Nem heróis, nem vilões: muito além do binarismo tecnológico

A falsa escolha

O debate público e acadêmico sobre as plataformas digitais frequentemente oscila entre dois polos: de um lado, o tecno-solucionismo (ou tecno-otimismo), que aposta nas plataformas como instrumentos de transformação social, democratização do conhecimento e inclusão.

De outro, o tecno-pessimismo, que vê nas mesmas plataformas mecanismos de vigilância, manipulação e degradação social. Ambos partem de uma lógica determinista, atribuindo à tecnologia um papel central e autônomo nos rumos da sociedade.

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Diante dessa polarização, autores como Danaher (2022) e Acemoglu & Johnson (2023) propõem uma abordagem intermediária. Eles argumentam que os efeitos das plataformas não são dados de antemão pela tecnologia, mas dependem da forma como a sociedade estrutura seus usos — com instituições capazes de mediar seu impacto, regular excessos e distribuir seus benefícios de forma justa — em essência, a regulação da tecnologia para o interesse público.

Privilegiar um aspecto do impacto das plataformas digitais na sociedade em um estudo não é um problema em si. O que se torna um problema é o uso seletivo contemplando apenas uma perspectiva para apoiar políticas públicas concretas.

Revisões sistemáticas: um caminho equilibrado

Em pesquisas acadêmicas, é comum distinguir dois tipos de revisão de literatura: a revisão de conveniência e a revisão sistemática. A primeira consiste na escolha de estudos com base no julgamento subjetivo do autor, sem critérios claros de seleção.

Já a revisão sistemática de literatura — que pode incluir métodos como meta-análise ou revisão integrativa — segue um protocolo rigoroso e transparente. Ela define previamente as bases de dados consultadas, as estratégias de busca, os critérios de inclusão e exclusão e os métodos de análise, permitindo mapear de forma abrangente e crítica o que já foi produzido sobre determinado tema e reduzir vieses de pesquisa.

Não se trata apenas de “juntar artigos”, mas de aplicar uma metodologia que garanta maior confiabilidade e validade científica. Por isso, revisões sistemáticas são amplamente utilizadas como base para tomada de decisão em contextos públicos e privados e elaboração de diretrizes baseadas em evidências (Galvão & Ricarte, 2020).

No caso dos efeitos das plataformas digitais, há diversos estudos de revisão sistemática robustos, e alguns merecem destaque:

Digital platform and development: A survey of literature, Innovation and Development: esse estudo do governo britânico avaliou 112 papers e, a partir da análise aprofundada de uma amostra, discutiu como plataformas digitais focadas na gig economy oferecem tanto benefícios quanto desvantagens para a sociedade. A economia das plataformas proporciona conveniência, velocidade, criação de valor e ampliação das escolhas dos consumidores em múltiplos domínios. Junto com esses benefícios surgem consequências negativas, incluindo precarização e discriminação no mercado de trabalho;
Examining the Role of Digital Technology as an Enabler of Digital Disruption: A Systematic Review: nesse artigo acadêmico, os pesquisadores avaliaram 83 artigos, com destaque para análises sobre IA, e reforçaram que as plataformas digitais fomentam a inovação e o bem-estar social, mas também criam novos desafios para a governança, equidade social e estrutura da economia, sublinhando sua natureza inerentemente complexa;
Social media use and social well-being: a systematic review and future research agenda: a partir de 273 estudos, este trabalho abordou os efeitos das plataformas digitais na saúde e bem-estar, mostrando tanto benefícios (apoio social, redução da solidão) quanto desafios (cyberbullying, vício, sobrecarga social), com importantes diferenças de acordo com a demografia dos usuários e design das plataformas; e
Social Media and Political Dysfunction: A Collaborative Review: este documento aberto, de curadoria dos professores Jonathan Haidt e Chris Bail, serve como repositório que compila pesquisas publicadas que abordam o impacto de plataformas digitais para as democracias e sistemas eleitorais. Sua análise revela respostas cheias de nuances, já que os resultados variam significativamente dependendo do contexto, fontes de dados, estruturas teóricas e questões específicas de pesquisa examinadas.

O que aprendemos com essas revisões? A complexidade como principal evidência

Esses exemplos reforçam a importância de abordagens sistemáticas: em vez de selecionar estudos isoladamente, as revisões estruturadas permitem compreender a pluralidade de evidências e as nuances sobre um tema. Longe de apontarem um veredito claro — de que “plataformas digitais fazem bem” ou “fazem mal” — essas revisões revelam um quadro ambivalente, em que os efeitos são altamente condicionais e contextuais.

Portanto, mais do que fornecer respostas prontas, essas revisões nos ajudam a formular melhores perguntas: quais são os grupos mais vulneráveis? Em que contextos plataformas digitais se tornam mais prejudiciais ou benéficas? Que mediações institucionais e sociotécnicas podem mitigar riscos e ampliar benefícios?

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A sofisticação dessas abordagens reside justamente na capacidade de tratar as tecnologias digitais não como forças autônomas, mas como elementos cujo impacto depende das formas sociais de uso, regulação e apropriação.

A postura investigativa como caminho

Tecnologias não operam de forma isolada nem produzem efeitos universais: seus impactos são múltiplos, contraditórios e altamente dependentes de contextos, mediações e desigualdades preexistentes. Isso exige uma postura capaz de reconhecer incertezas, ambivalências e disputas que atravessam o campo tecnológico.

Em vez de aderir a narrativas deterministas — sejam elas otimistas ou pessimistas —, é necessário construir conhecimento a partir de métodos, evidências empíricas e atenção constante às condições concretas de uso e apropriação das tecnologias.

Mais do que tomar partido entre otimismo ou pessimismo tecnológicos, propomos cultivar uma atitude investigativa, uma postura que prioriza a análise antes do julgamento, e entende que, em contextos de incerteza, seguir métodos rigorosos é também uma forma de garantir decisões mais transparentes e responsáveis.

ACEMOGLU, Daron; JOHNSON, Simon. Power and Progress: Our Thousand-year Struggle Over Technology and Prosperity. New York: PublicAffairs, 2023. 546 p.

BERGER, Matthew N. et al. Social media use and health and well-being of lesbian, gay, bisexual, transgender, and queer youth: systematic review. Journal of Medical Internet Research, v. 24, n. 9, p. e38449, 21 set. 2022.

DANAHER, John. Techno-optimism: an analysis, an evaluation and a modest defence. Philosophy & Technology, v. 35, n. 2, p. 54, jun. 2022.

DOUDAKI, Vaia et al. Techno-pessimistic and techno-optimistic visions of surveillance and resistance in Europe. Central European Journal of Communication, v. 17, n. 1(35), p. 17–37, 4 jul. 2024.

FU, Xiaolan; AVENYO, Elvis; GHAURI, Pervez. Digital platforms and development: a survey of the literature. Innovation and Development, v. 11, n. 2–3, p. 303–321, 2021. DOI: 10.1080/2157930X.2021.1975361.

GALVÃO, Maria Cristiane Barbosa; RICARTE, Ivan Luiz Marques. Revisão sistemática da literatura: conceituação, produção e publicação. Logeion: Filosofia da Informação, v. 6, n. 1, p. 57–73, 15 set. 2019.

HAIDT, Jonathan; BAIL, Christopher. Social media and political dysfunction: a collaborative review. Unpublished manuscript, New York University, em andamento.

KARIM, Fazida et al. Social media use and its connection to mental health: a systematic review. Cureus, 15 jun. 2020.

LEI, Jingjun et al. Examining the role of digital technology as an enabler of digital disruption: a systematic review. Research Square, 2023. DOI: 10.21203/rs.3.rs-3657875/v1.

MERINO, Mariana et al. Body perceptions and psychological well-being: a review of the impact of social media and physical measurements on self-esteem and mental health with a focus on body image satisfaction and its relationship with cultural and gender factors. Healthcare, v. 12, n. 14, p. 1396, 12 jul. 2024.

MURARI, Krishna; SHUKLA, Shalini; DULAL, Lalit. Social media use and social well-being: a systematic review and future research agenda. Online Information Review, v. 48, n. 5, p. 959–982, 2024. DOI: https://doi.org/10.1108/OIR-11-2022-0608.

OLUWATOSIN ESTHER AJEWUMI et al. The impact of social media on mental health and well-being. World Journal of Advanced Research and Reviews, v. 24, n. 1, p. 107–121, 30 out. 2024.

POPAT, Anjali; TARRANT, Carolyn. Exploring adolescents’ perspectives on social media and mental health and well-being – a qualitative literature review. Clinical Child Psychology and Psychiatry, v. 28, n. 1, p. 323–337, jan. 2023.

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