Um estudo da Moody’s divulgado nesta quinta-feira (23/7) estima que a aprovação da PEC do fim da escala 6×1 pode comprometer o caixa de empresas de logística, serviços e varejo mais do que outros segmentos analisados. A conclusão é que os efeitos serão heterogêneos de acordo com o setor.
A proposta, que tramita no Senado após aprovação na Câmara, reduz a jornada máxima de trabalho de 44 para 40 horas semanais, sem redução de salário. A transição seria escalonada: primeiro para 42 horas, dois meses após a promulgação da emenda, e depois para 40 horas, 14 meses depois.
Segundo a Moody’s, o efeito da mudança sobre as empresas será desigual e vai depender de fatores como o peso da folha de pagamento na estrutura de custos, a capacidade de repassar o aumento de despesas aos preços finais, o grau de automação das operações e a rigidez das escalas de trabalho.
Em serviços, a agência estima que o impacto equivale a uma queda de até 12% no Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) das empresas, na hipótese de que o aumento de custo não seja absorvido por reajuste de preços. Em logística e varejo, essa queda estimada é de até 10%.
Logística, serviços e varejo concentram simultaneamente alta dependência de mão de obra, operação contínua ou jornadas longas e uma fatia relevante de trabalhadores que hoje cumprem as 44 horas semanais — o grupo diretamente afetado pela mudança.
Dentro de serviços, o segmento de hotelaria é apontado como particularmente sensível, por reunir operação ininterrupta e escassez de mão de obra em funções como limpeza e recepção, o que dificulta a reposição de equipes caso a jornada diminua.
No varejo, a agência avalia que o impacto tende a ser maior no segmento alimentar, onde o custo de mão de obra por loja é mais alto e a concorrência limita o repasse de preços — o que aumenta o risco de compressão de margens. Já o varejo farmacêutico tende a sofrer menos, por ter maior espaço para ganhos de eficiência digital.
Construção civil e indústria de transformação aparecem em um patamar de risco moderado, com pressão estimada entre 5% e 6% sobre o Ebitda.
Telecomunicações e saúde, por sua vez, têm impacto estimado abaixo de 5%, beneficiadas por maior escala, automação e, no caso de hospitais, pela possibilidade de manter escalas diferenciadas, como o regime 12×36.
Os setores considerados menos expostos são agronegócio, indústria de bebidas, locadoras de veículos, óleo e gás e papel e celulose — todos com pressão estimada inferior a 5% sobre o Ebitda, principalmente por terem custos concentrados em insumos e matérias-primas ou por já operarem com alto grau de automação.
A Moody’s afirma que construção civil e agropecuária, embora tenham alta concentração de trabalhadores em jornadas de 41 a 44 horas, tendem a sentir menos os efeitos diretos da PEC — por apresentarem maior nível de informalidade nas relações de trabalho, o que reduz o alcance prático da norma.
Mercado de trabalho aquecido amplia a pressão
O relatório também chama a atenção para o momento do mercado de trabalho brasileiro, que pode amplificar os efeitos da PEC, caso ela seja aprovada.
Nesse cenário de escassez relativa de mão de obra e custo do trabalho já em alta, a Moody’s avalia que uma redução da jornada tende a intensificar ainda mais as pressões sobre o custo unitário do trabalho, já que as empresas teriam menos margem para compensar a mudança simplesmente contratando mais gente.