Semana após semana o cenário de polarização entre Lula e Flávio Bolsonaro se cristaliza, desta vez com o anúncio de Ratinho Jr. de que seguirá no comando do governo do Paraná.
A decisão — que era aventada ao menos desde novembro, como o JOTA mostrou à época — aumenta as chances de uma candidatura do PSD mais à direita, com o governador Ronaldo Caiado, cenário considerado desfavorável pelo PT e o entorno de Lula.
Enquanto isso, seguem as investigações sobre o Master e o INSS, fontes infinitas de incertezas.
Boa leitura.
1. O ponto central: ‘Omissão’
O ministro André Mendonça decidiu ontem (23), em liminar, pela prorrogação da CPMI do INSS, Flávia Maia escreve no JOTA.
O magistrado estabeleceu prazo de 48 horas para que o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, leia o requerimento de prorrogação.
A leitura do documento é suficiente para prorrogar a CPMI.
O magistrado ressaltou a “omissão” da cúpula do Congresso ao não dar andamento à prorrogação das investigações.
“Foi uma vitória constitucional”, comemorou o senador Carlos Viana, presidente da CPMI e um dos autores do pedido ao STF.
“Uma decisão como essa devolve um pouco da confiança que a população brasileira quer ter no Supremo Tribunal Federal”, disse.
⏩ Pela frente: A liminar será colocada para referendo no plenário virtual de 3 a 13 de abril.
Já Viana pretende marcar novos depoimentos, especialmente de testemunhas, incluindo representantes de bancos que estão na lista de instituições financeiras com o maior número de reclamações sobre oferta de crédito consignado.
O senador reforçou a necessidade de dialogar com o Supremo sobre uma mudança de posicionamento em relação aos habeas corpus concedidos a testemunhas, que têm impedido a prestação de esclarecimentos à CPMI do INSS.
UMA MENSAGEM DO MATTOS FILHO
Desinvestimentos da Petrobras: racionalidade econômica e retrocessos recentes
O programa de desinvestimentos da Petrobras representou um avanço relevante em disciplina de capital, permitindo reduzir endividamento e concentrar recursos em ativos de maior retorno, como o pré-sal. Além disso, gerou valor ao viabilizar a entrada de novos operadores, que passaram a explorar ativos maduros com maior eficiência, criando empregos, ampliando a arrecadação tributária e dinamizando a cadeia de óleo e gás.
Essa lógica encontra paralelo internacional. A Equinor, por exemplo, apesar de estatal, adota disciplina rigorosa na venda de campos maduros, priorizando ativos mais produtivos e reciclando capital de forma eficiente.
No Brasil, a paralisação dessa agenda por razões ideológicas preocupa. Ainda mais grave, o exercício do direito de preferência pela Petrobras na transação da Petronas em Tartaruga Verde evidencia que a expansão do portfólio de ativos menos eficientes passou a integrar a estratégia, limitando a competição e elevando o risco de destruição de valor.
2. Ventos favoráveis
O senador e presidenciável Flávio Bolsonaro / Crédito: Andressa Anholete/Agência Senado
A prisão domiciliar de Jair Bolsonaro é dada como certa no seu entorno, Marianna Holanda escreve no JOTA PRO Poder.
A avaliação é de que o próprio Supremo Tribunal Federal passou a reconhecer o risco que o ex-presidente corria na Papudinha e avaliou que, se ele morresse na cadeia, o desgaste para a instituição — e para a campanha eleitoral — seria incalculável.
Pela primeira vez, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, deu parecer favorável à prisão domiciliar. Leia mais.
Por que importa: Aliados de Flávio esperam que a decisão tenha impacto positivo na campanha, já que o acesso ao ex-presidente será maior e ele poderá se comunicar mais com a família e com aliados.
Flávio poderia retornar à rotina do ano passado de tomar café da manhã com o pai todos os dias, como fez quando Bolsonaro estava com tornozeleira eletrônica.
De forma geral, a campanha do senador deve ter maior presença do pai.
Na leitura de bolsonaristas, há ainda um fator de simbolismo numa eventual domiciliar do ex-presidente.
A decisão tende a dar uma injeção de ânimo na militância, reforçando o sentimento de que ele é alvo de injustiça.
E o STF, pressionado pelas revelações do caso Master, teria feito o gesto — esta é a leitura do entorno de Flávio.
🔭 Panorama: Se confirmada, a prisão domiciliar ocorre após a última ofensiva da família e de amigos de Jair Bolsonaro junto ao STF.
E, desta vez, o diferencial foi a ida do pré-candidato ao Planalto ao gabinete de Alexandre de Moraes.
Das outras vezes, parlamentares, o governador de São Paulo e a ex-primeira-dama, Michelle Bolsonaro, já tinham feito seus apelos ao ministro.
O encontro com Flávio e a provável decisão favorável a Bolsonaro foram interpretados por bolsonaristas como um gesto de parte a parte.
Para eles, Moraes também teve uma leitura de que era importante abrir uma porta com o grupo político, cuja expectativa é ampliar a bancada do Senado com ele na mira no próximo ano.
Esta também foi a primeira vez que um filho do ex-presidente buscou dialogar com a Corte
3. A ilha
Marco Rubio, ao fundo, observa o presidente Donald Trump / Crédito: Chip Somodevilla/Getty Images
Dois temas da pauta externa são motivo de preocupação mais imediata do governo: uma guerra prolongada no Oriente Médio e Cuba, Vivian Oswald analisa no JOTA PRO Poder.
A primeira é mais evidente por ter potencial para perturbar a economia a partir do impacto sobre preços e juros, como começa a acontecer globalmente, inclusive nos Estados Unidos.
A segunda é mais ideológica e pode afetar o equilíbrio da narrativa eleitoral que vem sendo construída desde a posse de Donald Trump.
💉 Panorama: O Brasil já sabia que a política externa teria papel inédito nesta eleição e vinha se preparando com o que o entorno do presidente Lula chamava de “vacinas” contra discursos que colocassem a esquerda em saia justa.
Sim, mas… Para o efeito Cuba, ainda não haveria antídoto.
Para a Venezuela, Lula já vinha mantendo distanciamento de segurança havia mais tempo, desde a disputa com a Guiana em Essequibo e após a eleição fraudada de Nicolás Maduro.
O fato de haver, na Venezuela, um regime chancelado pelo governo americano neutraliza o discurso da direita no Brasil sobre as críticas ao regime.
“Eles tiraram Maduro, que é um atentado, mas mantiveram todo o regime, a vice-presidente, todo mundo, está tudo igual, e agora inclusive reconheceram o governo. Criou-se uma situação que meio que se neutralizou. No caso de Cuba você não vai ter isso”, admitiu um interlocutor.
⏩ Pela frente: O Brasil é um país grande, mas não dita a agenda internacional.
O que o Planalto vem fazendo é tentar navegar por um cenário global cada vez mais instável, lidando com a influência de superpotências e adaptando-se a eventos externos que afetam a política e a economia doméstica.
Diante das ações erráticas da política externa americana até aqui, é difícil saber o que Washington pretende de fato com Cuba.
A depender do que acontecer — uma possibilidade é que haja mudança de liderança no regime e um acordo comercial com os Estados Unidos —, pessoas próximas do presidente têm dificuldade de enxergar uma saída confortável para a narrativa eleitoral.
Pode ser munição para os eleitores da direita e um balde de água fria para os da esquerda, que vão cobrar ajuda humanitária e posições firmes por parte do presidente.
4. Ele fica…
O governador Ratinho Jr. / Crédito: Geraldo Bubniak/Governo do Paraná
A desistência do governador Ratinho Jr. de concorrer ao Planalto foi um revés para o projeto nacional de Gilberto Kassab, presidente do PSD, e também para Lula, Beto Bombig analisa no JOTA.
O favoritismo entre os presidenciáveis do PSD agora passa a ser de Ronaldo Caiado, governador de Goiás e adversário ferrenho de Lula desde 1989, a primeira disputa presidencial que o petista perdeu.
Por que importa: Se Caiado for mesmo confirmado como pré-candidato ao Planalto, petistas avaliam que ele pode se transformar em uma linha auxiliar informal de Flávio Bolsonaro.
Não por outro motivo, há dentro do PT dirigentes atuando para convencer Kassab a escolher o governador Eduardo Leite (RS).
O gaúcho também é crítico do presidente e do PT, mas já anunciou a disposição de fazer uma campanha em busca do chamado “voto independente” — ou seja, do eleitor que não quer Lula nem Flávio Bolsonaro, linha que Caiado, ao menos por ora, rejeita, preferindo mirar no petista.
⏩ Pela frente: Para permanecerem como opções para o projeto presidencial de Kassab, Leite e Caiado precisam deixar os cargos até o próximo dia 4 de abril.
5. …e ele sai
O ex-governador Cláudio Castro / Crédito: Tânia Rêgo/Agência Brasil
A renúncia do governador Cláudio Castro deve provocar um rearranjo na estratégia do bolsonarismo no Rio de Janeiro, com impacto na chapa anunciada por Flávio Bolsonaro no início do ano, Amanda Almeida analisa no JOTA PRO Poder.
Em fevereiro, o 01 apresentou como encaminhada uma chapa que combinava o então secretário estadual de Cidades, Douglas Ruas, ao governo e dois nomes ao Senado — o próprio Castro e Márcio Canella.
Sim, mas… O desenho dependia de uma premissa que não se confirmou: o adiamento ou a diluição dos riscos jurídicos enfrentados pelo governador no TSE.
O julgamento será retomado hoje (24), com perspectiva de derrota para Castro.
Ao antecipar a renúncia, Castro busca alterar o eixo da disputa judicial.
A aposta de aliados é que, fora do cargo, ele reduza o alcance de uma eventual condenação e evite a sanção mais dura — a inelegibilidade — preservando, assim, sua candidatura ao Senado.
🔄 Panorama: O plano inicial previa que, com a saída do governador, Ruas assumiria o comando do estado por meio de eleição indireta na Alerj — ganhando visibilidade e usufruindo da estrutura administrativa para impulsionar sua candidatura.
Esse cenário mudou com a decisão liminar do ministro Luiz Fux, na semana passada, que estabeleceu a exigência de desincompatibilização com pelo menos seis meses de antecedência para candidatos ao pleito indireto.
Como Ruas ocupava até semana passada cargo no Executivo, ele fica impedido de disputar.
O grupo político ainda não decidiu qual nome vai apoiar diante do novo cenário.
A decisão atendeu a uma ação do PSD, partido do prefeito Eduardo Paes, que questionou a previsão da Alerj de conceder apenas 24 horas após a renúncia para a desincompatibilização.
O STF ainda deve analisar o tema de forma colegiada nos próximos dias.
Além de comprometer o plano original do grupo bolsonarista, a decisão é vista por aliados de Paes como uma oportunidade para o grupo viabilizar um nome competitivo.
⏩ Pela frente: Aliados de Flávio Bolsonaro revisam não apenas o apoio à eleição indireta, mas também a viabilidade da chapa anunciada — que passa a depender, sobretudo, da elegibilidade de Castro.
6. Crimes financeiros e cibernéticos
Os presidentes do BC, Gabriel Galípolo; do STF, Edson Fachin; e do BNDES, Aloizio Mercadante / Crédito: Antonio Augusto/STF
Os chefes do Banco Central, da Polícia Federal e do BNDES se reuniram com o presidente do Supremo, ministro Edson Fachin, para tratar de medidas de combate aos crimes financeiros e cibernéticos, Lucas Mendes registra no JOTA PRO Poder.
Segundo o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, o encontro serviu para colocar o Judiciário a par do que está sendo planejado para proteger o sistema financeiro.
Os órgãos integram um grupo criado para fazer um diagnóstico do tema e propor medidas de enfrentamento às irregularidades.
“O Banco Central está preparando uma série de medidas prudenciais, mas precisa do respaldo da justiça, um respaldo forte para que a gente consiga enfrentar isso”, afirmou Mercadante a jornalistas, ao final da reunião.
Mais cedo, Fachin afirmou que o Judiciário deve ser um dos “protagonistas” do combate contra o crime organizado.
“O Estado precisa agir, o Estado precisa reagir, e o Poder Judiciário deve ser um dos protagonistas desta ação”, disse o ministro.
Para Fachin, o crime organizado vem se tornando uma ameaça ao próprio Estado de Direito Democrático.
“Ele corrói as instituições, captura mercados lícitos, financia a violência, instrumentaliza o sistema financeiro para a lavagem de seus produtos e, no limite, disputa com o Estado o monopólio do uso da força em territórios que, abandonados pelo Poder Público, tornaram-se vulneráveis.” Leia mais.
7. ‘Sem controle’
O ministro Flávio Dino / Crédito: Luiz Silveira/STF
O ministro Flávio Dino prorrogou por mais 30 dias o prazo para que o governo federal apresente um plano emergencial para recompor a capacidade de trabalho do Departamento Nacional de Auditoria do SUS (DenaSUS), responsável pela avaliação interna da aplicação de recursos no SUS, Lucas Mendes registra no JOTA.
A providência havia sido determinada em janeiro, diante da perda da força de trabalho do órgão ao longo dos anos.
Se essa recomposição não for feita, Dino disse agora que adotará “imediatas medidas excepcionais de auditoria e fiscalização”.
⚕️ Panorama: O magistrado ressaltou que um segmento como a saúde pública não pode permanecer “executando dezenas de bilhões de reais em emendas parlamentares (e outras transferências) sem os controles estabelecidos na Constituição Federal”.
“Não ignoro que se trata de uma situação delineada em décadas, porém com a gigantesca elevação das emendas parlamentares no SUS estamos diante de uma inequívoca emergência institucional”, declarou.
Dino ainda avisou que o processo que trata da transparência e rastreabilidade das emendas parlamentares não será encerrado enquanto não houver “o mais alto nível de eficiência” nos controle preventivos das emendas para o SUS.
Segundo dados do governo, o DenaSUS perdeu aproximadamente 50% de sua força de trabalho entre 2001 e 2025.
Enquanto isso, o montante de emendas para a saúde saiu de R$ 5,7 bilhões, em 2016, para R$ 22,9 bilhões, em 2023, atingindo o patamar de R$ 26,3 bilhões em 2025.
8. Colunas e ruínas
A fachada da sede do Banco Master, em São Paulo / Crédito: Rovena Rosa/Agência Brasil
A liquidação extrajudicial do Master reacendeu o debate sobre os limites do FGC (Fundo Garantidor de Créditos), Beatriz de Cicco escreve no JOTA.
Por que importa: O episódio expôs fragilidades do modelo do FGC, pressionou suas reservas e levou a mudanças regulatórias para conter riscos no sistema financeiro.
O desembolso consumiu quase um terço dos recursos do fundo, estimados em R$ 140 bilhões.
🗣️ O que estão dizendo:
“Os bancos menores usam o FGC como instrumento agressivo de captação” — Carla Beni, economista e professora da FGV.
“O fundo fica exposto quando cobre instituições médias com grandes carteiras de CDBs” — Celina Ramalho, economista e sócia da Semear Consultoria.
“As novas regras vão reequilibrar a balança, mas só o tempo dirá se são suficientes” — Armando Castelar, economista e pesquisador do Ibre-FGV.