Avanços na saúde dependem de equidade e sustentabilidade do sistema

O Brasil já conhece os principais desafios do seu sistema de saúde: desigualdade no acesso, pressão de custos e fragmentação do cuidado. O caminho para um modelo de saúde sustentável e que, ao mesmo tempo, garanta o acesso adequado, passa pela modernização do ambiente regulatório, inovação no manejo de dados e nos modelos de financiamento, além do fortalecimento do papel de protagonista dos pacientes.

Essa foi a conclusão da 6ª edição do Blueprint for Success Brazil Summit, iniciativa da Takeda Brasil, em São Paulo, que propõe o avanço de uma agenda estruturante para a saúde brasileira. O encontro reuniu representantes do governo, gestores de instituições públicas e privadas, profissionais de saúde e representantes da sociedade, nos dias 20 e 21 de março de 2026.

Durante o encontro foram discutidas estratégias para melhorar a experiência do paciente e promover melhores desfechos clínicos, além de reduzir custos e valorizar o bem-estar dos profissionais de saúde e a qualidade do sistema. “Reunimos os principais atores do segmento para incentivar e manter o diálogo aberto e plural, com o objetivo de construir, de forma conjunta, alternativas efetivas. Nesta edição, os especialistas apresentaram caminhos claros e concretos”, avalia Vivian Lee, Diretora Executiva de Medical Affairs da Takeda Brasil.

Acelerar o acesso efetivo com equidade

Nos painéis, os especialistas destacaram que o acesso efetivo com equidade à saúde envolve superar disparidades regionais e implementar mecanismos estruturais para fortalecer a igualdade – tanto no Sistema Único de Saúde (SUS) quanto na saúde suplementar.

Pensando nesse objetivo, uma das possibilidades é a adoção do “Quintuple Aim”, estratégia criada pela organização americana Institute for Healthcare Improvement, que estabelece cinco pilares integrados para tornar sistemas de saúde em todo o mundo mais sustentáveis, eficientes e justos. Isso inclui melhorias na experiência do paciente, o aprimoramento nos desfechos de saúde da população, a redução nos custos, a promoção no bem-estar dos profissionais e a equidade em saúde.

Essa equidade só poderia ser atingida com o combate às desigualdades, apontou o oncologista Sandro Martins, que atua no Hospital Universitário de Brasília. Como exemplo dessa realidade, ele mencionou que entre as 456 regiões de saúde contempladas na organização territorial do SUS, 55 não contam com ao menos uma policlínica, unidade de média complexidade que oferece consultas com médicos especialistas, exames e procedimentos. Além disso, a distribuição da infraestrutura especializada de saúde no país ainda é desigual, com 48% dos estabelecimentos concentrados nas regiões Sul e Sudeste.

Nesse contexto, o médico especialista em saúde coletiva e cardiologia Luiz Henrique Pícolo Furlan acrescentou que a equidade inclui ainda fomentar a inovação em áreas específicas, como as doenças negligenciadas. O desenvolvimento da vacina contra a dengue seria um desses esforços, já que ela passou a proteger a população de uma enfermidade que causa mortes todos os anos no Brasil.

Essa mesma lógica se aplica à organização do cuidado. O investimento em prevenção e rastreamento precoce permite não apenas melhorar desfechos clínicos, mas também reduzir custos ao longo do tempo. Esse é o caso de exames para detecção de câncer. “O custo de uma paciente com câncer de mama é de R$ 2,5 milhões durante dois anos. Porém, a literatura demonstra que o tratamento é menos invasivo e mais barato para as pacientes com acesso ao rastreamento e diagnóstico precoce”, explicou Furlan.

Oncologista Fernando Senra; executivo da saúde Cássio Ide Alves; cirurgião Hélio Calabria; cardiologia Luiz Henrique Pícolo Furlan / Crédito: Leo Orestes

Por fim, a ampliação do acesso também passa pelo fortalecimento da pesquisa clínica no país, tanto pela geração de conhecimento quanto pela possibilidade de antecipar o acesso a novas tecnologias e tratamentos.

Sobre esse ponto, a diretora médica da Takeda, Vivian Lee, destacou que o Brasil tem grande potencial para ampliar sua participação na pesquisa clínica global. Apesar de a revista científica Science apontar o país como uma das nações com maior diversidade genética do mundo, o Brasil concentra apenas cerca de 2% dos estudos clínicos realizados globalmente.

Esse cenário, no entanto, começa a mudar. A aprovação da nova Lei de Pesquisa Clínica (Lei 14.874/2024) trouxe mais previsibilidade e segurança para a condução de estudos, fortalecendo o posicionamento do país como destino prioritário para novos ensaios. “Mais estudos clínicos estão chegando ao país. Essa é uma notícia positiva para os pacientes, que passam a ter acesso mais rápido a novas tecnologias”, afirmou Lee.

Financiamentos e modelos de cuidado orientados a valor

A equidade no sistema de saúde também está atrelada à dinâmica populacional, marcada pelo aumento da longevidade e pelo consequente crescimento de doenças crônicas degenerativas. Esse cenário pressiona o sistema de saúde, que deixa de lidar majoritariamente com episódios agudos e passa a exigir cuidado contínuo, coordenado e de longo prazo.

Para garantir a sustentabilidade e a eficiência da saúde, o setor precisa rever suas bases de financiamento. Durante o 6º Blueprint for Success Brazil Summit, os painelistas destacaram a importância de rediscutir o modelo de custeio do SUS, de modo que os recursos sejam distribuídos de forma mais equilibrada, considerando o grau de fragilidade e as necessidades específicas de cada região.

Um dos mecanismos mais inovadores para reformular o financiamento do SUS é o Risco Compartilhado (risk sharing) na incorporação de tecnologias. Trata-se de um modelo contratual entre governo e a indústria farmacêutica em que os custos de tratamentos são divididos com base na efetividade do produto. A previsão é que, se o resultado clínico esperado no paciente não é atingido, o fabricante assume parte do custo.

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Esse modelo já é adotado em alguns países como Canadá, Itália, Austrália e Inglaterra e, além da previsibilidade que oferece ao orçamento, ele embasa um cuidado orientador por valor. No Brasil, foi usado pela primeira vez em 2019, mas caminha a passos lentos, por enquanto.

Já na saúde suplementar, o debate chamou a atenção para os gargalos do modelo tradicional de remuneração, conhecido como fee-for-service. Esse formato prioriza o volume de procedimentos realizados, o que gera distorções no sistema. Como consequência, o modelo pode levar ao desperdício e a baixa qualidade da assistência.

Nos ajustes necessários ao sistema de saúde, os modelos de cuidado orientados a valor (Cuidado Baseado em Valor ou na sigla em inglês VBHC) foram apontados como uma forma de garantir a sustentabilidade e a eficiência do sistema de saúde. Isso porque esse modelo de gestão e assistência em saúde é focado em melhorar os resultados clínicos que de fato são valorizados pelo paciente, otimizando custos envolvidos.

“Devemos conhecer a população, saber quem são os hipertensos, os diabéticos, os obesos, os coronariopatas. Precisamos de um sistema de saúde proativo”, defendeu o cardiologista e especialista em saúde pública Furlan.

Paciente no centro do sistema

Para centralizar o sistema nas necessidades do paciente, sua jornada e nos desfechos clínicos, Furlan afirmou que o sistema de saúde ainda é tímido ao avaliar a experiência do indivíduo, limitando-se a ferramentas básicas de satisfação, como o Net Promoter Score (NPS). Para que o modelo baseado em valor avance, ele propôs a adoção sistemática de PREMs (sigla em inglês para medidas de experiência relatadas pelo paciente), que são indicadores baseados na experiência relatada pelos próprios pacientes.

Outra forma de ouvir o paciente está nas consultas públicas via Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec). A ferramenta da saúde pública foi apontada como fundamental pela pesquisadora em Avaliação de Tecnologias em Saúde (ATS) e fundadora da ONG Unidos pela Vida, Verônica Stasiak. “Não tem como tomar uma decisão em saúde sem ouvir a experiência do usuário. Não existe ATS sem o envolvimento do paciente”, ressaltou.

Advogado Rogério Scarabel / Crédito: Leo Orestes

Independentemente dos desafios a serem enfrentados, a pesquisadora ressaltou que o fortalecimento do sistema de saúde depende da “autorresponsabilização” de todos os elos da cadeia. “Melhorar a jornada do paciente está em nossas mãos. O que cada um de nós está fazendo de melhor com aquilo que tem, com aquilo que está disponível?”, questionou Stasiak.

Transformação digital e o uso responsável de dados

Tanto a equidade quanto os modelos de cuidado orientados a valor podem caminhar de forma mais rápida com o avanço da inteligência artificial (IA). Isso porque a tecnologia tem a capacidade de organizar dados fragmentados e empoderar cidadãos.

Nesse sentido, o oncologista Martins lembrou como o avanço tecnológico tem reduzido a assimetria de informação entre médicos e pacientes. Hoje, um paciente pode fotografar um laudo complexo, como o de uma tomografia, e utilizar a IA para traduzi-lo em uma linguagem mais acessível, por exemplo. “O paciente mais informado é um fator de mobilização para o aperfeiçoamento do sistema”, acrescentou o médico.

Contudo, o debate tecnológico ainda enfrenta desafios relacionados à posse dos dados do indivíduo e à interoperabilidade – esse último é o processo que permite a diferentes sistemas conversarem entre si.

Na prática, a falta dessa comunicação cria um sistema fragmentado no qual o indivíduo navega sozinho e de forma isolada entre diferentes especialistas, realizando exames repetidos sem que o seu prontuário seja compartilhado, o que gera duplicidade de custos e atrasos no diagnóstico. Essa descoordenação afeta diretamente as operadoras de saúde, que sofrem com uma espécie de “apagão” de dados clínicos.

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Como ilustrou o cirurgião e executivo médico, Hélio Calabria durante o evento, muitas vezes a operadora desconhece a jornada do paciente. Sem dados padronizados trafegando entre prestadores e financiadores, o setor de saúde suplementar continua orientado apenas para a gestão do sinistro ao invés de olhar para a gestão contínua da saúde.

O médico infectologista e cofundador de uma healthtech, Hugo Morales, diz que a raiz técnica desse apagão está na falta de padronização, já que hospitais e clínicas organizam seus prontuários de formas diferentes e utilizam vocabulários informais que não se comunicam. Ele alerta que, antes de tentar aplicar inovações tecnológicas para acompanhar a jornada do paciente, é preciso resolver a desorganização primária das informações já que a qualidade dos resultados gerados pela IA depende inteiramente da qualidade dos dados que a alimentam. “Vamos tomar decisões dentro do sistema de saúde através desses dados que estão ‘sujos’. Devemos parar de olhar um pouco para o algoritmo de uma forma geral, e olhar para a governança [e a estruturação] desses dados”, avaliou Morales

Para superar esse cenário, a saída apontada é que o paciente pode ser o condutor do seu próprio histórico de saúde, com a possibilidade de migrar entre diferentes operadoras e prestadores levando todas as informações clínicas. “Existem soluções tecnológicas que poderiam ser mais usadas para permitir ao paciente ter um repositório que respeita as regras da LGPD [Lei Geral de Proteção de Dados], com dados anonimizados”, explicou Furlan.

Para além do armazenamento seguro de informações, a estruturação de dados somada ao uso de inteligência artificial começa a atuar ativamente na busca e no resgate de pacientes dentro das instituições de saúde. O cirurgião e executivo médico, Hélio Calabria, ilustrou essa transição com um exemplo prático implementado em um hospital parceiro no Rio de Janeiro.

O programa automatizado para o rastreamento de nódulos pulmonares varre todas as imagens de tomografia de tórax realizadas na unidade, independentemente de o exame ter sido feito de forma eletiva ou em um atendimento de emergência. Ao identificar uma alteração suspeita, o sistema informa a equipe da linha de cuidado oncológico, permitindo que uma profissional especializada acolha o paciente de forma proativa e o insira na jornada de tratamento.

Os resultados demonstram o impacto da tecnologia tanto na sobrevida quanto na sustentabilidade do setor: em poucos meses, a solução identificou mais de 100 nódulos suspeitos e confirmou quatro casos positivos de câncer. Em razão da agilidade da captura de dados, os pacientes puderam passar por cirurgias ainda nos estágios iniciais da doença. “O caminho está em usar a inteligência artificial e os algoritmos para melhorar na identificação desses pacientes”, defendeu Calabria.

Para que tendências como a integração de dados, o uso de inteligência artificial e os novos modelos de pagamento não fiquem travados, o setor precisa superar o que o advogado e ex-diretor-presidente da Agência Nacional de Saúde (ANS), Rogério Scarabel, considerou a verdadeira barreira para o avanço: o gargalo legislativo e regulatório.

O debate sobre o futuro da saúde no Brasil aponta para um desafio central: alinhar financiamento, regulação e uso de dados para que o sistema consiga responder de forma sustentável às demandas da população. Sem essa reorganização, a equidade tende a permanecer como objetivo, e não como resultado concreto das políticas e práticas de saúde.

 

[1] BRASIL. Secretaria de Comunicação Social. População do Brasil alcança marca de 213,4 milhões de habitantes, divulga IBGE. Disponível em: https://www.gov.br/secom/pt-br/acompanhe-a-secom/noticias/2025/08/populacao-do-brasil-alcanca-marca-de-213-4-milhoes-de-habitantes-divulga-ibge?utm_source=chatgpt.com.  Acesso em: 23 abr. 2026.

[2] BRASIL. Ministério da Saúde. Viva o SUS! O maior sistema público de saúde do mundo é gratuito, universal e do Brasil. Brasília, 2025. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/2025/setembro/viva-o-sus-o-maior-sistema-publico-de-saude-do-mundo-e-gratuito-universal-e-do-brasil. Acesso em: 13 abr. 2026

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