A crise no Oriente Médio, desencadeada por uma ofensiva conjunta de Israel e Estados Unidos contra o Irã, evoluiu rapidamente para um cenário de forte escalada e volatilidades. Entre os desdobramentos mais relevantes estão o bloqueio quase total do Estreito de Hormuz, os danos a instalações energéticas estratégicas ao longo do Golfo Pérsico, a possibilidade crescente de que outros países da região entrem diretamente no conflito e os movimentos erráticos entre negociação e ameaça de uma invasão militar por terra.
A disparada dos preços do petróleo, que alcançaram picos próximos a US$ 120 por barril, é o efeito imediato dessa crise. O impacto sentido no mercado internacional de petróleo transborda para uma miríade de atividades econômicas dependentes do petróleo e seus produtos derivados, coloca em xeque mecanismos como os estoques estratégicos para mitigar choques exógenos e conduz ao questionamento crucial acerca das vulnerabilidades do paradigma energético baseado em fósseis.
A gravidade da crise energética é analisada pela Agência Internacional de Energia como a mais significativa disrupção no fornecimento já registrada no mercado global de petróleo, considerando as incertezas sobre a duração e profundidade dos episódios em andamento. A agência, criada pelos países ocidentais em 1974 como resposta à crise do petróleo de 1973, informou que a oferta global de petróleo pode cair, em média, cerca de oito milhões de barris por dia somente no mês de março. O desconhecido término da crise já impacta também as estimativas sobre a oferta média esperada para 2026, cuja evolução foi revisada para baixo em cerca de 55%.
Sem petróleo, não há refino. Cerca de quatro milhões de barris por dia em capacidade de refino foram paralisados pela guerra. Ou seja, o efeito cascata do bloqueio físico ao escoamento do petróleo via Estreito de Ormuz, além dos ataques diretos a refinarias no Golfo Pérsico, resulta em interrupção de parte da produção global de derivados.
Como resultado, as margens do refino aumentam e tornam mais lucrativa a produção de derivados, levando refinarias a pagar mais pelo petróleo bruto e a direcionar sua produção para mercados onde os preços estão mais altos. Esse movimento intensifica a arbitragem, com fluxos globais sendo redirecionados para regiões com maior retorno, especialmente onde há escassez de produtos como diesel ou gasolina. Com isso, tanto o preço do petróleo quanto dos derivados tende a subir nessas regiões, fazendo com que, no fim da cadeia, os compradores paguem mais.
A forte elevação dos preços do petróleo, que saíram de um patamar abaixo dos US$ 70 para ultrapassar US$ 100 em poucas semanas, é resultante da paralisação parcial ou total de infraestruturas críticas de produção e logística em diversos países no Golfo Pérsico; por razão de ataques diretos e de bloqueio à navegação no Estreito de Ormuz pelo Irã, que objetiva desgastar seus oponentes mediante os custos da guerra. Além disso, o cancelamento ou reprecificação impeditiva dos seguros marítimos e a própria saturação na capacidade de armazenamento de produtos, uma vez que estão impedidos de serem escoados.
O quadro ainda é agravado pela limitada disponibilidade de rotas logísticas alternativas à região do Golfo, como o oleoduto Leste-Oeste, na Arábia Saudita, com capacidade de até sete milhões de barris por dia e acesso ao Mar Vermelho; o oleoduto Habshan-Fujairah, nos Emirados Árabes Unidos, com capacidade de até 1,8 milhão de barris por dia e saída pelo Golfo de Omã; e o oleoduto Kirkuk-Ceyhan, que conecta o norte do Iraque ao porto turco de Ceyhan. Soma-se a essas alternativas o terminal de Jask, no Irã, com capacidade de aproximadamente um milhão de barris por dia via Mar de Omã.
Assim, a dinâmica econômica que se estabelece após o fechamento do Estreito de Ormuz, a redução das exportações de combustíveis a partir do Golfo Pérsico e o impacto sobre os preços de energia evidencia o caráter altamente internacionalizado da cadeia petrolífera.
Embora essa integração contribua para ganhos de eficiência e redução de custos em condições normais “de temperatura e pressão” no mercado, ela também amplifica, em contextos de choques exógenos, a desigualdade entre países e entre diferentes camadas sociais, ao expor de forma assimétrica aqueles que possuem menor capacidade de absorver o aumento dos preços.
Por parte dos investidores, o problema do preço alto se acentua com a volatilidade, pois mais do que o nível de preços, a instabilidade pressiona as empresas porque gera incerteza do ponto de vista dos negócios e dificulta o planejamento. A alternativa torna-se buscar soluções energéticas mais previsíveis.
Diante da sequência de episódios pós-pandemia que indicam o aumento do risco geopolítico, acelerar o passo para a transição energética depende não apenas de ações puramente econômicas, mas igualmente da obtenção de vantagens favoráveis à transição a partir das relações de caráter geopolítico entre os países.
Na teoria das relações internacionais, há um caminho do meio entre um sistema internacional em estado de guerra constante, identificado pelos realistas, e uma comunidade harmoniosa desejada pelos liberais. A ideia de sociedade anárquica, flerta com uma relação de Estados soberanos baseada em regras e instituições, pelas quais os padrões de amizade e cooperação não seriam baseados em afetos, mas interesses compartilhados.
Nas palavras de Delfim Netto: o mundo é um arquipélago de países que se invejam e se odeiam. Por outro lado, os padrões de inimizade surgiriam da ambição estatal em dar prioridade a seus interesses nacionais em detrimento das normas internacionais e, entre outros motivos, da sensação de injustiça e exclusão por parte de determinados países na estrutura de poder estabelecida e da qual resgatam pouca ou nenhuma vantagem.
A tensão entre Estados Unidos e Irã é resultado de décadas de rivalidade, mas ganhou novo impulso após os ataques do Hamas contra Israel, em outubro de 2023, e a subsequente ofensiva israelense contra grupos apoiados por Teerã, como o próprio Hamas e o Hezbollah. Esse contexto abriu espaço para o engajamento direto dos EUA contra o Irã, culminando em uma escalada mais intensa, marcada pela estratégia “Fúria Épica” que resultou na morte do líder supremo Ali Khamenei, que eleva os custos de desescalada para ambos os lados – seja pelo risco político doméstico nos EUA, seja pela ameaça à própria sobrevivência do regime iraniano.
Segundo o Índice de Risco Geopolítico, além deste episódio em andamento, a sequência pós-pandemia iniciada com a invasão da Ucrânia pela Rússia, em fevereiro de 2022, os ataques terroristas do Hamas contra Israel, em outubro de 2023, e os primeiros ataques conjuntos de Israel e dos EUA contra o Irã, em junho de 2025, elevaram o risco geopolítico a um patamar não observado desde a invasão do Iraque, em 2003, e o atentado ao World Trade Center em 2001.
Navegar nesse tortuoso contexto geopolítico, no qual as instituições internacionais parecem atadas e o multilateralismo perdeu seu vigor diante de ações unilaterais e de ingerências externas, repactuar interesses compartilhados parece uma miragem.
No entanto, nesse cenário geopolítico, a transição energética deixa de ser apenas um instrumento de ação climática voltado à segurança planetária e passa a se afirmar também como um vetor central da segurança energética. A interpretação de que, diante das tensões atuais, a transição teria perdido espaço político e econômico para a garantia do abastecimento – frequentemente tratada de forma equivocada como sinônimo exclusivo de combustíveis fósseis – sustenta, na verdade, a manutenção de subsídios e regimes tributários favorecidos a essas fontes.
O cenário atual pode reorganizar as cadeias produtivas para longe dos combustíveis fósseis, da mesma forma que os choques do petróleo nos anos 1970 mobilizaram a indústria de biocombustíveis, ao estimular a busca por soluções energéticas mais previsíveis e regionalizadas.
Fontes renováveis, integração eletroenergética, eletrificação, soluções de armazenamento, geração descentralizada, digitalização, eficiência energética, corredores marítimos verdes, biocombustíveis (tradicionais e avançados), biogás e biometano, hidrogênio verde e eletrocombustíveis já materializam os vetores de um sistema energético descarbonizado.
Nesse contexto, repactuar o interesse coletivo de reduzir a dependência de combustíveis fósseis não é apenas uma agenda ambiental, mas uma oportunidade econômica real associada ao surgimento de novas indústrias, à diversificação das fontes de suprimento e à mitigação do uso da energia como instrumento de poder geopolítico.