Quando a saúde chega pelo celular: lições do Baixo Amazonas para o Brasil

Entre rios e comunidades ribeirinhas, a saúde pública precisa adaptar-se às condições reais de vida da população, seja no tratamento ou na prevenção. Quando se discute inovação no Sistema Único de Saúde (SUS), o uso de tecnologia é imprescindível, mas o olhar costuma recair sobre os padrões vistos e experimentados nos grandes centros urbanos, marcados pela ampla conectividade e pela presença de múltiplos aplicativos e dispositivos.

No entanto, o cenário amazônico revela um desafio distinto, em que o cuidado deve superar barreiras geográficas, enfrentar a precariedade da conectividade e instabilidade da conexão com a internet e dialogar com práticas culturais próprias.

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Nesse contexto, a comunicação por mensagens de celular desponta como uma ferramenta estratégica para orientações, estreitamento da relação entre cidadãos e serviços de saúde, e na solução de problemas de falta de informações sobre o que está disponível para a população dessas regiões. Trata-se de um recurso de baixo custo, simples de utilizar e capaz de fomentar a prevenção e o acompanhamento constante.

O envio de mensagens de texto, áudio, imagem ou vídeo curto pode apoiar o acompanhamento de gestantes, lembrar compromissos médicos e reforçar orientações de autocuidado em doenças crônicas. Essa diversidade de formatos não apenas amplia a compreensão das informações, mas também dialoga com diferentes perfis de pessoas, com suas também distintas capacidades de consumo digital. A escolha do formato precisa considerar as condições de acesso, o manuseio dos aparelhos e os níveis de letramento tecnológico da população.

O WhatsApp, que em 2020 já estava presente em 99% dos smartphones brasileiros segundo o Panorama Mobile Time/Opinion Box, assume papel central nessa estratégia. O aplicativo funciona em condições de conectividade limitada, armazena mensagens até que haja sinal e dispensa a necessidade de novos cadastros ou logins.

Assim, a saúde se insere no cotidiano das pessoas sem exigir passos adicionais, compartilhando espaço com as interações familiares e comunitárias. Fortalecer plataformas oficiais como o Meu SUS Digital é essencial, mas a experiência amazônica sugere ainda a importância que é ter o SUS nos canais de comunicação já utilizados pela população.

Dois momentos recentes ilustram o poder de comunicação em larga escala quando os canais são bem utilizados. Entre 2021 e 2022, milhões de brasileiros recorreram ao Meu SUS Digital em busca do comprovante de vacinação contra a Covid-19. Em 2024, o mesmo aplicativo foi decisivo para informar sobre a distribuição gratuita de absorventes no sistema público de saúde. Esses exemplos mostram que mensagens claras, enviadas de forma organizada e acessível, têm potencial para mobilizar cidadãos em todo o território nacional, inclusive em áreas remotas.

Mensagens com atenção à identidade local

No Projeto Afluentes, desenvolvido pelo Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) com apoio técnico da ONG ImpulsoGov e o Projeto Saúde e Alegria, e financiado pela iniciativa do BNDES Juntos pela Saúde, a comunicação por mensagens de texto está sendo incorporada como parte das estratégias de cuidado no Baixo Amazonas, com ênfase no pré-natal e na hipertensão.

A iniciativa abrange áreas urbanas e rurais de seis municípios do oeste do Pará e conta com um comitê gestor formado por especialistas e lideranças locais. Esse grupo revisa linhas de cuidado, estabelece protocolos digitais e acompanha resultados com indicadores específicos, sempre considerando os aspectos socioculturais e epidemiológicos do território.

O diferencial dessa experiência é que as mensagens são construídas a partir dos territórios e da escuta comunitária, com a participação direta do Projeto Saúde e Alegria e das lideranças locais. Essa colaboração garante que a comunicação não seja apenas uma transposição técnica, mas uma tradução da realidade ribeirinha para a linguagem digital.

A proposta vai além da simples adoção de tecnologia. Ao recomendar atividade física, por exemplo, o conteúdo faz referência à prática de nadar nos rios. Quando o tema é nutrição no pré-natal, destaca-se a importância do consumo de peixe, alimento central na dieta regional.

Essa adequação cultural não é acessória, mas uma condição necessária para que a comunicação seja entendida, aceita e valorizada pela comunidade. Logo, cada envio precisa considerar não apenas o conteúdo, mas também os limites técnicos e geográficos da região. A estratégia, assim, não é apenas digital, mas profundamente territorial.

O desafio da conectividade, entretanto, não se limita à Amazônia. Outras cidades brasileiras, cada uma com suas particularidades geográficas e sociais, também enfrentam barreiras para assegurar que a saúde digital seja inclusiva. Por essa razão, soluções tecnológicas vêm sendo desenvolvidas com o objetivo de reduzir desigualdades e colocar a conectividade a serviço da prevenção e do cuidado, mas ainda têm um potencial vasto de expansão em termos de penetração no sistema de saúde brasileiro com gestão pulverizada.

A solução de envio de mensagens da ImpulsoGov, a mesma aplicada no projeto Afluentes, por exemplo, já foi integrada à realidade de 90 municípios de distintas regiões do país, apoiando gestores locais na transformação de dados em acompanhamento contínuo e em melhores resultados para a população.

Persistem, contudo, alguns desafios. A diversidade do Brasil impede a adoção de um modelo único de atendimento digital. Diferenças de infraestrutura, conectividade irregular e contextos sociais heterogêneos exigem soluções adaptáveis. Além disso, a proteção dos dados pessoais deve ser tratada como prioridade, de modo a garantir conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados e preservar a confiança da população.

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A experiência no Baixo Amazonas evidencia que a saúde digital precisa ser construída com sensibilidade territorial e participação comunitária. As mensagens não são neutras, e carregam a identidade cultural dos povos da floresta e ribeirinhos, traduzindo o SUS para sua realidade cotidiana. A solução implementada funciona como ponte porque se apoia em elementos já presentes no cotidiano, como o celular, o ritmo da vida ribeirinha e a necessidade de cuidado em locais distantes de hospitais de referência.

Em muitos casos, uma simples mensagem no celular ultrapassa o valor da informação que transmite. Pode representar a presença efetiva do sistema público de saúde e, em situações críticas, significar a diferença entre acesso à prevenção e ao cuidado ou ausência de atendimento.

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