Em 2025, a agenda anticorrupção brasileira avançou na consolidação de entendimentos, no reforço da governança entre instituições e na ampliação dos mecanismos de responsabilização. Os resultados, porém, contrastam com um problema estrutural cada vez mais visível: a limitação da capacidade do Estado para executar essa política pública, diante de restrições de pessoal, orçamento e continuidade técnica.
Às vésperas de um ano eleitoral, em que decisões políticas costumam repercutir sobre a configuração das instituições de controle e integridade, o balanço das ações de 2025 se impõe como ponto de partida para discutir os rumos da política anticorrupção no país.
2025: entregas que consolidaram entendimentos
Enunciados administrativos e previsibilidade decisória
Em 2025, a Controladoria-Geral da União (CGU) aprovou um conjunto de enunciados administrativos voltados à uniformização de entendimentos na responsabilização de pessoas jurídicas, no âmbito da Lei nº 12.846/2013. O pacote tem impacto direto sobre a condução dos Processos Administrativos de Responsabilização (PARs) e sobre a previsibilidade das decisões que envolvem empresas privadas.
Na prática, os enunciados reduziram as lacunas que geravam debates interpretativos e limitaram divergências entre comissões processantes. Em contrapartida, elevou a exigência de governança documental e de controles internos por parte das empresas, já que a régua interpretativa se torna mais clara — e menos negociável.
Leniência: coordenação institucional e racionalização normativa
Outro marco relevante de 2025 foi a edição da Portaria Normativa Interministerial CGU/AGU nº 1/2025, que reorganiza critérios e procedimentos para negociação, celebração e monitoramento de acordos de leniência, além de disciplinar a atuação da Advocacia-Geral da União.
O ato transmite dois sinais institucionais claros: maior padronização e coordenação entre os órgãos envolvidos e uma tentativa de maior clareza normativa, com a revogação de atos anteriores sobre o tema, inclusive de 2018, 2019 e 2022. A mensagem é de redução da dispersão regulatória e aumento da segurança jurídica.
Para 2026, a tendência é que as negociações dos acordos de leniência sigam negociações com processos mais claro. O ganho é previsibilidade; o custo é menor margem para improviso — inclusive do lado do próprio Estado.
Anticorrupção em números: os PARs e os acordos de leniência em 2025
Do ponto de vista da responsabilização, 2025 também foi um ano de números expressivos. Ainda em outubro, a CGU informou ter superado a marca de 100 PARs instaurados no ano, chegando ao total de 126 no final do ano.
No mesmo período, os valores decorrentes de multas e acordos ganharam destaque público. Reportagem da revista Veja aponta que a CGU arrecadou cifras próximas a R$ 1 bilhão em multas relacionadas a acordos de leniência em 2025, reforçando o peso financeiro e simbólico desses instrumentos.
Esses dados reforçam dois sinais ao mercado: a responsabilização administrativa é concreta e relevante, e o desenho de incentivos — combinando sanção, negociação e monitoramento — ocupa posição central na política anticorrupção.
Plano Anticorrupção: 2026 como prova de escala
A agenda anticorrupção atual é estruturada pelo Plano de Integridade e Combate à Corrupção (PICC) 2025–2027, monitorado pelo Comitê Interministerial de Combate à Corrupção (CICC). O desenho do Plano busca tratar a integridade como política pública transversal, distribuída entre diversos órgãos e não restrita aos tradicionais órgãos de controle.
Segundo os dados oficiais de monitoramento divulgados pela CGU, o Plano reúne 263 ações estratégicas, com participação de 55 órgãos. Destas, 103 tinham previsão de conclusão em 2025, sendo 45 já concluídas até o início de dezembro.
O dado mais relevante, contudo, está projetado para frente: cerca de 90 ações — aproximadamente 35% do total — têm prazo de conclusão em dezembro de 2026. Isso transforma o próximo ano em um verdadeiro teste de escala do Plano.
Mais do que um desafio técnico, trata-se de um teste político-institucional: a execução do PICC dependerá não apenas de coordenação administrativa, mas também de decisões orçamentárias, prioridades de governo e capacidade de preservação de quadros técnicos em um contexto eleitoral.
Capacidade estatal: o elefante na sala — e no debate eleitoral
A execução da agenda anticorrupção esbarra em um problema estrutural: a capacidade do Estado. Reportagens recentes apontam uma redução significativa do quadro de servidores da CGU ao longo dos últimos anos, com impacto potencial sobre a qualidade, a profundidade técnica e a tempestividade das entregas institucionais.
O ponto central é menos quantitativo e mais estrutural: não existe política anticorrupção em escala sem investimento em profissional em escala.
À medida que normas, planos e exigências se multiplicam, a insuficiência de equipes tende a produzir mais litígio, mais atrasos e as chances de maior assimetria entre expectativas normativas e capacidade real de execução se torna latente.
Em um ano eleitoral como 2026, esse tema deixa de ser apenas um debate interno da administração pública e passa a ser uma agenda que deveria ser objeto de cobrança pública pelos eleitores.
Programas anticorrupção, integridade e responsabilização precisam ser acompanhados de compromissos claros com recomposição de quadros, valorização técnica e preservação institucional — sob pena de se tornarem promessas normativas sem lastro operacional.
Perspectivas para 2026: o que realmente observar
O ano de 2026 tende a funcionar como um teste de maturidade da política anticorrupção brasileira. A execução do PICC será cobrada em volume significativo; os enunciados administrativos devem produzir efeitos concretos no contencioso; a leniência seguirá institucionalizada; e a capacidade estatal se consolida como variável decisiva.
Nesse contexto, a agenda anticorrupção passa a dialogar diretamente com o debate democrático. Não se trata apenas de exigir mais normas ou mais planos, mas de perguntar — e cobrar — quais escolhas políticas garantirão que o Estado tenha condições reais de cumprir aquilo que promete. Em um ambiente de crescente escrutínio internacional e doméstico, a integridade institucional depende de decisões estruturais que tendem a ser tomadas, ou adiadas, em anos eleitorais.