Por que o sobrinho, governador?

Um suspense hitchcockiano paira sobre o cenário político maranhense há mais de um ano; daqueles em que a tensão cresce sem que o golpe final se revele, como em Psicose, quando a expectativa devora o espectador antes mesmo da facada.

Esse suspense gira em torno de uma decisão que já não é segredo: o governador Carlos Brandão, eleito pelo PSB mas hoje sem partido, anunciou que não sairá do cargo, não disputará o Senado e indicará seu sobrinho, Orleans Brandão – filiado ao MDB em dezembro –, para a sucessão no Palácio dos Leões. A manobra, que tensiona a coalizão ampla que o elegeu, me obriga a voltar à literatura sobre coalizões com uma pergunta incômoda: por que o sobrinho, governador?

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A teoria clássica de coalizões, inaugurada por Riker (1962), postula que políticos formam alianças para maximizar cargos e poder, preferindo coalizões mínimas vencedoras, estáveis e racionais. Aplicada ao caso maranhense, essa lógica se inverte de forma espetacular: em vez de preservar uma base multipartidária minimizando riscos e custos, Brandão opta por uma estratégia que inflama conflitos internos, rompe expectativas e ameaça a coesão do arranjo que sustenta seu governo. É como se a racionalidade instrumental dos atores, tão cara a Leiserson (1970) e Luebbert (1983), tivesse sido eclipsada por uma racionalidade familiar, em que a estabilidade partidária importa menos do que garantir que a chave do Palácio dos Leões permaneça dentro da família Brandão.

Uma segunda geração de estudos, marcada pelo incremento de complexidade dos modelos teóricos e pelo uso da Teoria dos Jogos, manteve a premissa rikeriana de que o acesso a cargos executivos é a motivação central das coalizões. No Maranhão, porém, vemos uma distorção dessa lógica: variáveis como número de assentos legislativos e posicionamento ideológico, que deveriam guiar a composição das alianças, parecem subordinadas à vontade pessoal do governador.

Brandão, que construiu sua vitória eleitoral sob uma coalizão ampla envolvendo PT, PSB e outros, agora prioriza um nome sem densidade partidária própria, filiado tardiamente ao MDB – um partido que, nacionalmente, nem sempre se alinha ao eixo progressista.

É na terceira onda de pesquisas sobre coalizões, no entanto, que o caso ganha contornos mais precisos. Albala e Reniu (2018) descrevem uma perspectiva vertical e multidimensional, em que os partidos deixam de ser vistos como atores unitários para serem analisados em seus comportamentos multiníveis ao longo do território. Eles propõem três pressupostos orientadores: quanto maior o número de camadas políticas, maior o leque de possibilidades de negociação; o nível subnacional constitui um campo experimental e de aprendizado; e acordos mais profundos são mais constrangedores.

Brandão parece ter internalizado essa lição de forma seletiva: o Maranhão vira o laboratório perfeito para testar a elasticidade da coalizão PT-PSB, esticando-a até o limite em favor de um projeto familiar. O governador usa a flexibilidade multinível não para calibrar alianças que reforcem o pacto nacional, mas para desafiá-lo, como se o âmbito estadual fosse um território autônomo, liberado das amarras que a teoria aponta como essenciais à durabilidade das coalizões.

Albala (2016) oferece uma definição precisa que ilumina o enigma maranhense: um governo de coalizão presidencialista é “uma aliança de partidos com finalidade de ação governamental comum, em torno de um formador presidencial, contando com uma convergência dos recursos organizacionais e financeiros de cada um dos participantes e que desemboca na repartição de portfólios ministeriais”.

Brandão, nessa ótica, seria o formador do arranjo: elegeu-se sobre uma base ampla, ancorada em legendas que, no plano nacional, marcham unidas sob Lula e o PT. Ao emplacar Orleans Brandão como sucessor natural, porém, ele altera o cerne do pacto.

A coalizão deixa de ser um instrumento partidário compartilhado e vira mero aval para um projeto dinástico. Albala e Reniu (2018) insistem que essa verticalização evita tratar partidos como blocos monolíticos; no Maranhão, o governador força exatamente o oposto, exigindo que PT e PSB subordinem suas estruturas subnacionais a uma escolha que ignora critérios de experiência, militância e alinhamento ideológico.

O arranjo bicameral e federativo do Brasil adiciona camadas de complexidade ao quadro. Albala (2017) observa que presidencialismos tendem a bicameralismos simétricos, complicando processos de formação e manutenção de coalizões em comparação aos parlamentarismos assimétricos ou unicamerais. Câmaras altas, como destaca Lijphart (2019), representam interesses subnacionais e multiplicam vetos, conforme Tsebelis e Money (1997).

No tabuleiro maranhense, o Senado – com senadores locais sensíveis às dinâmicas estaduais – e a Câmara podem amplificar o conflito: como o governo central lerá a ruptura de Brandão com o espírito PT-PSB?

A eventual ameaça ao equilíbrio subnacional enseja inúmeros remendos: nomes que surgem para aplacar a desistência do governador em disputar uma vaga na câmara alta. Neiva e Soares (2013) relativizam a ligação automática entre federalismo e bicameralismo, mas no caso brasileiro, essas instituições interagem de forma a condicionar coalizões subnacionais. Brandão age como se tivesse margem ilimitada de manobra, mas o preço se paga nas negociações com bancadas federais e na própria articulação com Brasília.

Albala (2017) e Araújo (2017) lembram que fatores como tamanho territorial e população influenciam estruturas legislativas, com países extensos como o Brasil inclinados ao bicameralismo. No Maranhão, estado de dimensões continentais no Nordeste, essa configuração deveria incentivar coalizões estáveis que integrem interesses regionais.

Em vez disso, a indicação do sobrinho expõe uma desconexão: enquanto a teoria prevê negociações verticais para acomodar esses interesses, Brandão impõe uma solução top-down que ignora a representatividade subnacional das câmaras altas. De Paula (2018) organiza a literatura sobre senados em vieses institucionais e comportamentais; aqui, senadores maranhenses enfrentarão o dilema de endossar uma sucessão familiar ou arriscar desgaste com o governador.

O caráter experimental do subnacional, enfatizado por Albala e Reniu, provoca uma reflexão ainda mais profunda. Estudos como os de Schakel (2011) e Suárez Cao e Freidenberg (2014) mostram como análises multiníveis revelam incongruências entre níveis de competição partidária.

No Maranhão, o dinamismo subnacional – com eleições locais ganhando peso – deveria fomentar inovações em coalizões, com reflexos positivos para a governabilidade nacional. Brandão, ao contrário, testa a ductilidade da base PT-PSB esticada por laços sanguíneos, substituindo critérios públicos por privados. Dosek e Freidenberg (2013) medem congruência partidária entre distritos; aqui, a incongruência é patente: um acordo nacional progressista colide com uma escolha local que evoca tradições clientelistas.

Como em um Vertigo hitchcockiano, onde o protagonista projeta obsessões em um vazio que ele mesmo constrói, Brandão parece calcular um sacrifício próprio em nome de um projeto que recusa a mera lógica partidária.

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A insistência em Orleans – o neófito sem densidade política própria – sugere um cálculo em que o governador se coloca como mártir da coalizão prioritariamente familiar: ele renuncia ao Senado, abre mão de uma candidatura própria, tensiona o pacto PT–PSB nacional, tudo para emplacar o sobrenome no Palácio dos Leões. Em nome de quê?

A teoria de coalizões, de Riker a Albala, nos ensina que alianças se constroem para durar e governar; aqui, o que vemos é uma tragédia anunciada, onde o suspense inicial – por que o sobrinho, governador? – culmina não no grito de Psicose, mas no silêncio constrangedor de uma base partidária rachada e de um legado que, em vez de ampliar a governabilidade multinível, a reduz a um laço de sangue. O que resta é a dúvida trágica: valeu o sacrifício pela continuidade familiar, ou o governador apenas protagonizou o epílogo de uma coalizão que ele mesmo desfez?

Albala, A. (2016). Coalizões de governo em regimes presidencialistas.
Albala, A. (2017). Presidencialismo, bicameralismo e coalizões.
Albala, A. (2018). Sistemas de partidos e política subnacional.
Albala, A., & Reniu, J. (2018). Teorías de coalición y análisis multinivel.
Araújo, M. (2017). Unicameralismo e bicameralismo.
Browne, E., & Franklin, M. (1986). As gerações de estudos de coalizão.
De Paula, L. (2018). O Senado na Ciência Política.
Dosek, T., & Freidenberg, F. (2013). Congruência partidária multinível.
Leiserson, M. (1970). Coalition behavior.
Lijphart, A. (2019). Patterns of democracy.
Luebbert, G. (1983). Coalition theory.
Neiva, P., & Soares, M. (2013). Federalismo e câmaras altas.
Riker, W. (1962). Theory of political coalitions.
Schakel, A. (2011). Nationalisation of party systems.
Suárez Cao, J., & Freidenberg, F. (2014). Partidos multinível na América Latina.
Tsebelis, G., & Money, J. (1997). Bicameralism.

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