Polícia de Tarcísio prioriza truculência e fecha o ano com letalidade crescente

Domingo entre o Natal e o Ano Novo. Uma família volta para casa à noite depois de ter ido à igreja e ao shopping. O pai dirige o veículo, um carro popular. Estão a menos de um quilômetro de casa, quando avistam uma barreira da Polícia Militar. O motorista liga as luzes internas e desacelera o veículo. Um policial, porém, avança com uma pistola em punho em direção ao meio da via, nas cercanias da Ponte da Vila Maria, próximo à Marginal Tietê, na cidade de São Paulo.

Ele aponta a arma em direção ao vidro frontal do carro. A esposa fica assustada enquanto as duas crianças de sete anos no assento traseiro param de falar. Vidro do motorista baixado. O policial pergunta ao pai: você é estrangeiro? Você já foi preso? Após duas negativas, o agente da lei permite à família ir embora sem verificar documento algum. E se aquele que é pago para supostamente proteger tivesse atirado?

Conheça o JOTA PRO Poder, plataforma de monitoramento que oferece transparência e previsibilidade para empresas

Eu vivenciei os fatos acima descritos ontem, 28 de dezembro de 2025, por volta das 22h. Sintomaticamente, no mesmo dia, dados divulgados pela imprensa apontam que as Polícias Civil e Militar do Estado de São Paulo mataram 649 pessoas até o final de outubro de 2025. É um aumento de 69% em relação a 2023, primeiro ano da atual gestão estadual. Cabe lembrar que, antes do atual governo, o estado havia alcançado o patamar mais baixo de letalidade policial em duas décadas, com uma redução de 54% entre 2020 e 2022.

Termino o ano feliz porque ninguém de casa entrou para essas estatísticas. Quantos outros, porém, não podem dizer o mesmo? Quantos outros como eu, minha esposa e filhos não terão sido vítimas da truculência e discriminação de policiais pagos com dinheiro dos nossos impostos? Cabe apontar uma arma para uma família e depois fazer uma pergunta (você é estrangeiro) que envolve um claro julgamento da aparência física?

Mais que a ação de um policial despreparado, que talvez só quisesse exibir poder, o que minha família e outras vivenciamos nas mãos das forças de segurança é sintoma de uma licença para combater o crime a todo custo por parte de Tarcísio de Freitas (Republicanos), governador de São Paulo. Embora esteja fora do páreo presidencial após o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) ter indicado seu filho Flávio, senador pelo Rio de Janeiro, como candidato da extrema direita ao Planalto, a lógica de Tarcísio reflete a defesa da “bukelização” da segurança pública no Brasil.

É uma referência ao modelo de combate ao crime organizado de Nayib Bukele, presidente de El Salvador, que implantou um modelo de encarceramento em massa incensado pela direita. Se tal modelo reduziu o poder do crime organizado, apenas se sustenta com base num Estado policial, em que todos são suspeitos a priori. Portanto, mais que seguir a lógica racional de “bandido bom é bandido preso”, a “bukelização” implica em dar uma licença às forças de segurança para tratar a população como inimiga.

Na missa à qual tinha ido mais cedo com minha família, o sacerdote, em referência à passagem bíblica em que a família de Jesus se refugia com ele no Egito para escapar do infanticídio imposto por Herodes, tinha abordado em sua homilia a necessidade de acolhermos os migrantes, sejam eles compatriotas de outras regiões ou estrangeiros. A polícia de Tarcísio trata a todos como estrangeiros sem direitos: somos suspeitos em potencial, até crianças têm a arma apontada contra si.

Em tempo: o susto pelo qual passei foi tão grande que sequer consegui registrar o nome do policial que me abordou. Agi como São José (patrono da Igreja à qual tinha ido) segundo a tradição católica: pensando em proteger minha esposa e filhos, saí o mais rápido possível da barreira policial. Registrei boletim de ocorrência na Delegacia da Diversidade, que apura ocorrências relacionadas a discriminações tal como a imposta pelo policial que me abordou.

Assine gratuitamente a newsletter Últimas Notícias do JOTA e receba as principais notícias jurídicas e políticas do dia no seu email

Proteger famílias de fato e confiar na lei: essa é a lógica oposta do discurso hipócrita fundamentado em Deus que a extrema direita emprega para chegar ao poder, mas é substituído pela opressão em vez da defesa da população, favorecendo a demonstração de força no lugar da racionalidade ao combater o crime e lidar com cidadãos e estrangeiros de fato, os quais também são portadores de direitos inalienáveis.

Ao mirar o modelo de El Salvador, o máximo que vamos conseguir é nos aproximarmos ainda mais do Haiti, um Estado falido, dominado pelo poder paralelo. No caso do Brasil, a “haitinização” definitiva passa pela perda de confiança nas polícias e demais elementos da autoridade democraticamente constituída. Pavimenta-se o caminho para o poder paralelo, seja ele exercido por policiais que desrespeitam direitos, seja pelas mãos de milícias de fato, sem lei e, portanto, sem democracia.

Generated by Feedzy