Acordo Mercosul-UE vira fator de coesão regional em meio a turbulências na América do Sul

Após uma semana de reveses importantes para a América do Sul, a aprovação de Bruxelas para o acordo Mercosul-União Europeia (UE) foi lida pelo governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) como importante fator positivo de coesão para a região, fragmentada pela ameaça de Donald Trump desde a invasão americana e interferência na Venezuela. Num momento em que a extrema direita volta a ganhar território na vizinhança e a oferecer, em boa medida, pouca resistência ao discurso virulento americano, o entendimento surge como uma espécie de alento.

Negociado há 25 anos, o acordo histórico foi festejado pelo presidente Lula como grande vitória do multilateralismo e do comércio com regras. Até o tinhoso presidente argentino, Javier Milei — que já chamou o Mercosul de “cortina de ferro”—, foi a público comemorar. Afinal, é a concretização do maior mercado de livre comércio do mundo, com 700 milhões de consumidores, redução de 90% das tarifas de lado a lado e divisas.

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Dentro do Palácio do Planalto, a aposta é a de que quanto mais projetos comuns, maior a integração regional e menor o espaço para ingerência de fora. No entanto, desde o 3 de janeiro, quando as forças armadas americanas atacaram a Venezuela e capturaram o ditador Nicolás Maduro, o ponto de equilíbrio no país mudou, o que tem impacto sobre o resto da região.

O Brasil ainda tenta entender até onde irá a interferência em Caracas e quais efeitos terá sobre o conjunto dos países daqui para frente. Segundo fontes ouvidas pelo JOTA, isso criou um momento de reflexão na Esplanada dos Ministérios sobre como será a atuação da diplomacia brasileira nesta seara daqui para frente.

A intromissão cria incertezas para a região como um todo e prejudica a decisão de novos investimentos em energia e infraestrutura, sejam públicos ou privados. “Muito difícil, com menos de uma semana, ter todos os elementos”, disse uma alta fonte. O que vai ficando claro é que aos EUA não interessa a mudança de regime na Venezuela. Os americanos teriam entendido que desbalancear o equilíbrio das forças internas no país poderia desencadear o caos social e mais instabilidade, tudo o que Trump não quer, já que seus interesses estão em explorar o petróleo, o que não acontece em um contexto de desordem total.

A desordem tampouco interessa ao Brasil. E aí os interesses podem se encontrar. O Brasil segue à disposição para ajudar a evitar que o episódio do dia 3 tenha sequência. A Venezuela tem 30 milhões de habitantes e 2.200 quilômetros de fronteira. “Não tem como fingir que não é com a gente”, diz um interlocutor que acompanha de perto.

Uma coisa é certa: o governo brasileiro ampliou o diálogo com lideranças internacionais em busca da condenação da ação americana. A estratégia tem por objetivo evitar a naturalização do que aconteceu e criação de um precedente. Logo após o ataque, sem conseguir uma declaração de consenso dos 33 países da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac), obteve documento firmado com Chile, Colômbia, Espanha, México e Uruguai para reforçar princípios do direito internacional, como o respeito à soberania e a rejeição à interferência externa no controle de recursos naturais.

Na esfera regional, Lula quer manter o diálogo e a aproximação, apesar das evidentes diferenças. Deve chamar o novo líder da Bolívia para conversa e o do Chile, a depender do discurso que apresentar daqui para frente, depois de sua posse. Deve fazer o mesmo com os novos líderes da Colômbia, que terá eleições em breve, e do Peru, se houver eleição. Em breve, o brasileiro estará no Panamá, onde será recebido pelo José Raúl Mulino e onde ainda participa de reunião presencial da Celac.

Assim como entende que o problema da Venezuela não tem efeitos só sobre o Brasil ou a América Latina, o governo sabe que o acordo entre o Mercosul e a UE tem impacto global em tempos de unilateralismo e guerra comercial. Não por acaso, outros países mantêm o interesse em acelerar as negociações em curso. O vice-presidente, Geraldo Alckmin, deu a entender que os próximos serão os Emirados Árabes Unidos e o Canadá. Aliás, o primeiro-ministro canadense ligou para Lula na quinta-feira (8/1) para confirmar sua vinda ao Brasil em abril, justamente para intensificar as conversas sobre um acordo.

A avaliação no Planalto, no Itamaraty e no Ministério do Desenvolvimento é a de que este acordo vai dar nova tração ao Mercosul. “Se a nota estava em 4,5 passou agora para pelo menos 7”, afirma uma fonte diplomática. Isso explica o interesse do Reino Unido, que, com o Brexit, ficou de fora do entendimento com os países europeus, e do Japão, que também tem pressa.

Na avaliação de fontes de alto escalão do governo, o entendimento que cria o maior mercado de livre comércio do mundo aumenta o “rating” do Mercosul e dará nova tração às negociações em curso.

Acordo com a UE pode valer a partir deste ano

Se aprovado pelo Congresso brasileiro ainda no primeiro semestre, o acordo com a UE pode entrar em vigor no Brasil ainda este ano, como havia mostrado o JOTA, já que não é necessário esperar pela aprovação dos outros parlamentos do Mercosul. A expectativa agora é a de que o acordo seja assinado em Assunção, no Paraguai, país que preside o Mercosul, em nível de ministros, no dia 17 de janeiro. A data pode mudar a depender das agendas.

A UE é o segundo maior parceiro comercial brasileiro, depois da China, e primeiro ou segundo destino das exportações de 22 dos 27 estados brasileiros, segundo dados oficiais.

O Palácio do Planalto bateu bumbo nesta sexta-feira (9/1), lembrando do esforço dos negociadores brasileiros e do corpo-a-corpo com o próprio presidente ao longo do último ano. Vai vender como outra grande vitória da política externa brasileira na campanha eleitoral de 2026, assim como a batalha do tarifaço, que considera narrativa de difícil reversão pela extrema direita.

A saída do bloco do ostracismo em que se encontrava tem efeito sobre o discurso da direita, segundo interlocutores. Neste governo, no ano passado, o Mercosul firmou acordo com os países do EFTA e, no anterior, com Cingapura. Os últimos entendimentos tinham sido firmados com a Palestina em 2011 e com o Egito em 2010.

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