Sem acordos concretos, o Brasil e os EUA concordaram apenas com as cenas do próximo capítulo da novela da relação bilateral. A boa notícia é que ambos parecem ter saído satisfeitos, e que Donald Trump manteve o clima cortês, a despeito de certo temor no entorno de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de que o americano pudesse sair com mais uma das suas. A má notícia é que, embora não houvesse expectativa de assinatura de acordos, muitos imaginavam que os dois dariam um passo mais largo adiante.
De concreto, o que houve após as pouco mais de três horas de encontro entre os dois foi a criação de novos grupos de trabalho para discutir itens-chave da relação. Deram ainda 30 dias para que suas equipes técnicas tentem resolver as pendências comerciais e tarifárias. Não falaram em detalhes da investigação comercial sob a Seção 301, que deve ser concluída em breve.
Lula entregou novamente ao americano, por escrito, em inglês, como fez questão de ressaltar, um conjunto de propostas brasileiras para esclarecer os questionamentos de Washington e evitar novas taxações. Segundo fontes ouvidas pelo JOTA, não fazer ofertas aos EUA seria não entender a dinâmica atual da Casa Branca. “É preciso oferecer business para eles”, disse esse interlocutor.
Entre as propostas, aparece, pela primeira vez, o tema dos minerais críticos. Lula ressaltou, em entrevista à imprensa, ter deixado claro ao homólogo que o Brasil quer investimentos dos EUA e de outros países, e que não tem preferências, desde que a exploração inclua beneficiamento no território brasileiro.
O presidente também disse ter esclarecido ao americano que “qualquer plataforma de qualquer país do mundo pode operar no Brasil sob a regulamentação soberana do Brasil”. Mas destacou que “era necessário vir aqui para dizer isso”. Esse é um dos temas considerados problemáticos pelo Palácio do Planalto por conter uma série de “irritantes” para a relação. É por meio das big techs que o governo teme eventuais interferências dos EUA na eleição brasileira de outubro.
Aos jornalistas, Lula ainda disse que, neste encontro, bem mais longo do que o esperado, não se falou de Pix nem de classificação de PCC e CV como grupos terroristas.
Os americanos haviam deixado claro aos técnicos do governo, em reuniões anteriores, que o meio de pagamento eletrônico brasileiro era uma ameaça às empresas americanas.
E, em algumas situações, ventilaram à imprensa que estavam considerando classificar os dois grupos criminosos brasileiros como terroristas. Este é um dos temores deste governo, porque uma mudança na forma de tratamento dada pelos EUA aos dois grupos teria impacto significativo sobre o sistema financeiro brasileiro como um todo.
Domesticamente, esta é pauta importante para a campanha eleitoral brasileira. A direita vinha defendendo que os americanos o fizessem. E já se preparava para acusar o governo de travar o assunto na reunião desta quinta-feira, caso fosse firmado um acordo de combate ao crime organizado entre Brasil e EUA.
O encontro “olho no olho”, negociado desde novembro passado, serviu para reafirmar a “suposta proximidade”, manter canais abertos e prometer desdobramentos, além de uma espécie de cronograma de trabalho.
Como sinal político, foi um gesto importante para fora e para dentro. Mas, a essas alturas do campeonato, a expectativa era de algo mais concreto. Em post no Truth Social, Trump disse que a reunião foi muito boa, referiu-se a Lula como o “dinâmico Presidente do Brasil” e comprometeu-se com os próximos passos, sem maiores detalhes. Na verdade, mencionou diretamente a pauta tarifária, mas não outras. E falou em meses pela frente. Ou seja, nada muito conclusivo para o curto prazo.
O brasileiro, por sua vez, mandou recado à oposição. Disse que poucos acreditavam que a sua relação com Trump poderia acontecer tão depressa. Falou em “amor à primeira vista” e “aquele negócio da química”, mas volta para casa com novas promessas.