Oportunidades da área jurídica nas empresas sob a ótica financeira

A integração entre as áreas jurídica e financeira representa fonte importante de geração de valor. Quanto a isso, imagino que não entremos em divergências. De um lado, há a defesa da segurança jurídica, da mitigação de riscos e da proteção do caixa por meio de contratos bem estruturados, compliance efetivo e previsibilidade regulatória.

De outro, a necessidade de viabilizar o negócio, sustentar decisões estratégicas por meio de números e permitir que a organização avance com velocidade, sem renunciar à responsabilidade financeira que garanta o futuro e a atração por investimentos.

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O ambiente empresarial brasileiro, assim como o global, apresenta alta complexidade regulatória, carga tributária significativa e exigências crescentes de compliance, além de demandas sociais cada vez mais relevantes. Tudo isso ocorre em um cenário dinâmico que exige respostas rápidas e estratégicas – e aqui, repito: maior entrosamento e parceria entre números e teses.

De forma pragmática, a área financeira tem como função primordial assegurar a sustentabilidade e o crescimento do negócio por meio da gestão eficiente, visibilidade das métricas de desempenho, identificação de oportunidades, suporte às áreas operacionais e manutenção de controles internos adequados. Estas responsabilidades e objetivos têm clara interseção com a área jurídica das empresas.

Nesse contexto, a integração entre a área legal e de finanças deixou de ser opcional e tornou-se um fator estratégico para garantir segurança jurídica, previsibilidade financeira e competitividade. Um departamento jurídico moderno e estrategicamente alinhado não deve ser percebido como um centro de custo, mas sim como um agente gerador de valor para a organização.

Jurídico precisa buscar e ter espaço para protagonismo dentro das estruturas empresariais

Organizações que tratam o jurídico como área isolada perdem oportunidades relevantes de impulsionar resultados e mitigar riscos. Essa é, provavelmente, a grande oportunidade: o departamento não deve atuar somente como um time de advogados e especialistas que suportam o negócio de forma passiva, quando solicitado, mas definitivamente como um parceiro estratégico, totalmente integrado as etapas do negócio. Projetos, bem como reuniões de Cycle Plan, S&OP, Planejamento e revisão de resultados não podem ser estranhas aos membros deste grupo.

Com um olhar mais detalhado, buscando as sinergias e complementaridades com a área financeira, há uma avenida de possibilidades de geração de valor. A gestão eficiente de passivos judiciais impacta diretamente indicadores financeiros como EBITDA e valuation, evitando provisões excessivas e melhorando a saúde financeira da empresa.

Além disso, a análise contratual preventiva reduz litígios e garante segurança nas negociações comerciais. O trabalho em conjunto de finanças e jurídico, aplicando conceitos financeiros, como valor do dinheiro no tempo e análise de custo-benefício, é essencial para decisões estratégicas sobre litígios ou acordos.

O papel do jurídico também se estende à governança corporativa e à agenda ESG (Environmental, Social and Governance), fatores cada vez mais valorizados por investidores e pelo mercado. A atuação conjunta com a área financeira garante conformidade regulatória, transparência e credibilidade, elementos fundamentais para atração de capital e fortalecimento da imagem institucional.

Para que as oportunidades sejam capturadas com eficiência, é importante que os processos, ferramentas e ciclos de discussões estejam integrados. A cultura da empresa também exerce fator central para a eficiência da estrutura e geração de valor.

Tecnologia é um tópico que precisa ser mencionado e como evolui muito rápido – LegalTech, automação e IA com certeza geram um artigo a parte – é sempre uma oportunidade para adicionar valor que precisa ser continuamente revisitada.

Atualmente as melhores práticas incluem integração jurídico-financeira com tecnologia, utilizando softwares para monitoramento processual e revisão automatizada de contratos. A gestão baseada em dados envolve indicadores jurídicos e financeiros para reduzir contingências e possibilitar atuação preventiva.

Ao escrever essas breves palavras, passou pela minha cabeça o que eu poderia ter aconselhado ao jovem Willian se soubesse que teria tantas interações com advogados no mundo corporativo ao longo da vida. Acredito que essas pequenas sugestões possam ajudar jovens profissionais e servir de alerta para quem ainda não se atentou que o sucesso profissional reside na parceria e na construção coletiva de uma agenda estratégica:

Desenvolver alfabetização jurídica aplicada ao negócio: o profissional de finanças deve compreender, ao menos em nível funcional, temas como estrutura contratual, responsabilidades, garantias, penalidades, compliance e contingências. Não se trata de “virar advogado”, mas de entender como decisões financeiras são condicionadas por riscos jurídicos e obrigações legais.
Integrar risco jurídico aos modelos financeiros e projeções: provisões, passivos contingentes, multas potenciais, riscos regulatórios e cláusulas contratuais relevantes precisam estar refletidos em budgets, forecasts e valuation. Um controller completo traduz o risco jurídico em impacto financeiro mensurável, facilitando decisões mais realistas e defensáveis.
Criar rituais de trabalho conjuntos entre finanças e jurídico: reuniões recorrentes para análise de contratos relevantes, operações estruturadas, disputas judiciais e mudanças regulatórias criam alinhamento e antecipação de riscos. A ausência desses rituais normalmente gera surpresas negativas no caixa, no resultado ou no fluxo de aprovação de projetos.
Participar ativamente da negociação de contratos estratégicos: o profissional de finanças deve estar presente nas discussões contratuais críticas, contribuindo com visão de impacto econômico, fluxo de pagamentos, incentivos, penalidades e cenários. Essa atuação conjunta eleva a qualidade dos contratos e reduz desalinhamentos entre o “acordado juridicamente” e o “viável financeiramente”.
Trabalhar com dados, indicadores e dashboards compartilhados: KPIs financeiros e jurídicos precisam conversar entre si: valor em risco, exposição contratual, contingências, custos de litígio, recuperação de créditos, SLA de contratos, entre outros. Um profissional de finanças maduro ajuda a estruturar essa visão integrada, transformando o Jurídico em fonte de inteligência e não apenas de controle.
Construir uma mentalidade de parceria, não de enfrentamento: o profissional de finanças completo entende que o Jurídico não é um “freio”, assim como o jurídico entende que finanças não é apenas “corte de custo”. A relação deve ser orientada a viabilizar o negócio com segurança, equilíbrio de riscos e sustentabilidade no longo prazo.

O papel do jurídico vai além da defesa passiva. O papel de finanças vai além do corte de orçamento. Juntos, viabilizamos o negócio de pé. Vejo que a integração constante entre áreas constrói um híbrido que pode ser resumido em um parceiro estratégico para geração de valor e sustentabilidade. Organizações com essa visão certamente estão mais preparadas para enfrentar crises e capturar oportunidades com velocidade e eficiência.

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