Planalto crê que vice de Maduro continuará no poder e vê oposição dividida sobre Venezuela

Em reunião no Palácio Itamaraty na tarde deste sábado (3/1), auxiliares do presidente Lula passaram a limpo a situação na Venezuela e também analisaram os impactos da ação capitaneada pelo presidente americano Donald Trump não somente na questão das fronteiras com o país vizinho e na geopolítica regional, mas também na política interna brasileira.

Lula participou de maneira remota, assim como os ministros Rui Costa (Casa Civil), Sidônio Palmeira (Secom) e Ricardo Lewandowski (Justiça); a secretária-geral do Itamaraty, Maria Laura da Rocha, representou o Ministério das Relações Exteriores, uma vez que o chanceler Mauro Vieira estava em voo.

Uma avaliação que Lula ouviu de sua equipe foi que Delci Rodriguez, vice do capturado Nicolás Maduro, deverá permanecer no poder. A conclusão foi tirada das declarações dadas horas antes por Trump, em entrevista coletiva em Washington.

Trump apontou Delci como interlocutora em Caracas, afirmando que ela “fará o que os EUA quiserem”, embora tenha dito sem detalhar que seu país “governará” a Venezuela e que “continuará lá até a transição apropriada acontecer”. O presidente americano também descartou colocar a opositora e Nobel da Paz Maria Corina Machado à frente do Palácio Miraflores, dizendo que ela não tem a “liderança” e o “respeito” necessários para comandar o país.

O Planalto ainda tenta entender as reais circunstâncias em que se deu a captura de Maduro. Várias hipóteses estão sendo consideradas, inclusive a de que teria havido um acordo com o próprio líder venezuelano para que ele se entregasse. Tampouco está claro qual é o plano de Trump para o pós-Maduro, e se ele de fato tem um. Assim, o governo Lula está em compasso de espera para saber como se posicionar.

Até o momento, a postura de Lula tem sido de cautela.

Ele se manifestou de maneira crítica à intervenção americana, mas não citou nem Trump nem os EUA em sua postagem nas redes sociais. Isso parte da avaliação de que é preciso ter cuidado para não azedar a relação com o presidente americano, depois de uma difícil aproximação iniciada em setembro na Assembleia-Geral da ONU.

O tema deve ser discutido em uma reunião ministerial de emergência neste domingo da Celac (Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos), às 14 horas de Brasília. Apesar da expectativa de que saia do encontro uma declaração crítica à operação americana, gumas fontes em Brasília acreditam que o encontro escancarará as divisões na região, que recentemente testemunhou um crescimento de governos de direita e extrema-direita.

Na segunda, o Brasil deve participar de uma reunião aberta do Conselho de Segurança da ONU para discutir o assunto.

Lula se manifestou mais cedo de maneira crítica à ação americana, dizendo que ela ultrapassa “uma linha inaceitável”, representa uma “afronta gravíssima à soberania da Venezuela” e “um precedente extremamente perigoso”.

Em conversas anteriores, ele já havia se colocado à disposição tanto a Trump como a Maduro para mediar o conflito, oferta recebida sem nenhum entusiasmo por parte de ambos.

A jornalistas neste sábado, Maria Laura Carneiro disse que não cabe ao Brasil fazer nenhum tipo de contato com o governo americano neste momento.

Política interna

Fontes que participaram da reunião disseram ao JOTA que foram feitas também no encontro ponderações sobre as reações dentro do Brasil sobre o episódio na Venezuela.

O ministro Sidônio Palmeira (Secom) avaliou como positiva, do ponto de vista do governo, a postura da imprensa e da opinião pública de uma maneira geral, que embora tenha ressalvas ao regime chavista, acabou condenando de maneira quase unânime a ação militar americana que resultou na captura de Maduro.

A postura dividida da oposição diante do episódio também chamou a atenção de pessoas presentes ao encontro. O PSDB, por meio de Aécio Neves, e o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSD-RS), se mostraram contrários a Trump. Enquanto outros governadores presidenciáveis Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), Ratinho Jr. (PSD-PR), Ronaldo Caiado (União-GO) e Romeu Zema (Novo-MG) aplaudiram a ação militar.

A análise corrente no Palácio do Planalto é que a Venezuela deve permanecer no debate eleitoral por pelo menos algum tempo. E que o tema pode ser delicado para Lula, por conta de seu alinhamento histórico com o chavismo – apesar do afastamento recente. No entanto, também há um potencial de Lula lucrar politicamente, caso se cristalize na população a percepção de que há um exagero da parte de Trump e que isso ameaça a soberania do Brasil, como no caso do “tarifaço”.

De qualquer maneira, a avaliação entre pessoas próximas a Lula é que a Venezuela, tema recorrente nas eleições brasileiras, estará ainda mais presente nos debates do pleito deste ano.

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