A discussão sobre o fim da jornada de trabalho no modelo 6×1 ganhou tração no Congresso Nacional e deve avançar nos próximos meses. Antes restrito a setores que adotam essa escala, o tema passou a impactar também empresas com jornadas de 44 horas semanais, mesmo que em outras escalas de trabalho. Nesse cenário, cresce a tendência de adaptação negócios a uma possível redução para 40 horas semanais, segundo a advogada Patricia Barboza, head trabalhista do CGM Advogados e membro do Comitê de Emprego e Relações Industriais da International Bar Association (IBA). Ela abre a série “Além da jornada 6×1: estudos e impactos jurídicos”.
A série foi produzida especialmente para assinantes do PRO Trabalhista, que terão acesso antecipado às entrevistas completas, disponibilizadas no Youtube. Os episódios serão publicados semanalmente, às quartas-feiras, reunindo especialistas com diferentes visões sobre os impactos jurídicos, econômicos e sociais da mudança.
Segundo Barboza, há hoje diversas propostas em tramitação no Congresso, que vão desde a redução da jornada para 36 horas semanais até modelos mais próximos do atual. Ainda assim, a tendência mais forte aponta para a adoção do regime de cinco dias de trabalho e dois de descanso, com carga semanal de 40 horas.
Apesar do consenso sobre os benefícios da redução da jornada, especialmente em relação à qualidade de vida e à saúde mental, o principal desafio está na implementação. Para Barboza, a questão não envolve um embate entre trabalhadores e empregadores, mas sim a necessidade de reorganizar as operações sem redução salarial e sem comprometer a sustentabilidade dos negócios. Setores intensivos em mão de obra, como varejo, saúde e logística, devem sentir os maiores impactos.
“Não acho que nenhum empresário, que às vezes é visto como um vilão, está fazendo as pessoas trabalharem mais do que o necessário, faz isso porque quer, faz isso porque deseja, e não acho que necessariamente ideologicamente se opõe. A questão é, os negócios estão ali orientados, considerando horas de trabalho por semana e seis dias de trabalho por semana com um de descanso”, afirma a advogada na entrevista.
A especialista destaca ainda que a redução da jornada é uma tendência global. Na Europa, o movimento já está consolidado após um processo gradual de adaptação, com jornadas médias próximas de 36 horas semanais. Na América Latina, países como Chile, México e Colômbia também avançam nessa agenda, geralmente por meio de transições faseadas — modelo que, na avaliação de Barboza, seria o mais adequado para a realidade brasileira.
Mesmo diante dos desafios, o Brasil já tem experiências em curso. Empresas que migraram do modelo 6×1 para o 5×2, como Drogaria São Paulo e Bacio di Latte, registraram aumento na satisfação dos trabalhadores e redução da rotatividade, em alguns casos sem necessidade de ampliar o quadro de funcionários.