A entrada em vigor da regulamentação europeia contra o desmatamento (EUDR), prevista para dezembro de 2025 para grandes operadores, coloca o setor exportador de soja brasileiro diante de uma inflexão relevante.
A norma exige rastreabilidade rigorosa e comprovação de que os produtos não se originam de áreas desmatadas após 2020 — requisitos que, ao mesmo tempo em que representam um desafio operacional imediato, abrem uma oportunidade pouco explorada: a de transformar conformidade ambiental em diferencial competitivo.
A União Europeia absorve cerca de 14% das exportações brasileiras de soja e, por sua vez, depende do Brasil para mais da metade de suas importações do grão. Esse momento é, portanto, oportuno para examinar a estrutura do setor com mais profundidade e questionar se a liderança exportadora brasileira está assentada em bases suficientemente sólidas para o longo prazo.
O Brasil responde por aproximadamente 36% das exportações globais de soja, resultado de condições edafoclimáticas excepcionais, avanços no melhoramento genético liderados pela Embrapa e uma logística progressivamente adaptada à exportação em larga escala.
Contudo, o setor apresenta elevado grau de concentração: estima-se que cinco empresas — Cargill, Bunge, ADM, Cofco e Amaggi — respondam por cerca de 70% das vendas externas, nível mensurável pelo Índice de Herfindahl-Hirschman (IHH). Isso levanta uma questão analítica relevante: como um mercado tão concentrado sustenta tamanha competitividade internacional?
A resposta reside, em grande medida, na natureza do produto. A soja é uma commodity padronizada, produzida em escala massiva, cujo diferencial competitivo não depende de marcas ou propriedade intelectual sofisticada. Nesse tipo de mercado, grandes exportadoras têm maior capacidade de investir em infraestrutura logística, gerenciar riscos cambiais e operar com margens estreitas graças à escala.
O Índice de Vantagem Comparativa Revelada (IVCR) do setor, frequentemente acima de 10, confirma essa eficiência exportadora. A comparação com a indústria automotiva é ilustrativa: igualmente concentrada em poucos grupos globais, mas com IVCR raramente superior a 1,2, ela depende de insumos e tecnologias externas, o que compromete sua projeção exportadora e a torna vulnerável a choques cambiais e tecnológicos.
No caso da soja, a concentração de mercado é consequência da estrutura global de commodities, não sua causa — e por isso coexiste com alto desempenho exportador sem que isso represente, necessariamente, um paradoxo.
O ponto crítico, no entanto, está no baixo valor agregado do produto exportado. A maior parte da soja sai do Brasil na forma de grão bruto, enquanto as etapas mais rentáveis da cadeia — produção de óleo refinado, farelo proteico e derivados industriais — são realizadas majoritariamente no exterior, sobretudo na Europa e na Ásia.
Esse padrão reproduz dinâmica histórica já observada no café, exportado em grãos verdes por décadas enquanto os países importadores retinham as margens da industrialização. O resultado é que o elevado IVCR não se traduz, na mesma proporção, em encadeamentos industriais internos, geração de empregos qualificados ou difusão de inovação tecnológica — limitando o alcance do sucesso exportador como vetor de desenvolvimento econômico mais amplo.
A volatilidade inerente ao modelo reforça essa fragilidade estrutural. Entre 2019 e 2023, o valor das exportações brasileiras de soja oscilou entre aproximadamente US$ 26 bilhões e US$ 53 bilhões, refletindo tanto as flutuações nos preços internacionais — influenciados pela demanda chinesa, pela produção norte-americana e pela especulação em mercados futuros — quanto a variabilidade climática que afeta diretamente as safras. Os superávits comerciais gerados contribuem para a estabilidade macroeconômica, mas não promovem, por si sós, diversificação produtiva de longo prazo.
É justamente nesse contexto que a EUDR pode ser lida como catalisador de uma mudança mais profunda. Investir em rastreabilidade e certificação ambiental para atender à norma europeia é também construir a infraestrutura necessária para capturar prêmios em mercados de alta renda que valorizam atributos de sustentabilidade.
Ao mesmo tempo, ampliar o processamento interno — óleo refinado, proteínas vegetais, biodiesel — e manter o esforço contínuo em pesquisa agrícola são caminhos complementares para converter uma vantagem comparativa estática em competitividade dinâmica.
O Brasil dispõe de ativos raros no mercado agrícola global: terra, clima e tecnologia adaptada. A questão em aberto é se esses ativos servirão para consolidar a posição de exportador primário ou como plataforma para uma inserção mais sofisticada nas cadeias globais de valor.
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