As revelações sobre repasses feitos pela lobista Roberta Luchsinger ao ex-chefe de gabinete de Lula, Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, acenderam um sinal de alerta na campanha do presidente. Integrantes da coordenação eleitoral tratam o episódio como um dos que apresentam maior potencial de desgaste desde o início da disputa.
Na avaliação reservada de aliados, o caso reúne dois temas especialmente sensíveis para o governo: aproxima o gabinete presidencial do escândalo dos descontos indevidos do INSS e reintroduz na campanha a discussão sobre tráfico de influência dentro da máquina pública comandada pelo petista.
A preocupação decorre menos do valor dos repasses — R$ 249 mil, segundo o próprio Marcola— e mais da sua grande proximidade com Lula. Ele não era apenas um chefe de gabinete. Desde que o petista deixou a Presidência, em 2010, tornou-se um de seus auxiliares mais próximos, acompanhando-o ainda no Instituto Lula. Na prática, exercia o papel de principal ponte entre o presidente e o mundo político.
Essa função ganha relevância porque Lula não utiliza celular nem aplicativos de mensagens. Ministros, parlamentares, dirigentes partidários e aliados costumavam recorrer a Marcola quando precisavam transmitir recados ou solicitar uma conversa com o presidente. Era ele quem organizava boa parte desse fluxo de comunicação e da agenda política de Lula.
É justamente esse aspecto que faz crescer a apreensão entre integrantes da campanha. Caso a investigação avance para medidas como uma eventual apreensão do celular de Marcola, o potencial de desgaste não estaria necessariamente restrito ao objeto da investigação. Um aparelho utilizado durante anos como canal informal de interlocução política pode reunir conversas, contatos e informações sem qualquer relação direta com o caso atual, mas que, se vierem a público em plena campanha, têm potencial para alimentar novos desgastes políticos e sucessivos ciclos de notícias negativas.
Embora não se possa afirmar que exista qualquer conteúdo comprometedor envolvendo o presidente, é fato que, em uma eleição presidencial, a exposição contínua de novos fatos costuma produzir efeitos políticos próprios, independentemente do desfecho jurídico de cada investigação.
Lula foi informado há dias
Segundo relatos de pessoas próximas ao presidente, Lula já havia sido informado sobre os repasses alguns dias antes de o caso se tornar público. Na versão de algumas fontes com acesso ao Planalto, esse teria sido o motivo para a exoneração de Marcola da função de chefe de gabinete para trabalhar na campanha, onde integra a equipe responsável pela agenda do candidato Lula.
Outros afirmam que o presidente soube dos repasses apenas depois de Marcola entrar no núcleo de campanha.
As versões coincidem, no entanto, no fato de que Marcola explicou que o dinheiro teria sido recebido para ajudá-lo a resolver um problema de saúde em sua família.
A aliados do presidente, afirmou ainda que já teria devolvido os valores e se comprometeu a apresentar os comprovantes dessas transferências.
Em nota divulgada ontem pela assessoria do PT, Marcola colocou seus sigilos fiscal e bancário à disposição da Justiça, tratando os repasses de Luchsinger como um “empréstimo pessoal”. Disse ainda ter constituído advogado e o orientado “a fazer uso de todos os documentos a fim de esclarecer os fatos”.
Na campanha, a expectativa concentra-se justamente sobre esse ponto. Se os documentos forem apresentados de forma convincente e em curto prazo, a avaliação predominante é que o episódio tende a perder tração. Se isso não ocorrer, o caso poderá permanecer produzindo novos capítulos.
O problema ‘Lulinha’
O episódio também se conecta a outra frente que já vinha preocupando a estratégia eleitoral do PT: as investigações envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, relacionadas à mesma lobista. A abertura de três inquéritos por suposto tráfico de influência, conduzidos pela Polícia Federal com autorização do Supremo Tribunal Federal (STF), já havia levado a campanha a montar uma estratégia preventiva para lidar com eventuais desdobramentos.
A avaliação interna continua sendo a de que, até o momento, não surgiu nenhum elemento que comprometa diretamente Lula. O receio, porém, não se limita ao mérito das investigações. Auxiliares do presidente trabalham com a hipótese de que operações policiais, buscas e apreensões ou outros atos de forte impacto visual durante o período eleitoral possam dominar o noticiário por vários dias e produzir efeitos políticos mesmo antes de qualquer conclusão das apurações. Há desconfiança na campanha sobre a atuação do ministro André Mendonça, indicado por Jair Bolsonaro ao Supremo e próximo da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro.
Em uma eleição que continua sendo projetada como apertada, movimentos dessa natureza poderiam influenciar justamente o eleitorado menos ideológico e ainda indeciso.
Adversário ajuda
A campanha encontra algum alívio no fato de que o principal adversário de Lula também enfrenta seus próprios problemas. Até aqui, os áudios envolvendo Flávio Bolsonaro e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro permanecem como o episódio de maior impacto da corrida presidencial.
No mesmo dia em que vieram a público as informações sobre Marcola, o advogado Willer Tomaz, apontado como próximo de Flávio, foi alvo de uma operação da Polícia Federal na investigação sobre o esquema de descontos indevidos em aposentadorias e pensões do INSS. A leitura no PT é que, enquanto ambos os lados permanecerem expostos a crises simultâneas, tende a haver uma neutralização parcial dos danos eleitorais.
Os primeiros levantamentos internos da campanha ainda não registraram qualquer deterioração da imagem de Lula associada ao caso Marcola. A percepção é de que o assunto permanece concentrado na bolha política, jurídica e jornalística, sem ter alcançado de maneira significativa o eleitor comum.
O teste decisivo virá nas próximas semanas. Além de acompanhar a evolução das investigações, a campanha observará se o episódio rompe a barreira do noticiário político e passa a influenciar a percepção do eleitor. É essa transição da crise restrita aos bastidores para uma crise de opinião pública que poderá determinar se o caso será apenas um ruído passageiro ou um fator capaz de alterar os rumos da disputa presidencial.