A pré-campanha de Ronaldo Caiado (PSD) ao Planalto definiu a estratégia que adotará de largada. O principal objetivo é tornar o ex-governador de Goiás mais conhecido do eleitor para além da região Centro-Oeste do país, apresentando-o, especialmente no ambiente digital (redes sociais), como uma alternativa viável e consistente a Lula e o PT.
No horizonte desse primeiro movimento, está a necessidade de inibir o chamado “voto envergonhado” na família Bolsonaro, hoje captado por Flávio Bolsonaro (PL). Ou seja, Caiado quer atrair o eleitor que rejeita Lula e que só se alinha ao ex-presidente e seu filho mais velho por falta de opções à direita.
Em linhas gerais, a ideia basilar para esta fase inicial é convencer os eleitores de centro e de direita de que a pré-candidatura de Caiado ao Planalto “é para valer” e tem chances de vitória porque ele não entrou na disputa para ser “linha auxiliar” de Flávio Bolsonaro, com quem o ex-governador de Goiás mantém relação de cordialidade.
Conforme os cálculos de Caiado, se, com essa estratégia, ele começar a subir nas pesquisas de intenção de voto, ainda que lentamente, aos poucos passará a ser visto como a melhor opção para evitar a reeleição do atual presidente. No mais recente levantamento do instituto Quaest, realizado em março último, o ex-governador marcou 4%, muito abaixo de Flávio Bolsonaro, que atingiu entre 30% e 35%. Lula lidera em todos cenários, entre 36% e 39% (a pesquisa foi encomendada pela Genial Investimentos e ouviu 2.004 pessoas com 16 anos ou mais entre os dias 6 e 9 de março. A margem de erro é de 2 pontos para mais ou para menos e o nível de confiança é de 95%).
Experiência
Ainda que Caiado, 76 anos, e Flávio Bolsonaro, 44 anos, ocupem o mesmo campo político e mantenham convergência nas críticas ao presidente Lula, a estratégia é, aos poucos, elencar as diferenças entre ambos, reafirmando a maior experiência administrativa do ex-governador, suas realizações na área social, como os investimentos em educação em Goiás, e sua longa trajetória na vida pública.
Toda a comunicação, comandada pelo marqueteiro Paulo Vasconcellos, responsável pela campanha a presidente de Aécio Neves (PSDB-MG), em 2014, será no sentido de transmitir ao eleitor a percepção de que Caiado é uma alternativa sólida para o campo antipetista e um político mais capacitado do que Flávio, que ainda não ocupou cargos no Executivo. Conforme o planejamento inicial, esse trabalho será feito, na medida do possível, sem ataques diretos ao filho do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Segundo pesquisas qualitativas realizadas pela pré-campanha, quando o eleitor de Flávio Bolsonaro é apresentado a alguns atributos de Caiado, admite que pode mudar de voto no primeiro turno para derrotar Lula e o PT. O ex-governador também teria mais condições de conquistar apoios no grupo dos chamados “eleitores independentes”, aqueles que rejeitam Flávio e o atual presidente.
Caiado vem repetindo que é um “candidato independente”. No entanto, esse bordão não significa que ele acredita em uma “terceira via” fora da polarização. Essas mesmas pesquisas indicam que a disputa se dará, novamente, entre direita e esquerda. Nesse sentido, ele deixa claro que tem lado, a direita.
São Paulo e força do agro
Outro ponto importante é a estruturação de um comitê de campanha em São Paulo, onde funcionará o “QG” do pré-candidato. Caiado deverá ter uma estrutura independente da montada pelo PSD, que permanecerá com sua sede no antigo edifício Joelma, no centro da capital. O maior colégio eleitoral do país é tido como estratégico para levar o ex-governador ao segundo turno.
Segundo um interlocutor de Caiado, Flávio Bolsonaro, que tem base eleitoral no Rio de Janeiro, terá dificuldades em São Paulo, especialmente no interior do estado, onde a cadeia do agronegócio é um dos principais motores da economia. Nos bastidores, há ainda a esperança de que o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), em busca da reeleição, abra seu palanque para o presidenciável do PSD.
O presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, prometeu a Caiado uma parte robusta do Fundo Eleitoral do partido. Além disso, o presidenciável e sua equipe contam com o bom trânsito dele entre empresários do agronegócio para captar recursos. A meta é manter uma estrutura que permita fazer uma campanha do mesmo nível de Flávio Bolsonaro e Lula, hoje os favoritos, conforme as pesquisas.
A participação do agronegócio na pré-campanha e na campanha não se limita às eventuais doações financeiras. O discurso de Caiado, ex-presidente da União Democrática Ruralista (UDR), será muito focado em sua relação com o campo, com a música sertaneja e com o setor. A gestão no governo de Goiás será citada como exemplo de um Brasil que dá certo, impulsionado pela força do agro e do setor de serviços.
Segurança e educação
Caiado manterá discurso duro contra a corrupção e pela segurança pública, como vem fazendo desde que assumiu o governo de Goiás, em 2019. Nessa área, o estado apresentou redução nos índices de criminalidade durante a gestão do ex-governador.
Segundo um interlocutor de Paulo Vasconcelos, o marqueteiro está convencido de que o próximo presidente será alguém que tenha ideais de direita mas com preocupação social. De acordo com o governo de Goiás, o estado alcançou o primeiro lugar no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) em 2023 para o Ensino Médio e os anos finais do Ensino Fundamental.