A nova rodada da pesquisa Genial/Quaest, divulgada nesta quarta-feira (10/6), indica que a melhora do cenário eleitoral para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não se explica apenas ao desgaste enfrentado por Flávio Bolsonaro (PL) após a repercussão negativa de seu envolvimento com Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master. Embora a crise envolvendo o senador tenha contribuído decisivamente para reduzir sua competitividade no curto prazo, os dados sugerem que há fatores mais estruturais favorecendo o presidente.
Entre as iniciativas que parecem contribuir para a melhora da percepção sobre o governo estão o Desenrola Brasil, as medidas para conter os preços dos combustíveis, o fim da chamada “taxa das blusinhas”, o Move Brasil, o Programa Brasil contra o Crime Organizado e a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda. Em comum, todas dialogam com temas de alta sensibilidade para o eleitorado, como renda, custo de vida, segurança pública e acesso ao crédito.
Excluindo a ampliação da isenção do Imposto de Renda, que tem um nível elevado de conhecimento popular, as demais iniciativas são desconhecidas por uma parcela expressiva dos entrevistados: entre 36% e 50%, dependendo do programa, afirma nunca ter ouvido falar das medidas. Em outras palavras, o dado sugere que o governo já começa a colher benefícios eleitorais de algumas iniciativas recentes, mas ainda existe espaço para ganhos adicionais à medida que essas políticas se tornem mais conhecidas pela população.
Para Lula, mesmo ganhos marginais podem ser suficientes para aproximá-lo de uma vitória já no primeiro turno. Na pesquisa Genial/Quaest, o presidente aparece a apenas 1,9 ponto percentual de alcançar a maioria dos votos válidos —critério que desconsidera brancos, nulos e indecisos. O cenário pode ser ainda mais favorável ao presidente, porque a Quaest sub-representa em cerca de quatro pontos percentuais o segmento de eleitores com renda entre dois e quatro salários mínimos, justamente a faixa em que Lula registra sua maior vantagem, com 50% das intenções de voto contra 23% de Flávio Bolsonaro.
Dark Horse
A comparação com a rodada anterior da pesquisa, realizada em maio –antes da divulgação dos áudios de Flávio Bolsonaro a Daniel Vorcaro pedindo dinheiro para o filme “Dark Horse”, mostra perda de tração eleitoral não desprezível. No primeiro turno, Flávio recuou de 33% para 29% das intenções de voto. No segundo turno, caiu de 41% para 38%.
O desgaste foi particularmente intenso em segmentos que costumam definir eleições. Entre os eleitores independentes, o apoio ao senador passou de 31% para 24%. Já entre os eleitores de direita que não se identificam com o bolsonarismo, a taxa caiu de 88% para 82%. Trata-se de uma erosão importante porque ocorreu justamente fora do núcleo mais fiel do eleitorado bolsonarista.
Ao mesmo tempo, é preciso cautela ao interpretar essa fotografia. O eleitor independente é, por definição, mais volátil e mais sensível aos acontecimentos do noticiário do que os grupos fortemente identificados com um dos polos da disputa. Por isso, o cenário capturado hoje dificilmente permanecerá congelado até outubro.
Isso não significa, porém, que haja espaço para o surgimento de uma alternativa competitiva fora da polarização. Os dados da própria pesquisa mostram que Lula e Flávio Bolsonaro concentram juntos 68% das intenções de voto. No segundo turno, esse percentual sobe para 82%. Dos 32 pontos percentuais que estavam distribuídos entre outros candidatos, 9 migram para Flávio, 5 para Lula, enquanto os 18 pontos restantes se convertem em votos brancos, nulos ou eleitores indecisos.
O resultado reforça a leitura de que a corrida presidencial segue estruturada em torno dos campos governista e bolsonarista, com capacidade limitada para o surgimento de uma candidatura competitiva fora desse eixo.
Overreaction
Eleições são processos, não eventos isolados. Ao longo da campanha, diferentes fatores ganham centralidade e criam momentos de prevalência para cada candidatura. E o que a pesquisa parece captar neste momento é uma reação do eleitorado ao desgaste recente de Flávio Bolsonaro. O desafio é saber se estamos diante de uma reação temporária ou se é algo mais estrutural.
Isso é relevante, porque os dados da pesquisa mostram que a perda de tração do senador não está se convertendo em ganhos para Lula. Parte desse eleitorado está migrando para alternativas dentro do próprio campo da direita, beneficiando nomes como Renan Santos (Missão), Romeu Zema (Novo) e Ronaldo Caiado (PSD).
Além disso, o potencial eleitoral de Flávio Bolsonaro está preservado e continua robusto. Nas últimas três rodadas da Genial/Quaest, o senador manteve praticamente estável seu potencial de voto, em torno de 39%. Por isso, seu problema está menos na capacidade de atrair apoiadores e mais na crescente dificuldade de reduzir resistências. Sua rejeição subiu de 52% em abril para 54% em maio e alcançou 56% agora em junho.
O índice supera a rejeição absoluta de Lula, que recuou de 55% para 53% no mesmo período. Sob a ótica eleitoral, isso significa que o peso da rejeição deixa de ser um problema exclusivo do incumbente e se torna num desafio crescente para a campanha do presidenciável do PL. Hoje, esse parece ser um desafio mais urgente para Flávio Bolsonaro do que para Lula.
Essa dinâmica ajuda a explicar por que a melhora de Lula segue fortemente condicionada à avaliação de seu governo. O presidente avança quando cresce a percepção positiva sobre sua gestão e sobre os resultados de políticas públicas adotadas durante seu governo. Já o desgaste do senador não se converte em votos para o adversário, mas tende a alimentar a fragmentação do eleitorado de direita e a fortalecer, ao menos temporariamente, candidaturas concorrentes nesse campo político.