As estatísticas mais recentes apontam uma queda expressiva da pobreza no Brasil. Em um país historicamente sujeito à instabilidade econômica, o fato de milhões abandonarem a linha de pobreza configura progresso relevante. Esse avanço decorre de um mercado de trabalho em recuperação e de políticas de transferência de renda mais eficazes. Ainda assim, cabe prudência: diminuição da pobreza não se confunde com redução da desigualdade. Este segundo obstáculo permanece praticamente intacto, sobretudo na ausência de estratégias de longo prazo — como investimento consistente na educação básica — capazes de modificar o arranjo estrutural que sustenta a disparidade.
Em geral, a pobreza recua rapidamente com elevação da renda, formalização do emprego e expansão de programas sociais. Quando famílias obtêm acesso a alimentação, moradia e serviços essenciais, deixam as estatísticas da extrema carência. Isso, entretanto, não implica estabilidade ou mobilidade social; indica antes uma melhora nas condições de vida, o que está longe de equivaler a igualdade. A desigualdade brasileira é persistente porque extrapola o salário do fim do mês: manifesta-se na assimetria de oportunidades, no acesso desigual à educação de qualidade, na fragilidade dos serviços públicos e em barreiras históricas.
Décadas de políticas mal concebidas, gastos ineficientes e um Estado pesado consolidaram um ambiente em que a ascensão social é exceção, não regra. Oferecer renda mínima é necessário, porém insuficiente; é crucial garantir oportunidades, que não nascem de iniciativas transitórias, mas de projetos duradouros e bem estruturados. Assim, enquanto a pobreza reage a medidas imediatas, a desigualdade demanda transformações profundas e continuadas — mudanças que ainda não se materializaram com a intensidade requerida.
É nesse ponto que o debate precisa ser objetivo: o Brasil só romperá com a desigualdade ao investir seriamente em educação básica de qualidade. Não basta ampliar recursos; é preciso aplicá-los com inteligência, boa gestão e foco em resultados: formação e valorização docente, escolas bem equipadas, currículo atualizado, avaliação contínua e políticas ancoradas em evidências. Sem esses pilares, o país permanece preso a um ciclo vicioso em que gerações inteiras não competem em condições equânimes no mercado de trabalho.
A constatação é direta: nenhuma política social transformará o país enquanto crianças concluírem a escola sem dominar competências essenciais — ou sequer conseguirem frequentá-la. Sem capital humano qualificado, a economia segue limitada, com baixa produtividade, salários estagnados e desigualdade resistente. Transferências de renda aliviam a pobreza; apenas a educação altera trajetórias no longo prazo.
Por isso, a agenda de enfrentamento da desigualdade precisa ir além do assistencialismo. Problemas estruturais não se resolvem sem responsabilidade fiscal, eficiência administrativa e compromisso efetivo com a formação das novas gerações. Nações que avançaram contra a disparidade, como a Coreia do Sul, priorizaram a educação básica e colocaram mérito, esforço e qualidade no centro das políticas públicas.
Reconhecer os progressos é essencial, e negar conquistas só alimenta cinismo e desinformação. É, contudo, indispensável examiná-los com sobriedade: retirar milhões da pobreza é um passo enorme, porém insuficiente enquanto o país não assegura igualdade de oportunidades. O desafio é converter uma queda conjuntural em reformas estruturais capazes de atacar as raízes da desigualdade. Há razões para celebrar. Para acomodar-se, não.