Fabricante da Fila vai à Justiça contra Textor por falta de repasses ao Botafogo

O Grupo Dass, fabricante brasileiro das marcas Osklen e Fila, pediu à Justiça a produção antecipada de provas a fim de constatar se a SAF do Botafogo tem repassado ao clube os valores previstos em lei para pagamento dos credores. A ação, que tramita na 11ª Vara Cível do Foro Central Cível da Comarca de São Paulo, cita o americano John Textor, administrador da SAF, e o presidente do clube, João Paulo Nabuco de Magalhães Lins, que podem ser individualmente responsabilizados pelo pagamento da dívida, caso fique comprovado que os repasses ocorreram de forma irregular.

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O ex-ceo do Botafogo, Thairo Arruda, também é alvo da ação, assim como as pessoas jurídicas do clube e da SAF. A citação a Arruda, porém, ainda não foi efetivada devido à dificuldade para localizá-lo judicialmente. Dessa forma, apesar ter sido apresentada em agosto de 2025, a ação segue parada — os prazos processuais só começam a correr quando todos os alvos forem intimados.

Caso a ação siga normalmente, adiciona um elemento de complexidade ao imbróglio que envolve o controle da SAF e as disputas com o time associativo. A investidora Ares Capital, sócia de Textor na Eagle Football (empresa que gere a SAF do Botafogo), enviou em janeiro de 2026 uma carta destituindo o americano do cargo de diretor da empresa.

Ao ficar sabendo da tentativa de afastamento de Textor, o Botafogo comunicou que se deparou com informações de que valores decorrentes de premiações da Libertadores, do Campeonato Brasileiro e da venda de atletas haviam sido utilizados para “compor os US$ 128 milhões que saíram do Botafogo para salvar o rebaixamento do Lyon” (clube francês também gerido pela Eagle Football), o que teria levado a SAF a ficar desmuniciada.

Dívida com Dass

O Botafogo tem uma dívida de cerca de R$ 40 milhões com o Grupo Dass, conforme advogados. Os valores dizem respeito a uma condenação judicial após o clube rescindir unilateralmente um contrato para a exibição da marca Kappa, posteriormente substituída pela Fila, no uniforme dos jogadores.

Em 2021, o clube buscou uma negociação com o Dass e outros credores por meio do dispositivo chamado Regime Centralizado de Execuções (RCE), introduzido pela Lei da SAF (Lei 14193/2021). O art. 10º da lei diz que a SAF deve transferir ao clube 20% das receitas correntes mensais e 50% dos dividendos, a fim de que o clube possa quitar obrigações anteriores à constituição da sociedade anônima.

Após o RCE, em 2024, o Botafogo pediu ainda uma Recuperação Extrajudicial, voltada aos credores cíveis, com passivo de quase R$ 405 milhões. No total, a dívida do clube é de cerca de R$ 1 bilhão, incluindo débitos trabalhistas.

O Grupo Dass alega que, desde o início do RCE, o Botafogo não pagou nada aos seus credores, descumprindo as determinações da Lei da SAF. “Não se tem notícia de que a SAF teria cumprido com sua obrigação de transferência dos recursos. Ao contrário: como o Botafogo não repassou valores aos credores, há fundados indícios de que a SAF não teria feito os pagamentos que lhe incumbiam”, afirma.

O fabricante das marcas esportivas questiona que o Botafogo venha fazendo “vultosos investimentos na contratação de jogadores de alto nível” por meio de recursos que, na sua visão, deveriam ter sido repassados ao clube e destinados aos credores.

A SAF, por outro lado, afirma que está adimplente com a dívida do time associativo. Questionada pela reportagem, a diretoria jurídica do clube não confirmou se está recebendo ou não esses repasses.

Estratégia jurídica

A estratégia do Grupo Dass para chegar aos responsáveis legais pelo Botafogo tem como fundamento o art. 11 da Lei da SAF. O dispositivo determina que “os administradores da Sociedade Anônima do Futebol respondem pessoal e solidariamente pelas obrigações relativas aos repasses financeiros definidos no art. 10”.

Do mesmo modo, o presidente do clube e os sócios administradores da pessoa jurídica original respondem pelo pagamento aos credores dos valores que forem transferidos pela Sociedade Anônima do Futebol, conforme a norma.

Além da Recuperação Extrajudicial, o Botafogo mantém ativo o RCE para negociação dos débitos trabalhistas. Em nota, a SAF disse que “possui dois planos para pagamento de dívidas oriundas do clube associativo: a Recuperação Extrajudicial (Cível) e o Regime Centralizado de Execuções (Trabalhista). O Grupo Dass integra a listagem de credores da REJ, reconhecida pelo Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, compromisso em que a SAF está rigorosamente em dia com suas obrigações”, afirmou.

Já o clube informou que “acompanha o processo mencionado e esclarece que a matéria está inserida no contexto da reorganização institucional decorrente da constituição da SAF Botafogo”.

“Nos termos dos instrumentos societários e do acordo de acionistas celebrados à época da operação, a condução e gestão de demandas dessa natureza foram atribuídas à SAF Botafogo, no âmbito de sua administração, atualmente representada por seu Presidente, John Charles Textor. O Clube confia que a SAF Botafogo conduzirá a análise e o tratamento desta e de outras demandas relacionadas à atividade do futebol profissional com a diligência e a responsabilidade que o tema requer”, disse ao JOTA.

O processo movido pelo Grupo Dass tem como representantes os escritórios Fonseca Vannucci Abreu (FVA Advogados) e Ariboni, Fabbri & Schmidt.

A ação tramita sob o número 1106826-53.2025.8.26.0100.

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