ApexBrasil conecta produtores e impulsiona exportações do agro

Em São Paulo, compradores internacionais de mais de uma dezena de países sentam-se à mesa com produtores brasileiros que, um dia, mal sabiam o que era uma NCM – sigla para Nomenclatura Comum do Mercosul, a classificação fiscal que identifica cada produto no bloco. Essa cena, repetida ao longo dos dias da feira Anuga Select Brazil nesta semana, é apenas um dos exemplos da articulação promovida pela Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) entre a lavoura e o comércio global.

Esse tipo de atuação fez o Brasil fechar 2025 com recorde de exportação no agronegócio. O setor exportou US$ 169,2 bilhões, o equivalente a 48,5% de tudo o que o país comercializou com o exterior no ano. Só de soja em grãos foram exportadas 108,2 toneladas (aumento de 9,5% em volume), a carne bovina bateu recordes de volume e valor, e 557 novos mercados foram abertos desde 2023, gerando cerca de US$ 4 bilhões em receitas adicionais.

Esses números sustentam a ideia do Brasil como potência alimentar global e “celeiro” do mundo e refletem a execução de política pública via parceiros, com os objetivos de levar produtos e serviços brasileiros ao exterior e atrair investimentos para o país.

No agro, a atuação da Agência vai do mel ao café, dos produtores mais experientes às cooperativas de agricultura que nunca haviam conversado com um importador estrangeiro. Com a diversidade do setor, a agência oferece soluções para necessidades específicas, dentro de suas quatro frentes principais: inteligência de mercado, qualificação empresarial, promoção comercial e atração de investimentos.

“A primeira barreira é a informação”, explica Luciana Pecegueiro Furtado, coordenadora de agronegócio da ApexBrasil. “Muitas empresas ainda não têm, por exemplo, o SIF, o Serviço de Inspeção Federal do Ministério da Agricultura, exigido para exportação de produtos de origem animal. É um processo de adaptação que começa antes mesmo de falarmos de mercados externos. E nós apoiamos em todas essas etapas da internacionalização”.

Para converter esse potencial em exportações reais, a ApexBrasil estruturou uma jornada de internacionalização que começa com a capacitação. O principal instrumento é o Programa de Qualificação para Exportação (PEIEX), que em 2025 auxiliou mais de 2.800 empresas brasileiras em mais de 678 municípios, distribuídos por todas as regiões, por meio de mais de 25 convênios com instituições parceiras.

Furtado lembra um exemplo concreto do impacto desse modelo: durante uma ação para o setor de cachaça, empresas que tinham passado pelo PEIEX chegaram às reuniões com informações de preços em mãos. “Os compradores internacionais ficaram impressionados”, conta. “Apesar de serem iniciantes, eles estavam extremamente preparados. Um perguntou pela tabela de preços e o empresário mandou no WhatsApp na mesma hora.”

Com a capacitação, a Agência avalia o perfil exportador e oferece um atendimento individualizado, conduzido por especialistas em comércio exterior, que percorrem um arco de 28 tópicos, da classificação fiscal ao mapeamento de oportunidades globais. A última etapa é a entrega de um plano de exportação, um documento estratégico que a empresa pode incorporar ao seu planejamento de longo prazo.

Para o agronegócio, existe ainda uma modalidade especial: o AgroBR, desenvolvido em parceria entre a ApexBrasil, o Sebrae e a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). O programa trata das particularidades do setor e, com ele, empresas podem aprender e se enquadrar em certificados de origem animal exigidos para exportação, se adequar às normas fitossanitárias de diversos mercados, além de participar de rodadas de negócios específicas.

Para setores organizados por associações proponentes, a ApexBrasil conta com projetos setoriais com convênios bianuais firmados com entidades representativas, com contrapartida financeira dividida com a organização parceira. Hoje são 22 projetos no agronegócio, que apoiam desde ações de branding internacional até a participação em feiras, envio de especialistas para convenções internacionais e estudos de internacionalização.

Em 2025, foram 34 missões comerciais em 35 países só no segmento de alimentos e bebidas. Para Luciana Furtado, o sucesso exportador do agro brasileiro está numa combinação única que reúne clima, biodiversidade e inovação científica aplicada. “Passamos de um país importador de alimentos a exportador porque conseguimos desenvolver culturas em diferentes regiões. Isso passa pela tecnologia e não tem como tratar do assunto sem falar da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária).”

Mesmo com dados expressivos, itens da biodiversidade brasileira ainda possuem grande potencial. Luciana aponta para o crescimento da demanda por liofilizados (frutas desidratadas a frio que preservam propriedades nutricionais), como caju, açaí e outros frutos nativos que enfrentam dificuldades logísticas para chegar frescos ao exterior. “A demanda existe porque produtos com esse apelo são difíceis de encontrar em qualquer outro lugar, mas problemas de escalabilidade ou logística prejudicam a exploração desse mercado.”

Menos de 1%, e um universo a alcançar

As ações da ApexBrasil ainda têm muito potencial a ser explorado, já que o país tem mais de 20 milhões de empresas registradas e menos de 30 mil exportam, diz José Mendes Alves Filho, especialista em competitividade da Agência. “Temos uma oportunidade gigantesca desde o momento de trabalhar a inteligência e mostrar para essas empresas que existe oportunidade, até o momento de chegarem em uma ação de promoção comercial, esse é o nosso papel”, afirma.

Além disso, iniciativas como o Programa Exporta Mais Brasil diminuem as distâncias para empresas de menor porte, diminuindo o custo de participar de feiras e rodadas de negócios internacionais. Com o programa, em vez de enviar os produtores ao exterior, a ApexBrasil traz os compradores ao Brasil. Assim, a Agência seleciona compradores internacionais qualificados de acordo com o interesse real nos produtos brasileiros, constrói agendas de matchmaking e agenda reuniões entre companhias e importadores. A Anuga Select Brazil, por exemplo, reuniu 65 vagas de rodadas de negócios e 20 vagas mistas (rodadas e estandes).

Também há a preocupação em fomentar acesso mais igualitário a diferentes grupos sociais. Em 2023, a ApexBrasil criou o Programa Mulheres e Negócios Internacionais (MNI) a partir de um dado na balança comercial: apenas 14,5% das empresas exportadoras brasileiras são lideradas por mulheres. A estreia do programa foi no Chile, pois os dois países têm acordo de livre comércio com um capítulo específico voltado à equidade de gênero no comércio bilateral.

Há ainda o programa Elas Exportam, que conecta mulheres que já internacionalizaram seus negócios a outras aspirantes na mesma jornada. “O primeiro ponto é conseguir desenvolver nela a perspectiva das empresas de enxergar que a exportação é uma realidade”, diz Alves Filho. “Então, com todas as nossas ações, criamos sensibilização para mostrar que, sim, todas as pessoas e empresas podem. Elas passam a acreditar nesse sonho e a se qualificar com a gente”.

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