Romeu Zema redobra críticas ao STF como tentativa de se viabilizar para a Presidência

No começo de junho, o pré-candidato à Presidência do Partido Novo, Romeu Zema, ex-governador de Minas Gerais, sentou-se ao lado de Ronaldo Caiado, ex-governador de Goiás e também presidenciável pelo PSD, durante a abertura da feira agropecuária MegaLeite, em Belo Horizonte. A duas cadeiras de distância também estava o senador Flávio Bolsonaro (PL), o filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), escolhido pelo pai para substituí-lo na disputa eleitoral deste ano.

O entorno de Zema faz questão de espalhar que a distância não era só física desde que vieram à tona os áudios em que o senador pedia dinheiro ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, que foi sócio-administrador do extinto Banco Master, para supostamente financiar um filme sobre o pai. 

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Apoiador de Bolsonaro desde o primeiro mandato, Zema e seus aliados tentam mostrar agora que ele passou a manter distância física e “ética” de Flávio desde que foi revelada a proximidade do senador com Vorcaro.  Zema foi o primeiro “bolsonarista” e direitista da disputa presidencial a criticar o antigo aliado. 

“Flávio Bolsonaro, ouvir você cobrando dinheiro do Vorcaro é imperdoável. É um tapa na cara dos brasileiros de bem”, criticou Zema, em vídeo divulgado nas redes sociais, ainda em maio.

A bordoada foi vista no cenário político como uma forma de se diferenciar da candidatura bolsonarista e de tentar herdar tanto os votos que Flávio perdeu nas pesquisas quanto a preferência dos indecisos. “Zema foi o primeiro a sentir o cheiro de sangue”, avalia o analista político Wilson Pedroso, ex-chefe de gabinete do ex-governador João Doria. “Se ele conseguir alavancar a campanha dele, vai trazer parte dos 1/3 dos votos que seriam daqueles eleitores de centro”, acrescenta. 

O ataque a Flávio, depois de dois mandatos de governador como apoiador ferrenho do ex-presidente Jair Bolsonaro, foi interpretado como oportunismo por correligionários do Novo no Paraná e em Santa Catarina, que viram risco às suas coligações regionais. Mas Zema e seu entorno alegam que a crítica era uma questão de coerência com os princípios de Zema e do partido. 

“Se tem alguém que traiu alguém, foi o Flávio”, diz, em privado, um dos coordenadores de campanha do Partido Novo. O ataque omite uma ironia que seus adversários não deixam passar. Em 2022, Henrique Vorcaro, o pai de Daniel Vorcaro, doou R$ 1 milhão ao partido. 

A doação do pai de Vorcaro ao Novo não é o único flanco explorado pelos adversários. Depois de demanda judicial vencida por parlamentar da oposição, o governo mineiro divulgou a lista completa das empresas beneficiadas por incentivos, renúncias e imunidades fiscais entre 2015 e 2024. E a Eletrozema, rede varejista que tem como principal acionista o próprio ex-governador, foi uma das agraciadas com R$ 2,2 milhões de desconto no ICMS. O benefício foi concedido em 25 de junho de 2024, quando Zema ainda comandava o governo mineiro. 

Desde que o Novo começou a despejar dinheiro na pré-campanha presidencial de Zema, no ano passado, ele partiu para o ataque em múltiplas frentes. Apostou em agendas em outros estados e reforçou o antagonismo com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) até em agendas institucionais. Antes de mirar Flávio Bolsonaro, o mineiro elegeu como alvos os ministros Dias Toffoli, Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), depois das revelações de supostas ligações de Moraes e Toffoli com o banco Master. 

A ofensiva contra os ministros do Supremo não ficou só em manifestações públicas. Serviu de inspiração para a série “Os Intocáveis”, divulgada nas redes sociais de Zema. São vídeos criados com inteligência artificial pelo marqueteiro Renato Pereira, ex-delator da Operação Lava Jato e antigo estrategista de Sérgio Cabral, Luiz Fernando Pezão e Eduardo Paes, contratado pelo Novo para a pré-campanha do ex-governador. Gilmar reagiu aos ataques com uma queixa-crime por calúnia à Procuradoria-Geral da República (PGR), que encampou a briga e apresentou denúncia contra Zema perante o Superior Tribunal de Justiça (STJ)

Em entrevista ao JOTA, Zema atribui a postura contra o Supremo ao fato do “mineiro ser mais indignado do que a média nacional”. “Tanto é que a inconfidência foi o primeiro ato separatista do Brasil e começou em Minas Gerais”, afirmou. 

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Aos 61 anos, Romeu Zema Neto gosta de citar em seus discursos a Inconfidência Mineira, que, além da inspiração separatista e republicana, foi um movimento da elite mineira contra a cobrança de tributos sobre o ouro em 1789, pelo qual Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, foi o único condenado e executado pela coroa portuguesa. Tiradentes fazia a extração de dentes, foi dono de uma farmácia e era parte da burguesia local, mas jamais chegou perto da fortuna que Zema e sua família fizeram a partir de Araxá, no Triângulo Mineiro. 

Bisneto de um imigrante italiano de Reggio Calábria, Zema foi presidente do conselho de administração do Grupo Zema, conglomerado que a família ergueu ao longo de um século, com varejo de eletrodomésticos, distribuidoras de combustíveis, concessionárias e financeiras. O grupo virou alvo da CPI do INSS e chegou a cerca de 800 estabelecimentos em dez estados. Formado em administração de empresas pela FGV, Zema assumiu o comando do conglomerado em 1990, de onde saiu em 2016. Divorciado e pai de dois filhos, foi filiado por quase duas décadas ao antigo PR (que deu origem ao atual PL), mas migrou para o Novo em janeiro de 2018. 

Pela trajetória no setor privado e na política, marqueteiros veem a estratégia recente de Zema como um esforço para repaginar sua candidatura com a pecha anti-sistema, que já elegeu Bolsonaro. Uma consultoria recente de media training orientou Zema a falar “na ponta do pé, em posição de ataque”. 

“Fizemos duas campanhas dele baseadas em gestão. Ele era o gestor responsável, vindo do setor privado, e num momento da conjuntura, fomos felizes. Agora virou puramente ideológico. Hoje, na disputa presidencial, a direita tem seu dono, o Bolsonaro. E como não cresce a intenção de voto dentro da ideologia, porque essa raia já está ocupada, eles estão apelando para tudo”, afirmou ao JOTA o estrategista Leandro Groppo, que foi responsável pelas duas campanhas de Zema ao governo de Minas Gerais. 

Paulo Brant, vice-governador no primeiro mandato do Zema, avalia que a atual retórica do ex-governador difere do comportamento gentil e pacato que viu nele durante a convivência na administração estadual. “Ele é um cara gentil, fala baixo, respeitoso. É um homem de bem, de poucos amigos, muito recolhido. No dia a dia, ele é simples mesmo. Mas comer banana com casca é o marqueteiro que fica mandando”, brinca Brant. 

O ex-vice-governador se distanciou de Zema e do Partido Novo ainda no meio do primeiro mandato, depois de ser incumbido de uma negociação que durou meses sobre o reajuste salarial com servidores da segurança pública. Combinado em ata e mesa de negociação com o funcionalismo, o projeto de reajuste de Zema foi aprovado na Assembleia Legislativa, mas ele próprio vetou parcialmente o aumento  que seu governo havia combinado. A decisão ocorreu devido à pressão que dirigentes do Novo fizeram contra a elevação de gastos em um estado sem condições financeiras para isso. 

“Falei que isso era uma desmoralização para todos nós que sentamos na mesa de negociação. E aí, saí do Novo”, lembra Brant. “Eu também era contra o aumento. Agora, a política você tem que medir a temperatura. Você não faz de maneira cartesiana”, diz o ex-vice-governador. 

Esse episódio foi um dos inúmeros embates do governo Zema com a Assembleia, mais intensos no primeiro mandato. Ele começou o governo com o corte de cargos comissionados e secretarias (de 21 para 12), mas teve de recriar duas (Casa Civil e Comunicação Social) no começo do segundo mandato para tentar melhorar a articulação política.

Por conta de dificuldades no trato com deputados, Zema alternou cinco secretários de Governo em seis anos e, embora prometesse privatizar a Cemig (estatal de energia) e a Copasa (estatal de saneamento), duas das suas principais propostas eleitorais, só conseguiu entregar a privatização da segunda. Devido à resistência dos deputados, a venda da Cemig sequer avançou, e Zema deixou essa bandeira para o seu candidato à sucessão, Mateus Simões (PSD).

Levantamento feito pelo JOTA mostra que Zema teve cerca de 78% dos projetos aprovados pela Assembleia Legislativa de Minas Gerais, se considerados só projetos de lei, projetos de lei complementar e propostas de emenda à constituição. Mas os deputados derrubaram cerca de 34% dos vetos de Zema. 

Christopher Laguna, presidente estadual do Novo em Minas Gerais, avalia que a gestão estadual deixou lições de articulação, mas que em uma eventual vitória presidencial faria sentido ter alternância no ministério responsável por essa função.

“Para mim, secretário de governo tinha que ser trocado todos os anos porque tudo na vida é panelinha. Quando o cara fica tanto tempo em local com tanto poder, vai entrando no vício da operação. E aí, a meu ver, para um país andar de verdade esse cara tem que ser trocado, porque a base e o centrão ficam perdidos. E aí tem que remontar. Quem ganha com isso é a população”, avalia Laguna. 

Mesmo com a queda de Flávio Bolsonaro nas pesquisas depois da revelação de seu envolvimento com Vorcaro, esses votos não foram transferidos para Zema. Na última pesquisa Datafolha, feita entre os dias 17 e 19 de junho, o ex-governador do Novo apareceu com 2% das intenções de votos, atrás numericamente de Ronaldo Caiado (PSD) e Renan Santos (Missão), 3% cada. 

Mas o entorno de Zema se aferra à primeira disputa dele para o governo de Minas Gerais, em 2018, quando saiu de 3% das intenções de votos para 43% no primeiro turno e derrotou o então senador e ex-governador Antônio Anastasia (PSDB) com quase 73% dos votos no segundo turno. 

De todo jeito, a expectativa é que a candidatura presidencial de Zema consiga transferir votos para as candidaturas do Novo à Câmara dos Deputados. “Se Zema bater 10% dos votos, temos a chance de fazer 20 deputados federais. Com os atualmente eleitos, já estamos na pauta nacional, imagina a gente com 15?”, diz Laguna. 

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Só que, mesmo no partido, Zema enfrenta resistências de dirigentes do Novo em Santa Catarina e no Paraná, que veem risco de perder coalizões com o PL depois das críticas a Flávio, o que ainda é considerado minoritário para barrar sua candidatura. Pela estratégia de fazer uma bancada grande de deputados federais, os aliados do ex-governador dizem que não faz sentido ele ser candidato a vice de Ronaldo Caiado (PSD). Tanto Zema quanto Caiado já disseram que vão conversar até a oficialização das candidaturas, mas a esperança do grupo mineiro é que Caiado aceite ser vice de Zema. 

Enquanto Caiado aposta na pauta da segurança pública, Zema prioriza a promessa de mudanças no Supremo Tribunal Federal. As diretrizes do plano de governo de Zema foram lançadas em 16 de abril, com propostas como nomear para a suprema corte somente juristas que tenham mais de 60 anos de idade. O plano também fala em limitar o poder do STF, acabando com as decisões monocráticas. O Novo também propõe que seja facilitado o impeachment de ministros de tribunais superiores, pelo qual bastaria o apoio da maioria dos senadores para abrir uma investigação, sem depender da vontade da presidência do Senado. Também consta no plano a anistia para os condenados pelos atos golpistas de 8 de janeiro.

“O principal tema da campanha é a questão moral no Brasil. Não só da presidência mas de todos os poderes. É a principal dor que a gente vê dos brasileiros. Segurança e economia são os outros dois temas importantes do tripé”, diz o ex-deputado federal Tiago Mitraud, coordenador da campanha de Zema e presidente do Instituto Libertas, a fundação do Novo. 

Enquanto tenta se viabilizar, Zema mantém as críticas e os vídeos contra os ministros Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes, do STF. “Enquanto tivermos um Supremo midiático, que está competindo com o Big Brother, vou estar combatendo isso. Quero um Supremo sóbrio, discreto, que julgue em silêncio, que é o papel do Judiciário. Se querem mídia, vamos fazer um BBB do supremo”, diz Zema ao JOTA.

Ao ser indagado como seria sua primeira conversa com Alexandre de Moraes caso seja eleito, Zema responde: “Eu espero que até eu ser eleito ele já tenha saído de lá. Espero que venhamos a ter um Congresso e Senado corajosos, e não um Senado vendido, principalmente o presidente atual [Davi Alcolumbre], que também está com rabo preso, totalmente envolvido. Com esse ministro o que eu teria pra falar com ele é que ele não tem desempenhado o papel dele de forma alguma. Quer enriquecer, vai montar um bom escritório”.

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