Faria Lima e mundo político parecem mais convictos da vitória de Lula do que o PT

Há uma curiosa inversão de expectativas nesta campanha presidencial. Nos bastidores do mercado financeiro e da política, cresce a impressão de que a reeleição do presidente Lula (PT) se tornou o desfecho previsível da eleição de outubro. No próprio PT, porém, o clima é bem diferente. 

O partido acredita no favoritismo do presidente, mas até mesmo nos bastidores suas principais lideranças evitam demonstrar qualquer sinal de salto alto. Enquanto muitos interlocutores na Faria Lima e em Brasília já tratam um quarto mandato como cenário-base, o entorno do presidente continua trabalhando como se a eleição pudesse mudar de rumo a qualquer momento.

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Na Faria Lima, a pergunta deixou de ser se Lula vencerá e passou a ser como será um eventual Lula 4. As conversas giram menos em torno de Flávio Bolsonaro (PL) e mais sobre a equipe econômica do próximo governo, a disposição para promover um ajuste fiscal e o tamanho desse ajuste. Não há entusiasmo pelo PT. Ao contrário. Pouquíssimos executivos ou gestores gostariam de ver Lula permanecer no Planalto por mais quatro anos. Mas boa parte deles já “precificou” esse cenário e tenta entender quais seriam seus desdobramentos econômicos.

A principal preocupação continua sendo a trajetória das contas públicas. A dívida bruta do governo geral, principal indicador de endividamento acompanhado no Brasil, já alcançou 81,1% do PIB, segundo o Banco Central. Embora o Tesouro Nacional projete que ela atinja um pico de 87,8% do PIB em 2029 e passe a recuar gradualmente caso as metas fiscais sejam cumpridas, as projeções do mercado são mais pessimistas. A mediana das estimativas reunidas pelo Banco Central aponta a dívida em 93,9% do PIB em 2030, mantendo trajetória de alta e chegando a 99,8% do PIB em 2035 — índice considerado elevado para países emergentes. 

O mercado gostaria de enxergar um ajuste mais profundo do que aquele sinalizado até agora por integrantes do governo. Mas essa preocupação convive com outra: Flávio Bolsonaro ainda ofereceu poucas pistas sobre qual seria sua política econômica. Sem uma equipe consolidada, sem propostas detalhadas e sem transmitir segurança sobre sua capacidade de articulação, o senador acabou deixando de ocupar o centro das discussões econômicas. 

Essa percepção dialoga com o ambiente político. Também entre dirigentes partidários cresce a sensação de que Flávio perdeu competitividade ao longo dos últimos meses. O áudio envolvendo Daniel Vorcaro, o desgaste provocado pelo racha com Michelle Bolsonaro e os efeitos políticos do tarifaço anunciado por Donald Trump atingiram uma candidatura que já enfrentava dificuldades para ampliar sua base de apoio. O resultado mais visível é o isolamento. A poucos dias do prazo final para as alianças, Flávio ainda não conseguiu sequer definir um candidato a vice.

Sinal de fraqueza

A dificuldade para montar uma chapa diz muito sobre a percepção de viabilidade eleitoral e passa um inequívoco sinal de fraqueza. No início do ano, quando Flávio aparecia mais competitivo nas pesquisas, lideranças de diferentes partidos do centrão demonstravam disposição para conversar sobre uma aliança. Com o enfraquecimento da candidatura, apesar da resiliência de Flávio como postulante ao segundo turno da eleição, esse movimento praticamente desapareceu.

O episódio envolvendo Tereza Cristina (PP-MS) foi emblemático. A senadora era vista como a opção capaz de aproximar Flávio do eleitorado feminino e ampliar sua interlocução com o centro político. Mas a direção da federação União Progressista decidiu manter neutralidade na disputa nacional, esvaziando essa possibilidade e reforçando a liberdade dos diretórios estaduais para fazerem suas próprias composições.

O PSD percorre caminho semelhante. Gilberto Kassab classificou como “excrescência” o apoio de filiados a candidatos que não sejam Ronaldo Caiado. Na prática, porém, a legenda continua convivendo com diferentes arranjos regionais, alguns deles ao lado da candidatura de Lula. O mesmo ocorre com setores do PP e até do União Brasil, que, nos estados, dividem palanques com o presidente. Lula trabalhou para construir essa capilaridade desde muito antes do início oficial da campanha e hoje colhe os frutos desse esforço, sobretudo no Norte e no Nordeste.

A última possibilidade concreta de ampliação da chapa de Flávio parece estar no Republicanos, com o nome de Daniella Marques. Ainda assim, esse é um desfecho improvável. Lideranças importantes da legenda resistem a um alinhamento nacional com o PL. É o caso do ex-ministro de Portos e Aeroportos Silvio Costa Filho (PE) e o presidente da Câmara, Hugo Motta (PB), não por acaso ambos de estados nordestinos.

Esse ambiente alimenta uma frase que, apesar do exagero, tem sido repetida reservadamente e com cada vez mais frequência, tanto por integrantes do mercado quanto por atores do mundo político: “Lula já ganhou”. A expressão não traduz torcida, mas uma leitura pessimista para a maioria desses atores sobre a dinâmica atual da disputa. Na avaliação desses interlocutores, mantidas as condições de hoje, a inércia da campanha favorece claramente o presidente.

Cautela no PT

É justamente aí que o diagnóstico do PT diverge. No entorno de Lula, ninguém trata a eleição como resolvida. O temor é que um fato novo seja capaz de romper essa inércia. A preocupação mais frequente diz respeito ao impacto da inteligência artificial e das plataformas digitais sobre a campanha.

Pela primeira vez, uma eleição presidencial brasileira será disputada em larga escala sob o efeito das novas ferramentas de IA, capazes de produzir conteúdo falso com velocidade e sofisticação inéditas. Nem mesmo estrategistas experientes sabem medir seus efeitos.

Há também apreensão quanto às investigações envolvendo Lulinha. Aliados do presidente temem que eventuais desdobramentos ocorram durante a campanha e produzam forte impacto político. Nos bastidores, alguns petistas manifestam suspeitas sobre a condução do caso pelo ministro André Mendonça, relator dos procedimentos no Supremo Tribunal Federal (STF) — embora não haja qualquer elemento público que comprove irregularidade na atuação do ministro nem qualquer fato que desabone sua conduta.

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Ainda assim, a simples possibilidade de fatos novos envolvendo o filho do presidente já é vista por integrantes da campanha como um dos poucos fatores capazes de alterar significativamente a dinâmica eleitoral.

Talvez essa seja hoje a principal diferença entre o PT e boa parte de seus adversários, do mercado e do próprio sistema político. Enquanto muitos já parecem discutir os detalhes de um eventual governo Lula 4, os petistas ainda estão concentrados em vencer uma eleição que, para eles, parece longe de estar decidida.

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