O Brasil alcançou em 2024 sua maior queda em emissões de gases de efeito estufa em 16 anos, com redução de 16,7% nas emissões brutas, segundo dados do Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG), do Observatório do Clima. O avanço, porém, concentra-se quase exclusivamente no controle do desmatamento na Amazônia e no Cerrado, que caiu 32,5%. Enquanto isso, a agropecuária — responsável por 29% das emissões brutas do país, ou 42% quando consideradas as emissões líquidas — registrou apenas 0,7% de redução.
“A queda acompanha o desmatamento, porque é o maior vetor, mas os números também mostram que é apenas em desmatamento, e esse é o problema”, afirmou Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima, ao divulgar os dados do SEEG. Dessa maneira, em um cenário em que o Brasil consiga zerar o desmatamento, o setor agropecuário precisará seguir sua trajetória de descarbonização em outras frentes.
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O setor ocupa 80% da terra agricultável do país — cerca de 170 milhões de hectares —, e mais da metade dessas pastagens apresenta algum nível de degradação, segundo dados da Embrapa. Metade delas foi formada nos últimos 50 anos. “Nós somos uma máquina de formar pastagens e, ao mesmo tempo, uma máquina de degradar pastagens. Isso não está certo”, diz Luís Fernando Laranja, sócio da Caaporã Agrosilvopastoril. A constatação revela uma oportunidade: enquanto a média nacional é de uma cabeça de gado por hectare com ganho de 400 gramas de peso por dia, sistemas mais intensivos alcançam três cabeças por hectare com ganho de 600 gramas diárias — um incremento de produtividade de mais de quatro vezes.
Em 2010, o governo federal criou o Plano ABC (Agricultura de Baixa Emissão de Carbono), reformulado em 2023 como ABC+, oferecendo linhas de crédito com taxas diferenciadas para recuperação de pastagens, integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF) e plantio direto. Em dez anos, as práticas de baixa emissão passaram a ser adotadas em 52 milhões de hectares, segundo o Ministério da Agricultura. Mas a recuperação de pastagens degradadas atingiu apenas 30% da meta estabelecida para 2020, segundo uma análise do WRI Brasil. E o financiamento, embora tenha destinado mais de R$ 17 bilhões ao setor, depende da iniciativa do produtor rural, que, muitas vezes, não tem acesso à assistência técnica.
Enquanto o Plano ABC+ foca em incentivos à adoção de tecnologias de baixa emissão, o Plano Clima — estratégia nacional que orienta as ações do Brasil para reduzir emissões e se adaptar aos impactos da mudança do clima até 2035 — gerou forte reação do agronegócio ao propor metas mais rígidas. O documento prevê que a agropecuária reduza entre 36% e 54% de suas emissões até 2035 e inclui na conta do setor parte significativa das emissões provenientes do uso da terra e do desmatamento, estimadas em cerca de 70% das emissões nacionais, o que é motivo de disputa entre governo e produtores.
Tecnologias disponíveis, mercado ausente
A fermentação entérica — o popular “arroto do boi” — é responsável por 65% das emissões do setor agropecuário brasileiro, totalizando 404 milhões de toneladas de CO2 equivalente em 2024. O metano liberado pelos bovinos é um gás 28 vezes mais potente que o CO2. Sistemas produtivos mais eficientes podem reduzir a pegada de carbono por quilo de carcaça de 45 kg de CO2 equivalente para 20 kg — menos da metade.
Entre as soluções disponíveis está o Bovaer, desenvolvido pela dsm-firmenich, que atua no rúmen suprimindo uma enzima responsável pela produção de metano. Estudos demonstram reduções de até 30% nas emissões em vacas leiteiras e 45% em gado de corte confinado. O problema é a viabilidade econômica. No Brasil, o produto ainda é pouco utilizado. “Enquanto o mercado não remunerar essa redução de emissões, fica difícil justificar o uso de produtos que reduzem o metano, mas não melhoram o desempenho animal”, pondera Laranja. Nos Estados Unidos e na Europa, a indústria de laticínios subsidia o uso para descarbonizar sua cadeia de fornecedores, modelo que ainda não se consolidou no Brasil.
Fernanda Marcantonatos, líder de negócios da Bovary para a América Latina, aponta que políticas públicas podem ser decisivas. “Na Dinamarca, por exemplo, o governo está subsidiando o uso de tecnologias para reduzir emissões porque eles têm na NDC que, na quebra por setores, a pecuária deveria reduzir 10% das emissões”, disse. Ela também defende incentivos dentro do Plano Safra para facilitar o financiamento não só para custeio, mas também para investimentos dentro da fazenda.
O nitrogênio, essencial para a produção de fertilizantes para a agricultura tropical, também se tornou um foco das emissões. A produção e a aplicação de fertilizantes responde por, aproximadamente, 11% das emissões globais relacionadas à agricultura. O problema é duplo: na produção, a amônia é obtida a partir de gás natural (fonte fóssil que libera CO2), e o ácido nítrico libera óxido nitroso, gás com potencial de aquecimento 300 vezes maior que o CO2. O Brasil importa mais de 85% dos fertilizantes que consome, muitos da Rússia e da China. Tecnologias de catalisadores que reduzem essas emissões em cerca de 90% são obrigatórias na União Europeia, por exemplo, mas não nas regiões de onde o Brasil mais importa.
Em 2024, a empresa de fertilizantes norueguesa Yara inaugurou uma linha piloto em Cubatão (SP) usando biogás de resíduos de cana fornecidos pela Raízen, com fertilizantes de pegada de carbono até 90% menor. Mas o projeto é modesto: ele produz entre 6 e 7 mil toneladas anuais de amônia. Para descarbonizar toda a planta, seriam necessários pelo menos dez projetos semelhantes. “É preciso criar demanda e formas de remuneração que justifiquem o investimento”, admite Francielle Bertotto, gerente de sustentabilidade da Yara Brasil.
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Práticas de agricultura regenerativa — cobertura do solo, rotação de culturas, sistemas integrados — também vêm ganhando espaço. Segundo o CEBDS (Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável), em um metro quadrado de solo se tem estocado cerca de duas vezes mais carbono que na atmosfera. Projetos como o PRO Carbono, da Bayer, que envolve mais de 1.900 agricultores em 16 estados, demonstram benefícios: aumento médio de 11% de produtividade, 6% de rentabilidade e 16% no sequestro de carbono no solo, segundo dados da empresa compilados pelo CEBDS. No caso da pecuária leiteira, um estudo da Nestlé com 150 propriedades, também citado pelo CEBDS, constatou que fazendas regenerativas tiveram custo de produção 8% menor e rentabilidade 4% maior.
Quem paga a conta?
Ao mesmo tempo em que há tecnologia, práticas comprovadas e políticas públicas com crédito subsidiado, não há um modelo econômico que torne viável a adoção em larga escala de novos produtos. “Se a gente pudesse trocar toda a carne das gôndolas dos supermercados do mundo, que hoje tem pegada de carbono de 40 kg de CO2 equivalente, por carne de 20 kg, seria extraordinário do ponto de vista de mitigação”, projeta Laranja. “Mas o setor da pecuária é relativamente conservador e encontra resistências para qualquer mudança”, afirma.
Dados do MapBiomas mostram que a agropecuária foi responsável por mais de 97% da perda de vegetação nativa no Brasil nos últimos seis anos. Laranja defende que é preciso assumir o passivo sem julgamentos. “O que ficou para trás, ficou. Mas agora temos uma tarefa: recuperar essas pastagens, porque isso melhora a rentabilidade do produtor, a qualidade do solo, a biodiversidade e ainda reduz emissões”, conclui.
Para ele, o desafio não é apenas tecnológico ou político, é criar um ambiente econômico que remunere a produção de baixo carbono. O mercado internacional, cada vez mais atento à pegada de carbono dos alimentos, pode ser o catalisador necessário. Mas enquanto não houver mecanismos claros — prêmios ao produtor, mercados de carbono robustos ou compromissos efetivos da indústria —, a adoção em larga escala permanece limitada.