Os líderes mais experientes costumam dizer que as grandes definições da política mineira ocorrem a portas fechadas, entre goles de café e nacos de pão de queijo. Nos últimos dias, a movimentação de importantes atores do atual cenário eleitoral confirmou essa tradição: a direção do Republicanos, em um movimento orquestrado por Marcelo Aro (União-PP), ex-secretário estadual, vetou a candidatura do senador Cleitinho Azevedo ao governo do estado, líder disparado em todas as pesquisas.
A trama que pode tirar Cleitinho da disputa, mesmo após o senador ter anunciado, nas últimas horas, a intenção de concorrer e dizer que “tentará de todo jeito” colocar seu nome esteja na urna eletrônica, foi negociada nos bastidores de Minas Gerais e de Brasília. O movimento tem tudo para favorecer as candidaturas do próprio Aro e, no campo oposto, de Patrus Ananias (PT) ao governo. Assim, após meses de indefinição, em larga medida alimentada pelas idas e vindas do próprio senador, o cenário eleitoral no estado está perto de se consolidar.
Em termos nacionais, os novos arranjos também favorecem Lula (PT) e podem resolver os problemas do senador Flávio Bolsonaro (PL), os dois líderes da corrida para o Planalto, segundo as pesquisas. O presidente, candidato à reeleição, passa a ter um palanque forte para fazer campanha em Minas, enquanto o presidenciável de oposição espera contar com o apoio da aliança a ser formada em torno de Marcelo Aro.
Nesse contexto, as direções nacionais do PL e do Republicanos participaram ativamente das negociações para retirar Cleitinho da disputa. A ideia é que o deputado federal Domingos Sávio (PL) seja candidato ao Senado na chapa de Aro, enquanto o PSB caminha para indicar o vice de Patrus Ananias. Há ainda a possibilidade de o PL também ficar com a vice de Aro. A palavra final depende, porém, de Flávio Bolsonaro.
De acordo com a legislação, os partidos têm até o dia 15 de agosto para o registro oficial das candidaturas. Além de Aro e Patrus, deverão disputar o governo de Minas Mateus Simões (PSD), candidato à reeleição, Alexandre Kalil (PDT) e Gabriel Azevedo (MDB).
Em um provável último gesto para tentar reverter a situação, Cleitinho Azevedo tentará se reunir hoje com o deputado Marcos Pereira (SP), presidente nacional do Republicanos e o principal responsável pelo veto à candidatura do senador ao governo de Minas. No entanto, fontes ouvidas pelo JOTA ligadas ao dirigente máximo do partido afirmam que ele está contrariado com a maneira como o senador mineiro tem se comportado.
Segundo esses interlocutores de Pereira, a cúpula do Republicanos “perdeu a confiança” em Cleitinho e entendeu as declarações recentes dele de que lutará pela candidatura como uma “ameaça” ao presidente do partido. O encontro, se for confirmado, com quer o senador, deverá ocorrer em Brasília.
Líder nas pesquisas
Cleitinho pode deixar a disputa no momento em que aparece como favorito ao governo de Minas. Pesquisa Genial/Quaest divulgada na terça-feira (28/7) mostrava o senador na liderança isolada em todos os cenários testados. Com 34% a 35% das intenções de voto, abria vantagem de 22 a 23 pontos percentuais sobre o segundo colocado.
O retrato, porém, envelheceu em menos de 24 horas, até porque o nome de Marcelo Aro não foi testado. Sem Cleitinho, a corrida fica aberta. Kalil, Patrus e Simões formavam um segundo pelotão, separados por até seis pontos percentuais, diferença dentro da margem de erro da pesquisa.
As simulações de segundo turno reforçam o cenário de indefinição que deve marcar a sucessão mineira no pós-Cleitinho, caso se confirme a saída do senador do jogo eleitoral. Patrus Ananias aparece tecnicamente empatado tanto com Alexandre Kalil (30% a 29%) quanto com Mateus Simões (30% a 30%), indicando que qualquer um dos principais candidatos pode chegar ao governo.
A eventual saída do líder reorganiza a corrida em Minas e produz efeitos para além da eleição estadual. O principal impacto é sobre a disputa presidencial. O PL aguardava a definição de Cleitinho para fechar o palanque de Flávio Bolsonaro no estado. Embora nunca tenha sido o nome preferido de Flávio, Cleitinho também evitou declarar apoio ao presidenciável. A indefinição manteve as negociações em suspenso durante toda a pré-campanha.
Sem um palanque competitivo no segundo maior colégio eleitoral do país e com o ex-governador Romeu Zema (Novo) mantendo a candidatura ao Planalto, Flávio Bolsonaro deve ter mais dificuldade para reproduzir o desempenho eleitoral do pai em Minas. O estado foi decisivo nas duas últimas eleições presidenciais e, em 2022, o apoio de Zema foi tratado pelo próprio Jair Bolsonaro como estratégico para a campanha de segundo turno.
O histórico aponta para uma perda de força do bolsonarismo em Minas Gerais. Em 2022, Jair Bolsonaro recebeu 43,6% dos votos no primeiro turno e 49,8% no segundo. Quatro anos antes, havia obtido 48,3% e 58,2%, respectivamente.
Chapa de centro-direita pode favorecer Flávio e Lula
Agora, Flávio e o PL se articulam com Aro, que era secretário de Governo de Simões, na tentativa de montar uma ampla chapa de centro-direita no estado. O movimento deve dividir esse campo, que já tem o próprio ocupante do Palácio da Liberdade e Gabriel Azevedo na corrida. Líderes do PT avaliam que, se esse cenário se confirmar, Patrus poderá chegar ao segundo turno com a união da centro-esquerda e a força de Lula em Minas.
Marcelo Aro havia firmado um acordo com Simões para ser candidato ao Senado na chapa do governador. No entanto, com a filiação do senador Carlos Viana ao PSD, ele se sentiu ameaçado e passou a articular a dissidência. Como Marcos Pereira estava insatisfeito com as idas e vindas de Cleitinho e o PL não tinha um nome natural, o ex-secretário acabou se fortalecendo para lançar sua candidatura ao governo.
Cenário nacional em Minas
A pesquisa Genial/Quaest divulgada na terça-feira (28/7) mostra um cenário de equilíbrio entre Lula e Flávio Bolsonaro em Minas. No primeiro turno, os dois aparecem tecnicamente empatados: 30% para o presidente e 29% para o senador. Romeu Zema (Novo) registra 12% das intenções de voto. No segundo turno, o empate persiste, com vantagem numérica de Lula: 38% a 35%.
O potencial de voto, porém, favorece o presidente. Lula é a primeira opção de 38% do eleitorado, mas pode chegar a 46% entre os que dizem que poderiam votar nele. Flávio, por sua vez, pontua 35% das intenções de voto e tem potencial de 36%, indicando pouco espaço para ampliar sua base eleitoral no estado.