O debate global sobre o setor automotivo tem se centrado na tecnologia. Elétrico ou híbrido? Bateria ou combustível? Conversa importante, mas insuficiente. A grande questão não deveria ser sobre qual tecnologia vencerá. Mas onde elas podem coexistir, escalar e fazer sentido econômico.
A indústria automotiva passa por uma recalibração estrutural. Montadoras reduzem CAPEX, revisam portfólios e reforçam a disciplina financeira, em um contexto de fragmentação pela qual o mundo passa. Os Estados Unidos adotam medidas mais protecionistas e diminuem subsídios, a Europa endurece as regras de emissões e a China avança com escala, preços e presença internacional.
O resultado é um setor mais multipolar, assimétrico e fortemente influenciado por geopolítica, energia e política industrial. Nesse ambiente, o Brasil reúne uma combinação única de fatores que o posicionam em destaque.
Comecemos pela energia, um clichê excêntrico frequentemente ignorado. Enquanto grandes economias lutam para limpar suas redes, cerca de 87% da nossa eletricidade vem de fontes renováveis. A diferença é matemática: carregar um veículo elétrico no Brasil emite algo em torno de 60 kg de CO₂ por megawatt-hora, ou seja, sete vezes menos CO₂ do que para carregar o mesmo carro nos EUA, que emite cerca de 400, e quase onze vezes menos do que carregar esse carro na China, que emite 650. Essa realidade altera a equação da eletrificação. Em solo brasileiro, um carro elétrico é, por definição, mais limpo porque não carregamos o peso do carbono que muitos países ainda entregam direto na tomada.
O segundo vetor é estrutural. O Brasil reúne ativos críticos para a transição energética. Lítio, grafite, manganês, ferro e um potencial considerável em terras raras. Se o século passado foi definido pelo petróleo, o atual começa a ser moldado por quem tem acesso à energia limpa e controlam minerais críticos. Com isso, deixamos de ser apenas um grande mercado consumidor, para a integrar a base produtiva dessa transformação em curso.
Há ainda um terceiro fator menos visível, mas cada vez mais relevante: a segurança logística. Em um mundo repleto de tensões comerciais, tarifas e ameaças a rotas estratégicas, a localização geográfica da produção voltou a importar. Nesse aspecto, mais uma vez, o Brasil opera com vantagem objetiva: menor exposição a gargalos geopolíticos.
Mas, talvez, o diferencial mais sofisticado – e até subestimado – nesse debate seja outro. O Brasil é um dos poucos grandes mercados onde múltiplas rotas tecnológicas podem coexistir com racionalidade econômica. Elétricos, híbridos, híbridos flex, híbridos plug-in e biocombustíveis funcionam todos ao mesmo tempo. Cada tecnologia encontra seu espaço, cada público sua escolha. Sem brigas e com preços cada vez mais competitivos. Enquanto parte do mundo é forçada a uma única escolha, o Brasil permite combinação e adaptação de várias delas. E isso torna o País um ambiente natural para experimentação e escala.
Mesmo reconhecendo a liderança em escala, custo e velocidade da China, que agora exporta com vigor, impulsionada por excesso de capacidade doméstica e uma estratégia industrial altamente eficiente e de longo prazo, não dá para negar que a lógica competitiva mudou.
A disputa não é mais produto contra produto. É ecossistema contra ecossistema. Cadeia de suprimentos, infraestrutura, presença no nível local, regulamentação e disciplina de capital agora determinam quem avança. Isso dá vantagem relevante às empresas com presença global diversificada, domínio tecnológico diverso, que podem operar em vários sistemas ao mesmo tempo.
O futuro da mobilidade, portanto, não será definido apenas por tecnologia. Será definido pela capacidade de integrar energia, minerais estratégicos, indústria, geopolítica e economia de maneira coerente, interdependente e conectada. E, sob essa lógica, o Brasil não precisa correr atrás desse futuro. Nós já reunimos muitos dos elementos que vão ajudar a moldá-lo.
Nossa missão agora é não desperdiçar isso. Precisamos avançar em marcos regulatórios (terras raras, políticas de promoção da produção nacional); concluir e fortalecer acordos comerciais, promover o Brasil como hub de produção, consumo e exportação em escala de múltiplas tecnologias e, não menos importante, parar de tratar mobilidade como assunto de montadora. O futuro da mobilidade como um elemento chave da descarbonização do planeta é assunto de País.
Esses temas merecem estar no centro das agendas de governo. E deveriam constar nos programas de qualquer candidato a cargo majoritário.
Geografia voltou a importar. E, nesse cenário, além de ser “abençoado por Deus e bonito por natureza”, o Brasil reúne as principais características para se catapultar como um dos grandes destinos de investimentos nas tecnologias de mobilidade. A questão aqui não é se o investimento baterá à nossa porta. É se a porta estará aberta quando chegar, ou se ainda estaremos procurando a chave.