Cortejado por Flávio e repelido por Nikolas, quem é Cleitinho, líder das pesquisas em MG

O futuro da eleição em Minas Gerais, segundo maior colégio eleitoral do país, neste momento se confunde com o de Cleitinho Azevedo (Republicanos). Líder até agora em todas as pesquisas de intenção de voto para o Palácio da Liberdade, o senador de 44 anos de idade permanece, a cinco meses do primeiro turno, indeciso diante de dois cenários que podem alterar os rumos da campanha no estado: levar até o fim sua candidatura ou desistir dela para apoiar a reeleição do governador Mateus Simões (PSD). Essa escolha terá reflexos diretos e importantes na disputa pelo Palácio do Planalto. 

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Entre essa dicotomia clássica de “ser ou não ser candidato”, no entanto, existem as nuances que somente a política mineira pode comportar. Quase todas elas decorrem do fato de Cleitinho cultivar um estilo “outsider” no campo da atual centro-direita brasileira, pois não comunga de todos os dogmas ideológicos dos grupos radicais aglutinados sob o guarda-chuvas do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e seus familiares.

Em outros termos, ele preserva a estética e o discurso de quem está “fora” ou “contra” o sistema, assim como os Bolsonaros, mas não segue o ex-presidente e seus filhos Flávio, Carlos e Eduardo com a fidelidade canina demonstrada por outros expoentes da direita brasileira. Desse modo, já criticou a escala 6×1 e o pagamento de pensões por parte do Estado a parentes de militares.

Embora seja do Republicanos, Cleitinho também não pode ser resumido como um político clássico do Centrão, capaz de trafegar com desenvoltura entre todos os nichos de poder, ora apoiando a direita, ora apoiando a esquerda, dependendo de quem está à frente dos governos. O senador é de oposição ao presidente Lula (PT).

Isolamento e desconfiança

Cleitinho se autodefine como um “independente”. O preço dessa suposta independência, no entanto, é o isolamento político de seu grupo em Minas, restrito, basicamente, ao Republicanos e a alguns poucos apoios de prefeitos e deputados estaduais de outros partidos, incluindo o PL e Novo.

Esse condições ajudou seus adversários a propagarem a ideia de que, uma vez eleito governador, Cleitinho não terá estofo nem preparo para comandar um estado tão complexo como Minas Gerais. O senador tem procurado rebater essas afirmações, mas a desconfiança se alastrou até para o setor privado.

Em busca de romper essas barreiras e garantir estrutura para uma campanha em um estado tão grande e diverso como Minas, Cleitinho, como ele ficou conhecido, deve se encontrar nos próximos dias com seu colega Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato a presidente da República. Se os dois senadores se entenderem e fecharem um acordo, os rumos das eleições no estado mudarão definitivamente.

Cleitinho pode oferecer a Flávio o que ele ainda não tem: um palanque forte em Minas, estado conhecido por influenciar diretamente na vitória ou derrota dos candidatos a presidente. Desde a redemocratização (1985), o presidenciável vencedor no estado sobe a rampa do Planalto meses depois. De seu lado, o filho mais velho de Jair Bolsonaro dará a seu colega senador uma coligação robusta, ancorada na força nacional do PL e em seus recursos.

Força nas pesquisas

Segundo a mais recente pesquisa Genial Quaest para o governo de Minas, Cleitinho Azevedo, lidera em todos os cenários em que aparece, nos dois turnos. Ele tem entre 30% e 37% das intenções de voto no primeiro turno, à frente do ex-prefeito de Belo Horizonte Alexandre Kalil (PDT), que tem entre 14% e 18%, do senador Rodrigo Pacheco (PSB), que tem entre 8% e 12%, e de Simões, entre 3% e 5%. Uma vantagem expressiva.

Esse bom desempenho de Cleitinho e sua ampla capacidade de se comunicar de maneira direta, sem rodeios, com a população, fazem com que adversários, especialmente, Simões, aliado do ex-governador Romeu Zema (Novo), de quem era vice, atuem neste momento no sentido de convencê-lo a desistir da candidatura própria.

No campo oposto, Pacheco, apoiado pelo presidente Lula (PT), trabalha para que o senador leve até o fim seu projeto eleitoral de comandar Minas, mas sem se aliar a Flávio e ao PL. Na avaliação do grupo formado em torno da provável pré-candidatura de Pacheco, Cleitinho já bateu no seu teto eleitoral e sua candidatura terá “fôlego curto” com uma estrutura de campanha restrita basicamente ao Republicanos.

Fator Nikolas

Para Simões, a desistência de Cleitinho tiraria de sua frente um adversário direito na disputa pelo eleitorado decentro e de direita. O atual governador conta com um aliado importante nessa missão de tirar o senador da eleição: o deputado federal Nikolas Ferreira, uma “estrela” do PL que em Minas já deixou claro não estar disposto a se aliar a Cleitinho nem mesmo apoiar um candidato de seu partido, uma das opções colocadas para Flávio.

Nikolas e Simões querem ter o Republicanos na aliança em torno do governador e, nos bastidores, oferecem ao grupo de Cleitinho uma das duas vagas da chapa ao Senado ou mesmo o posto de vice. Porém, há resistências entre os aliados de Cleitinho em compor com a dupla, pois entendem que os compromissos já assumidos ppr ambos com outros partidos deixarão o Republicanos sem espaço. 

Ainda sem palanque em Minas, Flávio costura um acordo para Cleitinho apoiar o deputado federal Domingos Sávio (PL) na disputa pelo Senado e indicar o vice da chapa. Esses termos consolidariam a aliança Republicanos-PL com os dois colegas senadores como candidatos a presidente e governador, respectivamente. Na tentativa de frear essa aproximação, Simões sinaliza também abrir seu palanque, já prometido a Zema, também a Flávio e a Ronaldo Caiado, o presidenciável de seu partido, o PSD.

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Nos bastidores da política mineira, a resistência de Nikolas à aliança entre Flávio e Cleitinho é interpretada como uma tentativa de dificultar o projeto da família Bolsonaro de voltar à Presidência da República. O deputado, um dos mais votados do país e líder emergente da direita, está em rota de colisão com os filhos do ex-presidente Bolsonaro e teria um projeto próprio de apoiar Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) ao Planalto em 2030 que seria facilitado com a derrota de Flávio.  

Se a negociação com Cleitinho não der certo, Flávio deverá lançar para o governo Flávio Roscoe (PL), ex-presidente da Federação das Indústrias de Minas Gerais. Ciente desse movimento, o grupo de Simões e Nikolas passaram a acenar com a possibilidade de Roscoe ser vice do atual governador. O objeto é um só: manter Cleitinho isolado politicamente.

Cantor e compositor

Segundo seus interlocutores e adversários em Minas e no Senado, Cleitinho não é um político afeito a ideologias. Não por outro motivo, ele se define como “independente” e vive entre a proximidade e o afastamento em relação à família Bolsonaro. Sua trajetória o define mais como um populista tradicional de direita que aprendeu a fazer bom uso do mundo digital, mas especificamente, das redes.

Natural de Divinópolis (MG), Cleiton Gontijo de Azevedo foi vereador de sua cidade natal e deputado estadual antes de ser eleito senador em 2022 (mandato de oito anos). A carreira meteórica na política, iniciada em 2016, foi construída por uma narrativa, reverberada nas redes sociais, de combate a privilégios e fiscalização do dinheiro público. Cleitinho já trabalhou como músico profissional e cantor. É católico, casado e pai de dois filhos. 

Já lançou um álbum na plataforma Spotify intitulado “As Melhores do Cleitinho”. Uma das faixas é “Opala do Cleitinho”. De vez em quando, mesmo ocupando o cargo de senador, ainda se apresenta em shows e festas.

 

 

 

 

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