O senador Jaques Wagner (PT-BA), alvo de operação da Polícia Federal (PF) na semana passada, deixou a liderança do governo no Senado nesta quarta-feira (24/6). O anúncio foi feito por meio de uma publicação do próprio senador no X, após encontro com o presidente Lula (PT) no Palácio da Alvorada. Ele estava no cargo desde o início do mandato do petista.
“Acabei de ter uma ótima reunião com o Presidente Lula, uma conversa entre amigos, e decidimos, em comum acordo, que me afastarei da liderança do Governo no Senado Federal”, disse.
“Neste momento, minha prioridade absoluta é provar minha inocência e me dedicar à reeleição do presidente Lula e do governador Jerônimo Rodrigues, além da minha reeleição junto com Rui Costa para o Senado”, completou.
Ainda não há informações sobre quem vai ocupar a liderança do governo no Senado, Casa em que o presidente Davi Alcolumbre (União-AP) vive uma fase de atrito com o Palácio do Planalto e onde tramita a PEC do fim da escala 6×1.
Uma ala do entorno de Lula defende que alguém mais de centro ocupe o posto, como o senador Renan Filho (MDB-AL). Ele, contudo, é pré-candidato ao governo de Alagoas e está se ocupando da campanha. Também circulam os nomes de Camilo Santana, ex-ministro da Educação, que não concorre a nenhum cargo neste ano, mas está muito envolvido com a acirrada disputa no Ceará, e da senadora Teresa Leitão (PT-PE).
O petista buscava continuar na liderança, ao menos até o recesso parlamentar, em julho, como forma de reforçar sua inocência. Mas a avaliação geral é de que a operação da PF tem potencial de desgastar a imagem do presidente às vésperas da eleição. Sua continuidade, portanto, tornou-se insustentável, mesmo diante da proximidade com Lula.
A saída do cargo ocorre uma semana após o senador ter sido alvo da nona fase da Operação Compliance Zero, da Polícia Federal, que investiga sua relação com o ex-banqueiro Augusto Lima, ex-sócio de Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, liquidado pelo Banco Central.
Aliados e integrantes do PT pressionavam desde então pelo afastamento, por temerem que sua manutenção no cargo pudesse prejudicar eleitoralmente Lula.
No dia em que foi deflagrada a operação, o presidente chegou a telefonar para o senador e, segundo o próprio parlamentar, prestou solidariedade a ele e não anunciou qualquer troca.
Mas, segundo relatos, Lula ficou desconfortável com o episódio, ainda que seja amigo há décadas do senador. Causou especial incômodo a foto divulgada pela PF de dólares e euros encontrados na casa do petista. Ele afirma que os recursos eram de diárias do Senado.
Operação da PF
Segundo a Polícia Federal, as suspeitas se concentram em três frentes: a possível aquisição, por meio de estruturas empresariais ligadas ao Master, de um apartamento de alto padrão em Salvador; repasses financeiros a uma financeira vinculada ao núcleo familiar do senador; e uma possível atuação no Congresso em temas de interesse do Banco Master, como mudanças nas regras do crédito consignado e discussões sobre o Fundo Garantidor de Créditos.
A investigação também aponta mensagens, ligações telefônicas, viagens em aeronaves particulares e encontros com Augusto Lima como indícios de proximidade entre os dois. Dois celulares do senador foram apreendidos pelos investigadores.
O parlamentar nega qualquer irregularidade e afirma não ter recebido benefício ilegal em troca de sua atuação política. Ele concedeu entrevista, no dia da operação, e afirmou que só deixaria o cargo a pedido de Lula — algo interpretado no Palácio do Planalto como uma forma de emparedar o presidente. Seus aliados classificam as falas como “fogo amigo” e reforçam a confiança no petista histórico.
Com a saída, o governo deve indicar um substituto para a liderança no Senado nos próximos dias. A escolha é delicada, diante do mal-estar instalado na Casa com o presidente Davi Alcolumbre (União-AP).
Reportagem da Veja online apontou Alcolumbre como um dos que apareceriam na delação de Vorcaro, o que o senador nega. Ele foi uma das primeiras autoridades na Casa a sair em defesa do senador baiano, após a operação.
Bem relacionado no Senado, Jaques Wagner é uma das principais lideranças do PT. Ex-governador da Bahia e ex-ministro da Defesa e da Casa Civil, é candidato à reeleição para o Senado e disse que seu nome está mantido para a disputa.