O debate sobre inteligência artificial está atualmente concentrado nas temáticas da substituição de empregos, automação de processos, governança de privacidade e proteção de dados, além dos vieses estruturais e algorítmicos. Mas essa é apenas a superfície.
Existe uma camada estrutural – física, ambiental e silenciosa – que sustenta cada resposta gerada por um modelo. A IA não vive no ar: ela depende de Data Centers, cabos, servidores, eletricidade, água e grandes extensões de terra. Tratar IA apenas como fenômeno digital é ignorar a infraestrutura pesada que a viabiliza.
Quando se reconhece que a IA é suportada por recursos materiais, principalmente naturais, entendemos que energia, água e território não são detalhes técnicos, mas variáveis que moldam risco, custo, competitividade e a própria viabilidade do ecossistema digital.
O primeiro impacto aparece no território. A demanda por Data Centers transforma mapas urbanos e regionais, desloca zonas industriais e logísticas e cria verdadeiros “distritos digitais”. A chegada de um único centro pode gerar especulação imobiliária, reconfigurar o preço da terra, alterar usos alternativos do solo e pressionar atividades pré-existentes. Com planejamento, esses impactos podem ser mitigados; sem ele, surgem tensões socioambientais difíceis de reverter.
Mas os desafios se tornam mais complexos quando se analisa o consumo energético e hídrico. O consumo elétrico de Data Centers já ultrapassa 4% de toda a eletricidade dos Estados Unidos, segundo o Pew Research Center. A Agência Internacional de Energia (IEA) projeta que a demanda global pode chegar a quase 945 TWh por ano até 2030 – cerca de 3% do consumo mundial. Grande parte disso vem de cargas ligadas à IA, que exigem chips mais potentes e operações contínuas em escala industrial.
Para responder a essa pressão, empresas investem em parques solares e eólicos dedicados. Mas essa solução traz novos dilemas: conversão de grandes áreas, competição por território e risco de expansão desordenada. No Brasil, há casos de complexos solares instalados em detrimento da vegetação nativa e sobre áreas de baixa produtividade agrícola, especialmente na Caatinga, criando extensões estéreis de painéis solares quando não há critérios ambientais e zoneamento adequados. A equação energética da IA não se resolve apenas com megawatts renováveis, mas com uma expansão que não gere novas externalidades ambientais negativas.
E, então, chegamos ao recurso mais negligenciado: a água. O resfriamento dos servidores consome volumes impressionantes. Um Data Center de 1 MW pode usar até 25,5 milhões de litros por ano (Forbes, 2025). Em instalações maiores e localizadas em regiões secas, o consumo diário chega a 2 milhões de litros, equivalente ao abastecimento de mais de 6.000 lares. Estudos recentes estimam que, até 2027, a IA pode demandar entre 4,2 e 6,6 bilhões de metros cúbicos de água por ano (WIPO, 2024). Em áreas com estresse hídrico, essa infraestrutura compete diretamente com o abastecimento humano, dessedentação animal e agrícola, que conforme a Política Nacional de Recurso Hídrico, os dois primeiros são prioridades.
O problema se agrava pela falta de transparência. Não existe padrão global para divulgar o consumo hídrico e energético desses data centers e, consequentemente, as emissões de gás carbônico e gases de efeito estufa associadas à IA. Empresas reportam dados voluntariamente, muitas vezes incompletos e incomparáveis. Falta taxonomia.
Essa opacidade abre espaço para “greenwashing digital” e impede que investidores, reguladores e sociedade entendam o impacto real da expansão dos modelos.
É aqui que surge o paradoxo climático da IA. A tecnologia pode acelerar a descarbonização, otimizar processos e reduzir desperdícios. Mas, ao mesmo tempo, opera como uma nova indústria pesada digital, concentrada, energética e intensiva em recursos naturais. Se a expansão ocorrer sem alinhamento explícito com matrizes renováveis, métricas ambientais claras e mitigação de impactos negativos, o efeito líquido pode ser contrário ao prometido.
Nesse debate, o Brasil ocupa uma posição ambígua: enfrenta riscos reais, mas também oportunidades únicas. De um lado, há redes elétricas tensionadas, regiões semiáridas vulneráveis e competição territorial crescente. De outro, o país possui a matriz elétrica mais renovável e diversificada do mundo – um diferencial estratégico capaz de atrair Data Centers com custo ambiental reduzido e transformar o país em polo de infraestrutura digital sustentável.
Mas vantagem natural não basta. O Brasil precisa de um posicionamento institucional claro, com regras, incentivos, planejamento territorial e segurança jurídica para investimentos. Governança será decisiva: sem coordenação entre governo, reguladores, estados, municípios e setor privado, o país perde espaço para mercados que já disputam agressivamente esses projetos.
Com efeito, o novo marco do Licenciamento Ambiental veio em boa hora. Órgãos ambientais serão protagonistas no controle ambiental destes empreendimentos, exigindo medidas compensatórias e mitigatórias para a obtenção da licença ambiental, quiça poderá ser enquadrado na licença ambiental especial prevista na MP nº 1.308, DE 8 DE AGOSTO DE 2025.
A mensagem final é simples: não se trata de frear a inteligência artificial, mas de reconhecer que seu avanço inaugura um novo mercado – o da gestão inteligente de energia, água e território. Países capazes de oferecer expansão computacional com baixo impacto socioambiental serão os líderes da próxima década. O Brasil pode estar entre eles. Mas isso exige visão institucional, coordenação público-privada e a capacidade de tratar recursos naturais com a mesma centralidade estratégica que tratamos tecnologia.