Embalado pela reação da opinião pública ao cenário externo e à ação do Palácio do Planalto até aqui, o governo Lula prepara arsenal de respostas a tarifaço de Donald Trump na expectativa de escalada da crise política com o início do julgamento de Jair Bolsonaro na próxima semana. A iniciativa segue a linha de que o Executivo não está parado e vai reagir até o fim — ideia que começa a reverberar com força na imprensa internacional.
Nesta sexta-feira (29/8), o Brasil avisará aos EUA que a Câmara de Comércio Exterior (Camex) foi acionada para analisar investigações e medidas cabíveis no âmbito da Lei de Reciprocidade. O plano não é usá-las agora, até porque o processo tem o seu curso, mas tê-las à mão, se e quando necessário. A medida foi divulgada no mesmo dia em que o vice-presidente, Geraldo Alckmin, anunciou uma série de acordos no México e da força-tarefa que deflagrou uma operação histórica contra o crime organizado. Fontes do governo, contudo, juram que a decisão terá sido meramente técnica.
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Seja como for, os três episódios são gestos para o público interno, mirando em 2026, ao reforçar a ideia de que o governo brasileiro é pró-ativo e capaz de responder a Washington de igual para igual. Mas também para a Casa Branca e para a comunidade internacional.
A ameaça de se recorrer finalmente a medidas de retaliação (palavra que o governo segue evitando) previstas na Lei de Reciprocidade serve para tentar convencer os americanos à voltarem para a mesa de negociação. E mostrar ao resto do mundo que o Brasil continua insistindo na opção pela negociação. Afinal, como mostrou o JOTA, os canais existentes de negociação seguem congelados desde 4 de julho, à espera de um sinal de Trump.
O processo no âmbito da Lei de Reciprocidade se daria nos mesmos moldes da investigação em curso aberta pelos EUA contra o Brasil no âmbito da seção 301, lei americana de 1974. Ele pode se estender de pelo menos dois meses a quase um ano. O americano pode levar a uma média de 8 a 12 meses (o caso contra a carne da União Europeia, por exemplo, aberto em 1999, arrastou-se por 20 anos).
Nesta semana, enquanto o Brasil assiste ao início do julgamento de Bolsonaro, acontece em Washington, a audiência pública onde será ouvido o setor privado dos dois países, previamente às consultas bilaterais que serão inauguradas entre os governos. Somente esta via de negociação, por canais previstos na própria lei americana, está aberta.
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A viagem de Alckmin também tem seu simbolismo. É o Brasil explorando a abertura do mercado da segunda maior economia da América Latina, vizinha de fronteira e dependente comercialmente dos EUA, com quem têm um acordo de livre comércio de longa data.
Os anúncios durante a missão foram menos contundentes do que se gostaria de alardear, até porque o México está em negociação com os americanos neste momento. Mas o gesto foi feito em alto e bom som, e dias depois de Alckmin receber o ministro de Comércio do Canadá em Brasília para falar do acordo Mercosul-Canadá.
Até a megaoperação contra a máfia dos combustíveis comandada pelo PCC, com seus vínculos no sistema financeiro, é sinal para Trump, que tem insistido no combate ao narcotráfico na América Latina e, que, volta e meia, flerta com a ideia de classificar como terroristas grupos que atuam no Brasil. Seria a desculpa para insistir em movimentar tropas para combatê-los.
Nas últimas semanas, o governo Lula reiterou que o combate ao narcotráfico é pauta regional e deve ser conduzida e liderada pelos países latino-americanos. Esse foi um dos principais recados dos países amazônicos na reunião da OTCA, na Colômbia, na semana passada, depois de Trump anunciar que estaria levando navios de guerra ao Sul do Caribe com o objetivo de enfrentar ameaças de cartéis de drogas latino-americanos, mirando a Venezuela.
Reflexos nas pesquisas de opinião
Os impactos de relações comerciais são lentos, mas no Brasil já há reflexos sobre as potências globais: os Estados Unidos perderam prestígio, enquanto a imagem da China se fortaleceu entre os brasileiros.
Em menos de um ano, a imagem dos EUA piorou: a aprovação caiu de 56% para 44% e a rejeição subiu de 25% para 48%, segundo pesquisa Quaest. Já a China ganhou prestígio, com avaliação positiva passando de 34% para 49%. Isso dá tempo (e aval) ao governo para manter-se onde está.
Como sabe — e até espera em boa medida — que a temperatura vai subir, o governo vem atuando com cautela para não dar elementos para inflar Trump, que está há mais de 10 dias sem falar no Brasil. Executivo e Judiciário teriam entendido isso e estariam tentando calibrar suas ações, cada um de seu lado.
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Talvez esse tenha sido o cálculo de Alexandre Moraes ao validar a ideia da polícia 24 horas por dia na porta de Bolsonaro, em vez de prisão preventiva. É forma de subir cautelares sem preventiva antes do trânsito em julgado, para não dar tempo de Eduardo Bolsonaro provocar nova reação do lado de lá. A ideia é estar pronto para defesa mais robusta quando chegada a hora.
“Se o Trump quiser negociar, o Lulinha paz e amor está de volta. Eu não quero guerra com os Estados Unidos, eu quero negociar. Eu quero a verdade em cima da mesa”, disse o presidente nesta sexta-feira com o seu boné azul “O Brasil é dos brasileiros” na cabeça.