Trade finance e supply-chain finance

O financiamento ao comércio internacional deixou de ser apenas uma variável técnica das operações bancárias para se firmar como componente estrutural do crescimento global e da integração de mercados emergentes. Em 2025, o chamado trade finance gap — isto é, a diferença entre o que as empresas solicitam e o que os bancos aprovam em operações de financiamento ao comércio — foi estimado em aproximadamente US$ 2,5 trilhões, um salto de cerca de 47% em relação aos US$ 1,7 trilhão de 2020[1].

Essa elevação dramática não é mera estatística: ela traduz-se em restrições concretas para empresas — sobretudo pequenas e médias (PMEs) que atuam em mercados emergentes[2] e que enfrentam as maiores taxas de rejeição em pedidos de financiamento, afastando-as ainda mais das cadeias globais de valor. A situação torna-se particularmente crítica no contexto de mercados onde esse tipo de crédito representa, muitas vezes, a única fonte externa disponível para que empresas de menor porte importem insumos, produzam para exportação ou mantenham seus fluxos de suprimento.

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Ora, essa carência de financiamento atinge o núcleo da agenda de desenvolvimento global, uma vez que o comércio internacional está historicamente ligado à geração de empregos, à transferência de tecnologia e à redução da pobreza.

Ou seja, a ausência desse tipo de financiamento gera instabilidade não apenas empresarial, mas também social e econômica: interrompem-se os fluxos, fragmentam-se cadeias de suprimento e abrem-se lacunas de produção, com impacto direto sobre o emprego formal. O empresariado das economias emergentes é protagonista neste tipo de efeito, pois sua exclusão geralmente decorre da falta de crédito ou da dificuldade em cumprir exigências de garantia que bancos locais não querem assumir.

Paradoxalmente, ao mesmo tempo em que o comércio global dá sinais de desaceleração[3] — em parte por conta de tensões geopolíticas, políticas industriais nacionais e reorganização de cadeias produtivas — a demanda por instrumentos de trade finance e supply-chain finance aumenta. Isto porque a fragmentação das cadeias de suprimento, a necessidade de identificação de novos fornecedores e mercados alternativos e o aumento de riscos logísticos e de crédito elevam o valor dos mecanismos de mitigação (como garantias, factoring e financiamento antecipado de faturas) e, por consequência, a urgência do acesso a instrumentos financeiros mais acessíveis.

Segundo a análise da Asian Development Bank (ADB), a dimensão do atual trade finance gap mostra que, mesmo com uma recuperação do comércio pós-pandemia, as condições para que esse crédito flua ainda são frágeis: as taxas de rejeição aumentaram, custos de garantia subiram e o risco percebido pelos bancos elevou-se[4].

Diante desse cenário, as instituições de desenvolvimento internacional têm assumido um papel central. Em 2024, a IFC e suas instituições parceiras anunciaram uma iniciativa de US$ 2 bilhões para supply-chain finance em mercados emergentes — com um desdobramento inicial de US$ 500 milhões no México[5].

Além disso, um amplo grupo de multilaterais — incluindo a World Trade Organization (WTO), ADB, European Bank for Reconstruction and Development e outras — emitiram uma declaração conjunta (outubro/2024) para “reforçar a infraestrutura legal, promover marketplaces setoriais comuns e aumentar a diversidade de produtos fintech para supply-chain finance nos mercados emergentes”[6].

Vejamos um caso prático que demonstra os efeitos concretos. Em um relatório da IFC, o programa “Banking on Women Who Trade Across Borders” foi criado para apoiar especificamente empresas lideradas por mulheres nos mercados emergentes — sendo que a estimativa é de que, globalmente, apenas cerca de 15 % das empresas exportadoras são chefiadas por mulheres[7]. Esse programa ilustra como a lacuna de financiamento abrange não só o tamanho da empresa, mas também a dimensão de gênero e a participação na cadeia internacional.

Outro exemplo: projetos de bancos de desenvolvimento no continente africano assinaram acordos de trade finance (por exemplo, uma instalação de US$ 100 milhões entre a British International Investment e o Trade & Development Bank para impulsionar segurança alimentar, importações de fertilizantes e maquinário agrícola — justamente em economias onde cadeias de suprimento e exportação enfrentam restrições severas de liquidez.

O que esses casos evidenciam é que a ausência de financiamento ao comércio vai além de estatísticas: afeta operações reais, gera gargalos de produção e limita a entrada de novos atores e modelos de negócio no comércio global.

Do ponto de vista jurídico e regulatório, o déficit de trade finance exige uma reflexão para além dos números, pois estamos tratando da reavaliação da arquitetura de contratos, configuração de garantias e adequação à regulação bancária. Dessa forma, há pelo menos três grandes frentes sobre as quais os operadores do direito podem atuar: (i) na estruturação de acordos de partilha de risco, (ii) na redação de instrumentos contratuais que equilibrem fluxo de caixa e proteção ao prospectivo financiador e (iii) na interpretação de normas bancárias internacionais, como requisitos de capital, limites de exposição por cliente, KYC/AML e saneamento de risco de crédito.

Quando estamos tratando de mercados emergentes, tal atuação é na verdade uma forma de compensar o fato de que muitos bancos locais carecem de infraestrutura adequada, fazendo com que as exigências de compliance elevem o custo unitário das operações e que, dada a incipiente digitalização de alguns processos, a percepção de risco seja desemparelhada com a realidade[8], provocando uma maior rejeição dos pedidos de financiamento.

A agenda, portanto, é dupla: por um lado, ampliar o acesso e oferta de financiamento ao comércio — via bancos confirmadores, garantias das DFIs, digitalização documental e plataformas de supply-chain finance — e, por outro, adaptar o arcabouço jurídico-regulatório para que esse financiamento possa fluir de forma sustentável, escalável e inclusiva. Países emergentes têm aqui uma oportunidade para modernizar seus marcos — por exemplo, regulando antecipação de faturas em cadeias internacionais, criando regimes seguros de garantia de crédito à exportação ou simplificando procedimentos de KYC para operações de menor risco. Para o setor privado, por sua vez, a tarefa é desenhar contratos que permitam mitigar risco sem inviabilizar pequenas empresas, cooperarando com bancos e DFIs para que os modelos de negócio sejam viáveis.

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Em última instância, o déficit de trade finance representa mais do que uma falha de mercado: é um freio ao crescimento econômico, à inclusão empresarial e à inserção de novos países e empresas nas cadeias globais de valor. Mas é também uma oportunidade — de reconfigurar o financiamento ao comércio para o século 21, de integrar melhor as PMEs, de permitir que mercados emergentes façam parte da dinâmica internacional com maior autonomia.

Reduzir esse gap dependerá de convergência entre reguladores, bancos, instituições de desenvolvimento e o mundo jurídico — e de reconhecer que o comércio sustentável e inclusivo exige muito mais do que mercadorias cruzando fronteiras: exige crédito, contratos, garantias e infraestrutura que funcionem.

[1] ASIAN DEVELOPMENT BANK. 2023 trade finance gaps, growth, and jobs survey. Manila: Asian Development Bank, 2023. (ADB Briefs, n. 256). Disponível em: https://www.adb.org/publications/2023-trade-finance-gaps-growth-jobs-survey. Acesso em: 29 jan. 2026.

[2] O gap para África está estimado em cerca de US$ 81 bilhões, e em várias economias asiáticas mais de 45% dos pedidos de trade finance por PMEs são rejeitados por bancos locais. In  TRAYDSTREAM. From bottlenecks to breakthroughs: closing the $2.5 trillion trade finance gap through smart infrastructure. Traydstream, [s.d.]. Disponível em: https://traydstream.com/from-bottlenecks-to-breakthroughs-closing-the-2-5-trillion-trade-finance-gap-through-smart-infrastructure/. Acesso em: 29 jan. 2026. Um estudo da própria IFC mostra ainda que, em países emergentes, cerca de 70% das micro, pequenas e médias empresas (MPMEs) carecem de financiamento adequado — e que, no universo do supply-chain finance, mais de 50% dos pedidos são rejeitados por bancos locais, enquanto mais de 70% dessas empresas não conseguem recorrer a alternativas viáveis. Fonte: https://www.ifc.org/en/statements/2024/joint-statement-on-boosting-supply-chain-trade-in-emerging-markets

[3] Exemplos recentes de desaceleração do comércio global incluem (i) a revisão da OMC/WTO em seu Global Trade Outlook and Statistics (16 abr. 2025), que, após o comércio mundial de mercadorias ter crescido 2,9% em 2024, passou a projetar contração de 0,2% em 2025 (sob as condições tarifárias então vigentes), (ii) no mesmo contexto, a indicação de que o comércio de serviços comerciais também seria afetado, com crescimento projetado para 2025 em patamar inferior ao observado em 2024 (por exemplo, 4,0% em 2025 versus 6,8% em 2024, segundo a OMC), (iii) alertas do FMI/IMF de que tarifas mais altas e incerteza de política comercial, somadas a tensões geopolíticas, tendem a frear atividade e comércio ao elevar custos, reduzir confiança e adiar investimentos, com reconfiguração de cadeias globais, e (iv) a ênfase do Banco Mundial (press release do Global Economic Prospects, jun. 2025) de que tensões comerciais e incerteza devem levar o crescimento global ao ritmo mais lento desde 2008 (fora de recessões), destacando a desaceleração estrutural do crescimento do comércio global nas últimas décadas.

[4] Ob cit.

[5] SEGAL, Mark. Citi, IFC launch $2 billion sustainable supply chain finance program for emerging markets. ESG Today, 6 Aug. 2024. Disponível em: https://www.esgtoday.com/citi-ifc-launch-2-billion-sustainable-supply-chain-finance-program-for-emerging-markets/. Acesso em: 29 jan. 2026.

[6] INTERNATIONAL FINANCE CORPORATION (IFC). Joint statement on ‘Boosting supply chain trade in emerging markets’. Washington, DC: IFC, 28 Oct. 2024. Disponível em: https://www.ifc.org/en/statements/2024/joint-statement-on-boosting-supply-chain-trade-in-emerging-markets. Acesso em: 29 jan. 2026.

[7] TRADE FINANCE GLOBAL. Multilaterals at work: how IFC is supporting trade and supply chain finance in emerging markets. [S.l.]: TFG Publishing Ltd, 2024. Disponível em: https://tradefinanceglobal.com/wp-content/uploads/2024/08/Multilaterals-at-work-How-IFC-is-supporting-trade-and-supply-chain-finance-in-emerging-markets-mid-res-1.pdf. Acesso em: 29 jan. 2026.

[8]Ob cit.

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