Algumas relações bilaterais revelam mais pelo que permitem observar do que pelos resultados imediatos que produzem. A relação entre Brasil e República Dominicana se insere nesse grupo. Estável e funcional, ela oferece um ponto de partida útil para refletir sobre diplomacia econômica entendida não como retórica, mas como coordenação institucional aplicada.
Brasil e República Dominicana partem de realidades produtivas distintas. O primeiro reúne escala industrial, diversidade econômica e capacidade de projeção regional. O segundo consolidou-se como economia aberta, com estabilidade macroeconômica, inserção consistente em cadeias globais de valor e uma posição particular como elo entre América Latina, Caribe e mercados extrarregionais. A complementaridade entre esses perfis tende a se manifestar menos em discursos e mais em escolhas regulatórias, fluxos logísticos e arranjos produtivos, à medida que se consolidem canais institucionais de coordenação.
Nas últimas décadas, a República Dominicana construiu uma arquitetura comercial que sustenta essa inserção. O país é signatário do DR-CAFTA, mantém um Acordo de Associação Econômica com a União Europeia e, após o Brexit, firmou um acordo de continuidade comercial com o Reino Unido, assegurando previsibilidade jurídica e a manutenção de preferências tarifárias. Soma-se a isso o acordo com a CARICOM e outros instrumentos regionais, que conferem acesso preferencial a um conjunto amplo de mercados internacionais.
Esses elementos ajudam a compreender o peso do comércio exterior na economia dominicana e o papel do regime de zonas francas, responsável por parcela significativa das exportações, especialmente em manufaturas industriais, dispositivos médicos, produtos eletrônicos e tabaco. Trata-se de um modelo baseado em regras claras, integração logística e diálogo constante entre setor público e privado, cuja eficácia depende da estabilidade e da previsibilidade institucional.
É nesse contexto que a relação com o Brasil passa a adquirir interesse analítico. Em um ambiente internacional marcado por maior fragmentação regulatória, a diplomacia econômica ganhou visibilidade no debate sobre política externa, não apenas como instrumento de promoção comercial, mas como prática de articulação entre instituições, marcos normativos e interesses produtivos.
A experiência dominicana em facilitação de investimentos e integração produtiva tem sido observada no Caribe como um referencial institucional relevante. O Brasil, por sua vez, dispõe de capacidades industriais, empresariais e tecnológicas que poderiam encontrar nesse espaço um interlocutor institucionalmente estável, na medida em que se aprofundem mecanismos de diálogo e coordenação. O encontro entre esses contextos não pressupõe modelos a serem replicados, mas a construção progressiva de aprendizado mútuo e de confiança, sustentada por práticas institucionais consistentes ao longo do tempo.
O valor dessa relação reside menos em resultados imediatos e mais em sua dimensão institucional. A diplomacia econômica contemporânea opera por meio da coordenação entre ministérios, agências reguladoras, parlamentos e setor privado. Quando esses níveis se articulam de forma previsível e cumulativa, reduzem-se incertezas e ampliam-se as condições para decisões produtivas de longo prazo.
Para o Brasil, o Caribe aparece com frequência como espaço de proximidade histórica e geográfica, cuja dimensão operacional tem sido tratada de formas diversas ao longo do tempo. A República Dominicana, pela combinação de estabilidade institucional, conectividade logística e rede de acordos comerciais, oferece um ponto de observação concreto para refletir sobre essa aproximação de maneira pragmática, orientada por instrumentos e não por enunciados abstratos.
Trazer a relação entre Brasil e República Dominicana para o centro da reflexão não implica formular prescrições nem identificar ausências. Trata-se, antes, de reconhecer que a integração regional contemporânea avança por arranjos institucionais discretos, cumulativos e tecnicamente orientados.
Nesse sentido, experiências de cooperação estável — mesmo quando ainda em consolidação — oferecem insumos úteis para o debate sobre diplomacia econômica como política pública na América Latina e no Caribe.
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