A campanha de Lula (PT) começa com um paradoxo. O presidente chega à disputa como favorito, mas sem o nível de aprovação de governo que seus aliados consideram necessário para lhe assegurar a reeleição. Diante desse cenário, o PT aposta naquilo que historicamente sempre foi um dos maiores ativos do presidente: a capacidade de transformar a campanha em um período de reconexão com o eleitor, convertendo o carisma pessoal de Lula em apoio ao governo e, por consequência, em votos para um quarto mandato.
Houve avanços nos últimos meses, e algumas pesquisas já apontam um nível de aprovação numericamente maior do que o da desaprovação. O quadro, na maioria dos levantamentos, porém, segue de empate técnico.
Mas o favoritismo de Lula hoje deve-se muito mais aos desentendimentos no campo político de Flávio Bolsonaro (PL) e às trapalhadas na campanha de seu principal adversário do que à disposição do eleitor independente — decisivo para definir os rumos do pleito — de renovar seu mandato.
As revelações sobre o envolvimento de Flávio no caso Master, as falas misóginas de aliados como Paulo Figueiredo e o irmão Eduardo e a rixa com a madrasta, Michelle Bolsonaro, anteciparam um processo de desmontagem do rival que o PT planejava explorar apenas durante a campanha. A expectativa geral de que “mais está por vir”, sobretudo na relação com Daniel Vorcaro, alimenta o otimismo dos petistas.
Lula também ganhou do clã Bolsonaro um adversário externo: Donald Trump. Ao impor tarifas aos produtos brasileiros e atacar o Pix, o presidente americano acabou colocando o petista na posição de defensor de dois símbolos nacionais. Não por acaso, “defesa da soberania” é hoje a primeira expressão citada por dirigentes do PT quando perguntados sobre quais serão os principais temas da eleição.
Mas Trump não foi o único fator a ajudar o presidente a recuperar fôlego nas pesquisas. O governo também turbinou os gastos neste ano eleitoral, desembolsando cerca de R$ 180 bilhões em diferentes medidas, o que contribuiu para uma melhora tímida e gradual, mas ainda insuficiente, na popularidade de Lula.
É nesse contexto que ele oficializará sua candidatura na convenção nacional do PT, no próximo domingo (2/8), em São Paulo. Em comparação aos rivais, chega com a casa relativamente arrumada. Cerca de duas semanas antes do evento, já havia definido palanques em 25 dos 26 estados, além do Distrito Federal. Conseguiu, além disso, aglutinar em torno de si praticamente toda a esquerda — PSB, PDT, a federação Rede/PSOL, PC do B e PV —, enquanto Flávio segue isolado, sem vice definido e rumando para uma chapa puro-sangue do PL.
No maior colégio eleitoral do país, montou uma chapa forte com Fernando Haddad concorrendo ao governo, o combativo Márcio França (PSB) na vice, e as ex-ministras Simone Tebet (PSB) e Marina Silva (Rede) disputando o Senado. E, embora ainda reticentes sobre as chances de Haddad contra Tarcísio de Freitas (Republicanos), petistas já projetam uma vitória de Lula no estado, algo inédito desde 2002, fruto de um possível voto “TarciLula”.
Aliados relatam que o presidente segue muito contrariado com o desempenho da avaliação de sua gestão nas pesquisas. Em reuniões, vem cobrando de ministros e do núcleo de campanha uma divulgação mais eficiente das ações do governo. Esse grupo acredita que, caindo a desaprovação, o crescimento nas pesquisas será quase automático.
As medidas adotadas nos últimos meses, como a isenção do Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5 mil e o fim da taxa das blusinhas, começam a surtir efeito sobre o humor do eleitorado. Para os petistas, porém, elas cumprem apenas o papel de preparar o terreno.
A partir de agora, a tarefa de convencer o eleitor de que merece um quarto mandato caberá ao próprio Lula. Os petistas apostam que, como ocorreu nas três eleições que ele venceu, o presidente crescerá à medida que a campanha avançar.