Nos últimos dias, o presidente dos Estados Unidos intensificou sua retórica e suas ações diplomáticas contra aliados europeus, gerando tensão no relacionamento transatlântico.
Em uma mensagem enviada recentemente ao primeiro-ministro da Noruega, Donald Trump reclamou amargamente por não ter recebido o Prêmio Nobel da Paz, vinculando essa frustração à sua postura agressiva sobre a questão da Groenlândia — território do Reino da Dinamarca cuja soberania europeia ele tem tentado contestar de diversas formas.
Essa carta, descrita por observadores como um acesso de raiva pessoal mais do que uma comunicação diplomática formal, foi recebida com espanto em Oslo e em outras capitais europeias, porque Trump associou de modo inusitado uma prerrogativa pessoal à política externa, sugerindo que a ausência do reconhecimento internacional justificaria uma postura mais beligerante sobre temas como soberania territorial.
Ao mesmo tempo, em plataformas públicas e nas redes sociais, Trump passou a ridicularizar diretamente líderes da União Europeia, compartilhando mensagens privadas e até imagens geradas por inteligência artificial que satirizam a reação europeia à sua campanha para controlar a Groenlândia.
Ele também provocou figuras como o presidente francês Emmanuel Macron, incluindo ameaças de tarifas extremamente altas sobre produtos europeus como forma de pressionar Bruxelas e Copenhague a aceitar suas demandas, e divulgou conversas em que líderes europeus dizem — segundo ele — coisas favoráveis ou hesitantes, buscando expor contradições e enfraquecer suas posições.
Essas ações geraram uma resposta firme de líderes europeus, que veem as ameaças tarifárias e as provocações públicas como formas de “chantagem” e de afronta à soberania dos Estados-membros da UE e à própria coesão do bloco.
Autoridades como a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e Macron declararam que a UE permanecerá unida e responderá em conjunto a pressões externas, fortalecendo laços internos e considerando medidas de retaliação econômicas ou políticas caso Trump persevere nas suas exigências.
Trump e a Ilíada
O comportamento recente de Trump pode ser interpretado como uma aproximação à ética do herói tal como formulada na Ilíada de Homero.
Na obra, o herói não age segundo normas impessoais, tratados ou instituições, mas a partir de honra ferida, prestígio pessoal e afirmação pública de superioridade. A política, nesse universo, é inseparável do gesto, da humilhação do adversário e da exibição da força.
Quando Aquiles se sente desrespeitado, ele não negocia: reage com cólera, suspende a ordem comum e transforma o conflito coletivo em questão pessoal.
Algo análogo aparece no estilo de Trump. Suas comunicações diplomáticas não seguem o registro institucional clássico; elas operam como desafios públicos, nos quais a autoridade deriva menos da posição formal e mais da capacidade de impor constrangimento simbólico aos outros.
A ridicularização de líderes europeus, a exposição de mensagens privadas e o tom de afronta lembram a lógica homérica segundo a qual a honra só existe quando reconhecida — ou negada — diante de todos.
Assim como no mundo da Ilíada, a legitimidade não nasce da lei, mas do êxito e da visibilidade. A verdade confunde-se com a vitória momentânea; a política torna-se um palco de gestos heroicos, não um espaço de deliberação racional.
O líder aparece como figura excepcional, acima das regras comuns, autorizado a agir por força de seu carisma e de sua disposição para o confronto.
A diferença é histórica: o heroísmo homérico pertence a um mundo pré-jurídico, enquanto Trump atua em sociedades estruturadas pelo direito, pela diplomacia e por instituições multilaterais.
Quando essa ética do herói reaparece hoje, ela não funda a ordem — ela a corrói.
O que em Homero é tragédia consciente de seus custos, na política contemporânea tende a se apresentar como virtude, como projeto político.
Nesse sentido, o comportamento de Trump sugere uma re-heroização da política, na qual o governante age como Aquiles: movido pela honra, indiferente às mediações institucionais e disposto a submeter aliados e adversários à lógica do desafio público.
É uma ética da força e da glória que, transplantada para o mundo moderno, entra em choque direto com os fundamentos da política democrática.
Monarquia ou Executivo forte
Ademais, há, no entorno intelectual e político de Trump, um conjunto heterogêneo, mas ideologicamente convergente, de autores, correntes e financiadores que defendem a concentração de poderes no Executivo e, em alguns casos, a superação da democracia liberal em direção a formas neomonárquicas ou pós-democráticas.
Essas ideias não são majoritárias entre os eleitores trumpistas, mas circulam como uma ideologia de vanguarda nos bastidores intelectuais, tecnológicos e jurídicos do trumpismo.
Entre os autores centrais está Curtis Yarvin, conhecido pelo pseudônimo Mencius Moldbug. Yarvin é o principal teórico do chamado neorreacionarismo (NRx).
Ele defende abertamente o fim da democracia e sua substituição por uma monarquia corporativa, ou por um “CEO soberano” dotado de poderes concentrados. Para Yarvin, o Estado deveria funcionar como uma empresa: eficiência importa mais do que legitimidade democrática.
Em sua formulação, a democracia produz desordem e é inevitavelmente capturada por elites burocráticas; a solução seria uma soberania centralizada, clara e incontestável.
Outro nome importante é Nick Land, filósofo ligado ao aceleracionismo de direita e influência direta sobre Yarvin. Land sustenta que a democracia liberal bloqueia as dinâmicas reais do poder, da tecnologia e do capital.
Para ele, o colapso deliberado da democracia não é um risco, mas uma condição necessária para liberar o que chama de “inteligência do capital”. A política democrática aparece, assim, como um entrave à aceleração histórica.
Essas ideias encontram apoio material em figuras como Peter Thiel, bilionário do Vale do Silício, financiador de Trump em 2016 e de diversos políticos trumpistas. Thiel não defende explicitamente a monarquia, mas afirma que liberdade e democracia são incompatíveis.
Ele apoia líderes fortes, alta concentração decisória e a redução do Estado democrático tradicional. Seu papel é decisivo: funcionar como ponte entre teoria autoritária e poder político real.
No plano das correntes, o neorreacionarismo rejeita frontalmente valores iluministas como igualdade, sufrágio universal e constitucionalismo liberal, reabilitando ideias pré-modernas de hierarquia, soberania pessoal e autoridade absoluta.
A monarquia, nesse contexto, não aparece como nostalgia, mas como modelo racional de governo.
Outro eixo é a radicalização da chamada “Unitary Executive Theory”, segundo a qual todo o Poder Executivo deve estar concentrado nas mãos do presidente.
Embora antiga no conservadorismo jurídico, sob Trump essa teoria foi levada ao limite, servindo para justificar o desprezo por controles institucionais e aproximar o presidente da figura de um soberano de exceção.
Tudo isso se articula, na prática, com um nacionalismo autoritário marcado pelo culto ao líder, hostilidade a tribunais, imprensa e burocracias, e desprezo por freios e contrapesos. Esse movimento fornece a base de massa para ideias elitistas e neomonárquicas.
Apesar das diferenças, essas correntes compartilham quatro argumentos centrais:
1) a ideia de que a democracia é ineficiente;
2) que ela não é realmente popular, mas uma oligarquia disfarçada;
3) que o constitucionalismo bloqueia a soberania; e
4) que a ordem deve prevalecer sobre a igualdade.
A monarquia, aqui, não é moralmente exaltada, mas funcionalmente defendida. O ponto decisivo é que não se trata de restaurar reis históricos, mas de instaurar um Executivo absoluto, legitimado por eficiência, tecnologia ou carisma, com eleições esvaziadas ou meramente formais — uma monarquia sem rei, adaptada ao capitalismo de plataforma.
Neopaganismo
O historiador Timothy Snyder interpreta o trumpismo como portador de traços neopagãos, não no sentido religioso estrito, mas como forma de imaginação política antirracional, antijurídica e antiesclarecida.
Em textos e palestras recentes, Snyder argumenta que Trump rompe com a tradição política moderna baseada em fatos, leis e instituições, substituindo-a por uma visão mítica do poder.
Segundo Snyder, o neopaganismo político se manifesta quando a verdade deixa de ser objetiva e passa a ser definida pela vontade do líder, pela força ou pelo sucesso momentâneo.
Em vez de causalidade histórica e responsabilidade jurídica, emerge uma lógica de destino, ciclo e violência naturalizada.
O líder não governa segundo normas universais, mas encarna uma força vital supostamente anterior à lei — uma figura quase xamânica, capaz de “restaurar” a nação por meio da ruptura.
Nesse sentido, Trump não seria apenas um populista ou autoritário clássico, mas o sintoma de uma regressão mais profunda: a substituição do Estado de Direito por uma política de mitos, ressentimentos e rituais de lealdade pessoal.
Para Snyder, essa lógica neopagã abre caminho para o autoritarismo porque dissolve a distinção entre verdade e mentira, direito e violência, tornando a democracia ininteligível para seus próprios cidadãos.
Sinais de regressão
A leitura de Snyder sobre o trumpismo como forma de neopaganismo político pode ser produtivamente comparada à ética do heroísmo presente na Ilíada de Homero. Essas ideias parecem ser compatíveis com algumas das correntes mais radicais presentes na base política de Trump, evidenciando um retorno moderno de lógicas pré-jurídicas do poder.
Assim como no mundo homérico, a verdade deixa de ser objetiva e passa a coincidir com o sucesso do líder; a legitimidade nasce do carisma e da vitória, não da legalidade.
A diferença decisiva está no contexto histórico e normativo. Na Ilíada, essa ética heroica pertence a um mundo pré-jurídico, no qual o Estado moderno ainda não existe.
Já no trumpismo, segundo Snyder, trata-se de uma regressão: a reativação de uma ética da força em sociedades que já conhecem o constitucionalismo, a igualdade jurídica e a distinção entre poder e direito.
O que em Homero é trágico e consciente de seus custos humanos, no neopaganismo político contemporâneo tende a ser naturalizado e celebrado.
Assim, a comparação revela o ponto central da crítica de Snyder: o perigo não é apenas o autoritarismo, mas a re-heroização da política, na qual o líder passa a operar como um herói homérico — acima da lei, legitimado pela vitória e pela lealdade pessoal — em um mundo que deveria ser governado por normas, instituições e responsabilidade democrática.