Mapa do Caminho para redução da dependência dos combustíveis fósseis, o “transitioning away from fossil fuels”, no jargão climático, foi de longe a mais disputada. O evento estava lotado.

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O que tem oferecido uma certa dose de confiança a todos é que, se no ano passado, com a geopolítica tumultuada, houve a compreensão da urgência climática, da necessidade de se encontrar caminhos e do argumento moral para se atuar, este ano, com o agravamento da situação — o que muitos sequer imaginavam possível —, está claro que os argumentos econômicos e da segurança prevalecem, reforçando que o momento para agir é agora.

A SB64 foi mais “silenciosa” do que a do ano passado, a despeito da geopolítica mais tumultuada do que nunca fora dos corredores do World Conference, em Bonn. Essa é a avaliação geral, de negociadores a observadores do processo.

O que está por trás desta sensação é justamente o fato de os quase 200 países presentes terem entendido a sensibilidade do momento. Até porque, diante da crise energética global sem precedentes e da pressão exercida sobre os preços das diferentes economias mundo afora, juros e contas públicas, o cidadão comum também quer depender menos dos fósseis.

Normalmente, não se vê a agenda de implementação com tamanha força em uma SB. Afinal, trata-se de uma grande reunião técnica. No entanto, segundo fontes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC) ouvidas pelo JOTA, existe agora convicção de que é preciso colocar de pé a agenda do que estará no próximo Global Stocktake (GDA), que será revisto em 2028, na COP32, na Etiópia. Este é componente fundamental do Acordo de Paris, usado para monitorar sua implementação e avaliar o progresso coletivo alcançado na consecução dos objetivos acordados.

“Caiu a ficha do mundo real. É preciso acelerar o progresso nas negociações e no mundo real”, afirmou este interlocutor.

Em suas palavras finais, no último dia de Bonn, o secretário Executivo do UNFCCC, Simon Stiell, afirmou que nada disso quer dizer que as imensas diferenças tenham sido resolvidas. Ainda há muitas arestas a serem aparadas até a COP31, em Antália, na Turquia.

“Simplesmente não podemos nos dar ao luxo de reabrir decisões anteriores, renegociar metas existentes ou retroceder”, disse, em dia especialmente quente, quando a Europa está em boa medida sob alerta canícula, com temperaturas acima dos 32ºC.

Stiell afirmou que todas as partes — como são chamados os países representados — devem se sentir confortáveis ​​e confiantes em reafirmar os compromissos globais existentes, sem selecionar apenas aqueles que lhes convêm taticamente no momento.

“Compromissos assumidos no primeiro balanço global; compromissos que respondem à ciência e ao limite de 1,5ºC; sobre perdas e danos; sobre 300 bilhões; sobre 1,3 trilhão; sobre triplicar o financiamento para adaptação; e muito mais. Estas são as bases”, disse ele, destacando que tem insistido com a presidência turca da COP31 e a presidência australiana das negociações para que tragam ministros para a discussão daqui até a cúpula em Antália, onde será realizada a próxima edição da COP.

Em novembro, o bastão da presidência será passado do Brasil para essa dupla empreitada. O modelo de condução do regime do clima será diferente a partir daí, com dois países no comando.

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O secretário Executivo do UNFCCC afirmou com todas as letras que as tensões geopolíticas do momento varreram as salas de negociações. E isso ficou claro para quem circulou pelos corredores do World Conference Center de Bonn, onde negociadores e técnicos do mundo inteiro, exceto dos EUA, estiveram reunidos.

Os norte-americanos já não estiveram presentes no ano passado formalmente, desde que seu presidente, Donald Trump, anunciou que, mais um vez, deixaria o Acordo de Paris. Mas eles estiveram representados em Bonn, como mostrou o JOTA. Cerca de 75% do PIB do país esteve representado na SB64 a partir do grupo America All In, que tem por trás de seus trabalhos 25 estados, 300 grandes empresas e pouco mais de 3.000 organizações.

Stiell afirmou ainda que é preciso evitar o que se ouviu em algumas salas de negociação: uma tendência familiar ao “primeirismo”.

“Grupos se recusando a cumprir compromissos ou permitir que o processo avance, a menos que outros o façam primeiro”, explicou.

Esta, segundo ele, é a receita para o impasse. Segundo negociadores e fontes de dentro do UNFCCC, ainda há muito a ser negociado até a COP31. “Nada estará acertado até que tudo esteja acertado”, disse uma fonte, lembrando que não se pode perder o “momentum”.

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