Ofensas de Milei no Brasil integram roteiro de golpe de Trump a favor dos Bolsonaro

Quantos votos Javier Milei pode atrair para Flávio Bolsonaro (PL)? Para além de mobilizar alguns liberais econômicos ao extremo e parte da machosfera que se identifica com qualquer um que se declare antiwoke na contemporaneidade, o presidente argentino não parece ser um bom cabo eleitoral para furar a bolha de extrema direita — ainda mais depois de uma Copa do Mundo em que brasileiros à esquerda e à direita se uniram organicamente contra o tetracampeonato da Argentina.

O que, portanto, levou a principal candidatura de oposição ao quarto mandato de Luiz Inácio Lula da Silva contar em seu lançamento no último sábado (25/7) com um convidado de honra que, ao xingar em território nacional não apenas Lula — o atual e constitucionalmente legítimo chefe de Estado brasileiro —, mas também o ministro do STF Alexandre de Moraes, abrindo uma crise diplomática sem precedentes entre os dois maiores países da América do Sul?

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Milei atua como “capanga de Trump”, no dizer dos bastidores do Planalto. De fato, só é possível interpretar a presença do presidente argentino na convenção do PL, realizada no Estádio do Pacaembu, em São Paulo, como uma espécie de ponta de lança da internacional de extrema direita que é liderada pelo americano e conta com seu colega argentino como principal representante na América Latina.

O Brasil não é apenas estratégico para satisfazer os interesses americanos no atual período, já chamado de Segunda Guerra Fria, mas também para manter o movimento global de extrema direita vivo caso Trump perca força na segunda metade do atual mandato e eventualmente não consiga eleger seu sucessor em 2028 — isso para não citar a hipótese de ele mesmo tentar perpetrar um golpe de Estado nos EUA, movimento que não pode ser descartado considerando as reiteradas falas tentando descredibilizar o sistema eleitoral americano.

De alguma maneira, o Brasil já foi o epicentro da extrema direita global entre 2021 e 2022, quando Jair Bolsonaro, pai de Flávio, ainda governava o Brasil e Trump era tido como acabado após a derrota sofrida perante o democrata Joe Biden em sua primeira tentativa de reeleição à Casa Branca. Mesmo na Europa não havia quem pudesse ocupar tal posto, considerando especificidades significativas dos extremistas com votos suficientes para chegar ao poder naquele continente.

Algumas figuras europeias, como Giorgia Meloni, flertam com o ideário neofascista, mas não reúnem todos os elementos do repertório da extrema direita internacional, sobretudo o alinhamento automático a governos autoritários fora do Ocidente. Meloni, por exemplo, não é próxima ao russo Vladimir Putin, ao menos desde que chegou ao poder.

Milei poderia tentar se converter em referência internacional da extrema direita com seu (discreto?) nacionalismo branco e defesa de um ideal de liberdade antiminorias, mas não parece autoritário o suficiente para liderar esse movimento caso Trump saia enfraquecido em 2028. Além disso, o próprio presidente argentino enfrenta riscos em seu projeto de reeleição. Nesse cenário, uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro daria sobrevida à extrema direita não apenas no hemisfério ocidental, mas no mundo como um todo.

Mesmo movimentos próximos da ideologia trumpista na Europa, como o de Marine Le Pen na França, esbarram em limites semelhantes. Embora Le Pen apareça como possível sucessora de Emmanuel Macron em 2027, ela carrega o mesmo “pecado” de Meloni: não se liga automaticamente a Putin nem demonstra disposição de assumir compromissos com Trump que impliquem a submissão da Europa a Washington.

Nesse sentido, a chamada internacional da extrema direita esbarra nos próprios nacionalismos que ela mobiliza. Na América Latina, porém, essa contradição aparece de modo distinto: o nacionalismo da extrema direita frequentemente assume uma feição antipatriótica, pois sua verdadeira referência não é a defesa da soberania nacional, mas a filiação internacional a um nacionalismo branco e cristão. Por tabela, converte-se em representante do imperialismo norte-americano na região.

Pode soar como retórica de uma esquerda antiga, mas, no contexto da Segunda Guerra Fria, não deveria surpreender que uma linguagem aparentemente datada volte a ser útil para compreender o presente. Ainda assim, mesmo durante a Guerra Fria original (1945-1989), seria difícil imaginar a deselegância de um chefe de Estado viajar ao território de um país vizinho e amigo para ofender seu presidente e suas instituições democráticas.

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Para a extrema direita, porém, pouco importa preservar formas diplomáticas ou instituições. Seu objetivo não é apenas governar, mas destruir, como ficou patente durante a pandemia. De destruição em destruição, Flávio Bolsonaro e Milei ainda preservam popularidade suficiente para desafiar as forças que defendem um mínimo de soberania para os países latino-americanos.

Se o Brasil cair novamente nas mãos da extrema direita — ou se, em caso de vitória de Lula, o eventual não reconhecimento do governo brasileiro pelos Estados Unidos encontrar eco entre países da região —, Trump poderá se apresentar, sem grandes constrangimentos, como uma espécie de imperador do hemisfério ocidental, golpeando de vez a maior democracia da região. Milei, nesse arranjo, assumiria aquilo que de fato já parece reivindicar: não o papel de presidente de um país soberano, mas o de governador-geral (ou capanga) a serviço do império.

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