O Banco Central fixou em 31 de março de 2026 o prazo para que o BRB apresente o balanço de 2025 acompanhado de uma solução concreta para o rombo aberto pela operação com o Banco Master. O prazo venceu. O balanço não será publicado. Esta tarde, os executivos do banco têm reunião no Banco Central às 17h em que vão pedir à autoridade monetária prazo de pelo menos mais um mês para negociar uma última alternativa de salvamento. O banco está há mais de nove meses sem publicar demonstrativos financeiros, tendo deixado de entregar inclusive o balanço do terceiro trimestre de 2025.
A crise tem uma origem precisa. O BRB adquiriu R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito do Master, instituição posteriormente liquidada pelo Banco Central por envolvimento em fraudes. A reavaliação desses ativos revelou perdas que exigem um aporte mínimo de R$ 6,6 bilhões para que o banco volte a operar dentro dos parâmetros regulatórios. A S&P rebaixou o rating do BRB para brB- em março de 2026, segundo corte em menos de dois meses, mantendo a instituição em CreditWatch negativo. O custo de captação subiu porque o mercado passou a exigir prêmio para absorver o risco de uma instituição que não divulga seus números.
A primeira tentativa de solução foi o Fundo de Investimento Imobiliário lastreado em nove imóveis do Governo do Distrito Federal, autorizado pela Lei Distrital 7.845/2026. A operação naufragou em ritmo acelerado: uma liminar da 2ª Vara da Fazenda Pública do Distrito Federal suspendeu a lei em 16 de março, e embora o desembargador Roberval Belinati, no exercício da presidência do TJDFT, tenha cassado a liminar no dia seguinte, a insegurança jurídica já havia inviabilizado o calendário. Nenhum investidor institucional entra numa operação de capitalização bancária quando a lei que a autoriza pode ser suspensa novamente na semana seguinte. O FII que injetaria R$ 6,6 bilhões no patrimônio do BRB não saiu do papel.
A segunda tentativa foi contábil: reconhecimento do crédito fiscal diferido sobre o prejuízo e conversão de dívida subordinada em capital. Ambos são tecnicamente lícitos. Nenhum dos dois coloca liquidez no caixa, que é o que o banco precisa de forma urgente quando o depositante chega à agência e pede seu dinheiro. O balanço é o documento que se apresenta numa reunião com o regulador. A liquidez responde a uma lógica diferente e mais implacável. Os remédios contábeis são apenas mais um dado de um problema muito maior.
O plano que os executivos do BRB pretendem apresentar ao Banco Central hoje envolve R$ 4 bilhões do Fundo Garantidor de Crédito mais R$ 3 bilhões obtidos com a venda de terrenos do governo distrital que não estejam ligados a empresas públicas ou com complicações burocráticas. Esses terrenos seriam assumidos por um fundo formado por investidores privados.
Falta, porém, combinar com o próprio FGC. Fontes da cúpula do fundo afirmam que não há a menor chance de ele emprestar dinheiro sozinho ao Banco de Brasília. O FGC só entraria em algum esforço de salvamento em consórcio com a participação de todos os grandes bancos. Até agora, não há nada de concreto sobre isso no mercado.
O que poucos observadores notaram é que o peso regulatório do FGC mudou em janeiro de 2026. Em resposta direta às crises do Master e do Will Bank, o Conselho Monetário Nacional aprovou alterações no estatuto e no regulamento do fundo que ampliaram substancialmente seus instrumentos de atuação. Até então, o FGC só podia agir depois que a liquidação havia sido decretada pelo BC.
Com as novas regras, passou a poder atuar preventivamente em situações de dificuldade financeira relevante reconhecidas pelo regulador, com mecanismos que incluem operações de mudança de controle e transferência de ativos e passivos para outras instituições. Não é mais uma solução especulativa com questionamentos sobre desvio de finalidade: é instrumento expressamente previsto no regulamento para exatamente esse tipo de situação.
O contexto político mudou de forma abrupta na véspera do prazo. Ibaneis Rocha (MDB) renunciou ao governo nesta segunda-feira (30) para disputar o Senado em outubro. Celina Leão (PP), que o substituiu, vai procurar o presidente Lula (PT) e pedir que bancos estatais como Caixa e Banco do Brasil participem do socorro ao BRB.
O movimento encontra um obstáculo de primeira grandeza: Lula deu ordem unida aos integrantes de seu governo para se manterem longe do imbróglio do BRB, e só mesmo ele para inverter a orientação. No Governo do Distrito Federal, a esperança é de que a saída de Ibaneis abra um período de mais boa vontade do governo federal e do Banco Central com o banco. Esperança, como se sabe, não é plano.
Ibaneis deixa para a sucessora um nó cuidadosamente construído. Na sexta-feira passada (27), em entrevista pública, afirmou que não tinha como avaliar a compra do Banco Master porque “não sabe nem passar um Pix”. A declaração é reveladora não apenas da impropriedade intelectual do argumento, mas do que o mercado já precifica: Ibaneis é tido como alvo provável de uma futura delação de Daniel Vorcaro. Além disso, era o avalista de Paulo Henrique Costa, o presidente do BRB à época da operação com o Master. Um controlador que alega ignorância técnica absoluta enquanto responde pessoalmente por quem assinou o negócio é, no mínimo, um elemento complicador desnecessário neste momento.
Celina Leão ao assumir o cargo fez questão de declarar que não participou de nenhuma decisão e nem sequer foi consultada sobre a compra do Master pelo BRB. Seu primeiro desafio no cargo será desfazer o nó que o antecessor deixou. O único problema é que talvez seja tarde demais. O Banco Central, na avaliação interna da autarquia transmitida pelo presidente Galípolo, entende que a solução passa mais pelo Governo do Distrito Federal do que pela gestão atual do banco, e que a extensão do prazo agravaria a situação porque a demora do controlador em cumprir compromissos de capitalização corrói a credibilidade da instituição a cada dia que passa.
Do ponto de vista regulatório, o BRB está preso numa armadilha de dupla face. Se entregar o balanço atrasado com o prejuízo sem a solução de capitalização, expõe a extensão do dano e abre caminho para sanções. Se não entregar nada no curto prazo, a inadimplência regulatória produz o mesmo resultado pelo caminho inverso.
A sequência que o BC costuma adotar nessas situações é clara e segue uma gradação prevista na própria Resolução CMN 4.019/2011: primeiro o endurecimento progressivo das restrições operacionais, cumulativas e sucessivas, que vão desde vedações específicas como a que já impede o BRB de comprar carteiras de terceiros até restrições sobre distribuição de resultados e contratação de novas operações. Só depois vem o Regime de Administração Especial Temporária, o RAET, criado pelo Decreto-Lei 2.321/87.
Diferente da intervenção clássica da Lei 6.024/74, o RAET não interrompe serviços nem gera o estigma de colapso imediato, mas permite que o banco continue operando normalmente para clientes e depositantes enquanto o BC assume o controle da gestão e conduz o saneamento. Foi desenhado precisamente para situações em que o problema é de capital, não de liquidez imediata, que é exatamente o diagnóstico do BRB.
O histórico brasileiro mostra que RAET em banco público tende a desembocar em transferência de controle ou federalização, não em liquidação. A liquidação extrajudicial, embora legalmente possível, é o cenário mais improvável: não por razão jurídica, mas porque um banco com R$ 80 bilhões em ativos, R$ 30 bilhões em depósitos judiciais e função central no sistema financeiro do Distrito Federal não é liquidado sem consequências que nenhum ator político quer assumir.
O BRB custodia recursos de tribunais, fundos de pensão e serve à folha salarial de servidores da unidade administrativa com maior renda per capita do país. Não tem porte para provocar crise sistêmica. Tem porte mais que suficiente para provocar crise política e social de dimensão considerável no Distrito Federal.
A reunião das 17h de hoje no Banco Central não vai resolver o problema. Vai, no melhor cenário, comprar mais um mês para que a pergunta que ninguém respondeu até agora seja finalmente enfrentada: quem coloca dinheiro real na instituição, em que prazo e com qual arcabouço jurídico suficientemente estável para que os envolvidos não recuem no dia seguinte por conta de uma liminar?
O FGC não vai sozinho. O governo federal se afastou do problema. Os terrenos do GDF ainda precisam ser vendidos. Os bancos privados ainda não formaram o consórcio. E o prazo, desta vez, já venceu. Fica a pergunta então: quem vai salvar o BRB?