De acordo com a Polícia Federal, o líder do governo do PT no Senado, Jaques Wagner, recebeu de Augusto Lima, aliado de Daniel Vorcaro e ex-dono do Banco Pleno, imóveis, viagens, ingressos de shows no exterior e voos em aeronaves. Em troca, diz a PF, Wagner atuou no Congresso em pautas estratégicas para a instituição financeira de Vorcaro. Um dos imóveis, localizado em Salvador (BA), seria avaliado em R$ 2,4 milhões.
As informações constam na decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), que autorizou busca e apreensão nos endereços de Jaques Wagner, Augusto Lima e outros alvos. Mendonça não permitiu a busca no gabinete do Senador, nem em seu escritório. A Procuradoria-Geral da República concordou com os pedidos feitos pela PF, ressalvando a inadequação de operação dentro do Congresso Nacional e de apreensão de bens genéricos de alto valor nesta etapa da investigação.
A Polícia Federal aponta a interlocução de Jaques Wagner com Augusto Lima em pautas como a do crédito consignado, especialmente na Emenda 302 à Medida Provisória 1.106/2022, convertida na Lei 14.431/2022. Segundo as investigações, isso teria ocorrido em contexto temporal próximo ao início das relações contratuais entre o Banco Master e a BN Financeira LTDA., empresa do núcleo familiar do parlamentar.
Outra matéria de interesse do Master no Congresso em que haveria interlocução entre o senador e Augusto Lima foi a Emenda 11 à PEC 65/2023, relativa ao FGC (Fundo Garantidor de Créditos). A PF descreve sequência de contatos de Vorcaro, Lima e outros prepostos do Master com o chefe de gabinete de Jaques Wagner.
Segundo as investigações, no dia 13 de agosto de 2024, data da inclusão da emenda, Augusto Lima fez uma chamada de voz com o senador e logo depois encaminhou o link da emenda. Posteriormente, em 27 de agosto de 2024, após encontro presencial, Lima reencaminhou o link da emenda ao senador.
A PF também sustenta que houve atuação do parlamentar voltada à fiscalização e ao controle da operação de potencial aquisição do Banco Master pelo Banco de Brasília (BRB).
A autoridade policial destaca ainda que Augusto Lima enviou ao parlamentar notícias sobre rating, estrutura acionária, Will Bank, PEC 65/2023, operação BRB/Master, requerimentos no Senado e CPI do Master. “A constância desse fluxo informacional sugere, em juízo preliminar, relação funcionalmente direcionada e não meramente social” , diz um trecho da decisão de Mendonça.
Na avaliação de Mendonça, a narrativa policial “não se ampara em meras conjecturas, mas em conjunto articulado de mensagens extraídas de aparelhos eletrônicos, metadados documentais, vínculos societários, coincidências cadastrais, estruturação empresarial, inteligência financeira e descrição de fluxos patrimoniais em tese incompatíveis com a licitude ordinária”.
O ministro acrescenta que o estado atual da investigação revela “plausibilidade concreta da hipótese de que documentos, dispositivos e registros essenciais à elucidação dos fatos estejam sob a guarda dos alvos indicados”.
Foram cumpridos 18 mandados de busca e apreensão na Bahia, em São Paulo e no Distrito Federal na 9ª fase da Operação Compliance Zero, que investiga as fraudes do Master.
Também foram cumpridas medidas como proibição de contato entre os investigados e suspensão de passaporte.
De acordo com a PF, as investigações apontam os crimes de corrupção passiva, corrupção ativa e lavagem de dinheiro.
Nesta semana, o ministro André Mendonça já havia retirado o sigilo sobre a investigação contra o senador Ciro Nogueira (PP-PI), ex-ministro de Jair Bolsonaro. De acordo com informações da PF nos autos, além de mesadas entre R$ 300 mil e R$ 500 mil, o dono do Master também bancou viagens a Paris, Nova York, Lisboa e Courchevel — famosa estação de esqui.
O JOTA entrou em contato com a assessoria de Jaques Wagner e não recebeu retorno. O espaço segue aberto.
Augusto Lima enviou a seguinte nota:
“As diligências realizadas pela Polícia Federal nesta data eram desnecessárias, uma vez que Augusto Lima está há seis meses à disposição das autoridades para esclarecer os fatos em apuração.
De todo modo, as medidas contribuirão para demonstrar que os fatos apurados nesta fase da investigação são rigorosamente lícitos.
Augusto Lima sempre atuou dentro dos limites da lei, com transparência, responsabilidade técnica e observância das normas que regem o sistema financeiro e a administração pública”.
O presidente nacional do PT, Edinho Silva, enviou nota dizendo que o senador Jaques Wagner é “depositário de toda a nossa confiança”. E complementou: “Apoiamos todas as apurações envolvendo o Banco Master, a sociedade tem o direito de saber a verdade. Os crimes cometidos precisam ser apurados e os responsáveis penalizados. Nesse processo de investigação e apuração, temos confiança que o Jaques Wagner esclarecerá todos os fatos, comprovando a sua inocência”.