Desafios socioambientais e regulatórios de custos energéticos de data centers para IA

Satya Nadella, CEO da Microsoft, afirmou que o “problema secular” para o avanço da inteligência artificial não seria a escassez de chips ou de capacidade computacional, mas sim a falta de infraestrutura elétrica para ligá-los.[1] Na mesma linha, durante o AI Impact Summit na Índia, Sam Altman comparou o consumo energético para treinar modelos de IA com o gasto de energia envolvido na formação de um ser humano até a vida adulta, como se fossem, de alguma forma, equivalentes.[2]

Não é a primeira vez que Altman demonstra insatisfação com perguntas sobre os custos energéticos que sustentam o atual modelo de expansão da IA. Esses questionamentos são cada vez mais frequentes na agenda regulatória tecnológica, em um contexto de rápida expansão de data centers de hiperescala em diversos países.

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Data centers voltados à IA não consomem energia como os tradicionais dedicados à hospedagem em nuvem e outros serviços online. Eles exigem mais eletricidade para a etapa de treinamento e para os complexos sistemas de resfriamento, pois o calor gerado por esse tipo de processamento é significativamente superior ao de outras aplicações digitais.[3] Isso ocorre porque dependem de milhares de chips de alto desempenho operando simultaneamente sem tolerância a interrupções.

Não se trata de um simples aumento de demanda, mas de uma mudança de paradigma energético. Durante anos, o consumo de energia de data centers se manteve estável, mesmo com a expansão de serviços online e computação em nuvem. Porém, a inteligência artificial rompe com essa lógica.[4]

Hoje, a questão se impõe no Brasil e no resto do mundo: quem paga a conta de luz da infraestrutura que viabiliza a corrida pela inteligência artificial?

Nos EUA, data centers para IA já têm pressionado redes elétricas locais, exigindo investimentos públicos em infraestrutura que são convertidos em tarifas repassadas à comunidade local. Em estados como Virgínia, Arizona e Texas,  multiplicam-se relatos dos aumentos de contas de luz em regiões ao redor dos data centers, enquanto empresas negociam tarifas diferenciadas com concessionárias, aprofundando a percepção de desigualdade na distribuição dos custos energéticos.[5]

O tema escalou ao mais alto nível político, com o presidente Donald Trump reunindo executivos da Amazon, Google, Microsoft, Oracle, xAI e OpenAI na Casa Branca para discutir medidas que evitem esses repasses à população.[6] Além disso,  empresas estadunidenses firmam acordos com governos estaduais confidencialmente, operando de forma pouco transparente e resistindo à divulgação de dados mínimos sobre consumo de energia sob o guarda-chuva do “segredo comercial”.[7]

Já no Reino Unido, o fenômeno se agrava ao ponto de estimativas indicarem que os atuais projetos em planejamento de data centers demandam volumes de energia superiores ao pico de consumo nacional, pressionando a capacidade do sistema elétrico. Reguladores já têm discutido mecanismos de restrição e condicionamento de acesso à rede elétrica, diante do risco da expansão da IA comprometer as metas climáticas e aumentar o custo da eletricidade no país.[8]

No contexto brasileiro, há uma narrativa promovida pelo governo e setor privado: o Brasil tem energia renovável “de sobra”. Esse argumento se apoia nos recorrentes cortes e interrupções na geração de usinas renováveis pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) para evitar sobrecarga de transmissão, quando a oferta supera a demanda, fenômeno conhecido como “curtailment”.[9] Diante desse cenário, empresas alegam prejuízos e passam a apresentar os data centers de IA como uma suposta solução para absorver esse excedente.

No entanto, essa ideia de “sobra” ignora de forma deliberada os problemas estruturais do sistema elétrico brasileiro. Mesmo com uma matriz elétrica majoritariamente renovável, o Brasil impõe ao seu cidadão uma das tarifas de eletricidade mais altas do mundo.[10] Isso ocorre porque a conta de luz é sobrecarregada por encargos setoriais e subsídios que beneficiam grandes atores industriais, enquanto o cidadão comum arca com os custos da expansão e manutenção da rede.[11]

Além disso, os data centers exigem fornecimento energético contínuo 24 horas por dia, o que entra em tensão com a intermitência intrínseca das fontes eólica e solar. Para evitar interrupções quando o vento cessa ou o sol se põe, o sistema será forçado a manter termelétricas fósseis ou baterias a diesel, uma solução mais cara e poluente. Esse fenômeno não é novo e reproduz uma lógica observada em outras indústrias eletrointensivas no Brasil: o aumento da demanda não sendo suprido somente por renováveis e servindo para justificar a ampliação no despacho de usinas a gás e carvão.[12]

Se o argumento de “sobra” de energia renovável para a atração de data centers fosse tecnicamente consistente, o setor não estaria registrando aumentos superiores a 40% nas emissões de gases de efeito estufa vinculadas ao consumo de eletricidade, como demonstra o relatório do Laboratório de Políticas Públicas e Internet (LAPIN).[13]

Na realidade, empresas do setor nacional como Scala, Ascenty e Elea afirmam, em relatórios de sustentabilidade, operarem com “100% de energia renovável”, mas com um asterisco relevante: a compra de certificados de energia renovável (I-RECs). Esses instrumentos tão somente comprovam que certa quantidade de energia renovável foi gerada em algum ponto do sistema elétrico. Ao adquiri-los, a empresa pode declarar seu consumo como renovável, ainda que a eletricidade efetivamente utilizada venha de fontes poluentes.

Esse descompasso reflete uma grande questão do setor elétrico brasileiro: a limitação das linhas de transmissão. A energia renovável pode até ser gerada em excesso em determinadas regiões, mas não estará disponível onde a demanda se concentra. A maior parte das usinas renováveis está localizada no Nordeste, enquanto os pedidos de conexão à rede elétrica de novos data centers se concentram no Sul e Sudeste, principalmente em São Paulo.[14] Pouquíssimos megaprojetos permitem o acoplamento direto entre geração e consumo, o que revela uma restrição física que não será resolvida com data centers altamente intensivos em eletricidade.

Ainda, é preciso considerar o impacto territorial dessa “abundância” de energia renovável. A expansão acelerada de parques eólicos e solares tem gerado conflitos agudos no semiárido e no litoral nordestino. A energia renovável que alimentaria a IA deixa um rastro de poeira, ruído e restrições do uso da terra em comunidades locais muitas vezes, tradicionais e indígenas, em um modelo de extrativismo verde no qual territórios são sacrificados para sustentar cadeias digitais para o Norte Global.

Apesar desse gargalo evidente, políticas públicas de incentivos fiscais ao setor de data centers têm atraído megaprojetos como o data center do Tiktok, em Caucaia (CE), com previsão de consumir até 1 GW de energia.[15] O complexo “Scala AI City” em Eldorado do Sul (RS) deve alcançar 5 GW na operação final, volume de energia superior ao consumo de todo o Estado do Rio de Janeiro.[16] Ambos com objetivos de alocar serviços para o exterior e treinar modelos de inteligência artificial estrangeiros.

Mesmo diante desse panorama, atores políticos brasileiros não têm tratado do tema com a devida seriedade e preocupação. O texto atual do Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center (Redata – PL 278/2026)[17] e do projeto de lei para regulamentar data centers de IA (PL 3018/2024)[18] sequer exigem índices de eficiência e transparência sobre o consumo de energia para as empresas beneficiadas pelo Redata, muito menos asseguram salvaguardas para impedir que os custos energéticos recaiam nos consumidores.

Nesse cenário, a narrativa de que o Brasil possui energia renovável “sobrando” opera mais como um instrumento de legitimação da expansão de modelos de negócios altamente demandantes de energia e operacionalizados por empresas estrangeiras, do que um diagnóstico realista do sistema elétrico.

A suposta abundância encobre limitações físicas estruturais, distorções regulatórias e soluções contábeis que mascaram a pressão crescente sobre a infraestrutura de energia. Políticas públicas de infraestrutura digital não deveriam comprometer a soberania energética brasileira para inserir o Brasil de forma subordinada nas cadeias globais de IA.

A expansão de data centers de IA não resolve o problema do setor energético brasileiro, mas sim tende a aprofundar assimetrias, ao inserir uma demanda intensiva em um sistema já tensionado. Os impactos diretos seriam em comunidades locais, afetando desproporcionalmente quem já enfrenta desigualdades históricas no acesso a serviços públicos básicos.

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O grande risco é a consolidação de um modelo de extrativismo e colonialismo digital, no qual os custos energéticos, territoriais e socioambientais são internalizados localmente, enquanto os ganhos permanecem concentrados em Big Techs e fundos financeiros internacionais.

No fim, a pergunta permanece: quem assume essa conta de luz dos data centers para inteligência artificial? No desenho regulatório atual, o Brasil paga, enquanto outros lucram.

[1] Disponível em: https://www.youtube.com/watch?si=2lX0ENVIg52HNegU&v=Gnl833wXRz0&feature=youtu.be

[2] Disponível em: https://www.theguardian.com/technology/2026/feb/23/sam-altman-openai-energy-use-datacenters

[3] Disponível em: https://www.technologyreview.com/2025/05/20/1116327/ai-energy-usage-climate-footprint-big-tech/

[4] Ibidem.

[5] Disponível em: https://www.cnbc.com/2026/03/13/ai-data-centers-electricity-prices-backlash-ratepayer-protection.html

[6] Disponível em: https://www.techpolicy.press/the-public-is-getting-fed-up-with-data-centers-politicians-need-to-take-notice/

[7] Disponível em:  https://www.techpolicy.press/trump-and-big-techs-pr-campaign-for-data-centers-is-too-little-too-late/

[8] Disponível em: https://www.theguardian.com/technology/2026/feb/23/new-datacentres-risk-doubling-uk-electricity-use-ofgem-peak-demand

[9] Disponível em: https://jornal.usp.br/noticias/serie-energia-brasil-promete-processamento-verde-para-data-centers/

[10] Disponível em: https://abrace.org.br/brasil-tem-a-conta-de-luz-que-mais-pesa-no-bolso-da-populacao-entre-34-paises/

[11] Disponível em: https://inesc.org.br/energia-e-interseccionalidade-o-impacto-das-tarifas-de-energia-eletrica-no-orcamento-das-familias-brasileiras/

[12] Disponível em:  https://energiaeambiente.org.br/leiloes-de-energia-reforcam-termeletricas-fosseis-e-podem-emitir-ate-40-mtco%e2%82%82e-por-ano-alerta-iema-20260324

[13] Disponível em: https://lapin.org.br/2025/08/11/confira-o-relatorio-inteligencia-artificial-e-data-centers-a-expansao-corporativa-em-tensao-com-a-justica-socioambiental/

[14] Disponível em: https://clickpetroleoegas.com.br/pedidos-de-conexao-de-data-centers-e-hidrogenio-somam-542-gw-impacto-na-transmissao-de-energia-no-brasil-e-desafios-da-rede-eletrica-ate-2038-hl1402/

[15] Disponível em: https://www.ceara.gov.br/2026/02/05/com-novo-data-center-zpe-ceara-consolida-o-estado-como-hub-tecnologico-do-pais/

[16] Disponível em: https://estado.rs.gov.br/ministerio-de-minas-e-energia-autoriza-reserva-energetica-para-cidade-de-data-centers-no-rio-grande-do-sul

[17] Disponível: https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=2600838

[18] Disponível em:  https://www25.senado.leg.br/web/atividade/materias/-/materia/164831

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