Diante da inércia do Senado em avaliar os requerimentos de criação de CPI para investigar o Banco Master, o senador Renan Calheiros (MDB-AL) busca protagonismo com o grupo criado dentro da Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) para acompanhar as investigações.
Sem prerrogativas regimentais para obrigar depoimentos ou exigir informações, os senadores têm ido aos órgãos envolvidos no caso para solicitar compartilhamento do que for encontrado. Renan tem dito a interlocutores que a comissão não vai competir com ninguém, mas apenas arregimentar informações.
O grupo de senadores quer encontrar provas — e divulgá-las — do suposto envolvimento de dirigentes do centrão com Daniel Vorcaro e com o esquema de fraudes bancárias do Banco Master. Por ora, só há indícios de relação, como os projetos apresentados no passado no Congresso, que beneficiaram interesses de Vorcaro, como a proposta para impeachment do presidente do Banco Central.
Reservadamente, já há um rol de nomes que poderiam entrar na mira (ou nas intenções) da comissão: o presidente do PP, Ciro Nogueira (PI); o presidente do União Brasil, Antônio Rueda; o deputado federal Arthur Lira (PP-AL); e até o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB).
Mirar a artilharia no centrão teria como consequência direta tirar dos holofotes quem, até o momento, saiu mais chamuscado das revelações envolvendo o Banco Master: ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). A relatoria de Dias Toffoli, suas relações familiares, e o contrato da esposa de Alexandre de Moraes, Viviane Barci, estão no foco da opinião pública e dos pedidos de abertura de CPIs até aqui.
Outra consequência direta seria beneficiar os adversários políticos de quem tiver o que explicar sobre sua relação com o Master e Vorcaro. Não é segredo para ninguém que Lira e seus aliados estão no campo político-eleitoral diametralmente oposto ao de Renan em Alagoas e onde mais for.
Também integram a comissão senadores do Distrito Federal, como Damares Alves (PL), Izalci Lucas (PL) e Leila Barros (PSB). Todos preocupados com o rombo do BRB, mas também ciosos com a disputa eleitoral no fim do ano, quando estarão em disputa (à direita e à esquerda) com o governador Ibaneis Rocha (MDB). Ele é pré-candidato ao Senado, mas está enrolado em explicações sobre a compra de títulos podres do Master e pode, segundo o mundo político de Brasília, acabar desistindo da eleição.
Os senadores já estiveram no BC e no Tribunal de Contas da União (TCU). Nesta semana, se reunirão com o presidente do STF, Edson Fachin, e com o diretor-geral da PF (Polícia Federal) com o mesmo intuito de pedir o compartilhamento de informações.
Entregar a cabeça de figurões do centrão, caso encontrem mesmo provas, poderia aplacar os ânimos da opinião pública com o escândalo, evitar uma crise institucional de proporções sem precedentes e, de quebra, ajudar nas eleições de outubro.
Em paralelo aos pedidos de informação, os senadores aprovaram ainda convites para depoimentos à comissão. Um deles é para Daniel Vorcaro, que tem demonstrado a interlocutores interesse em começar a falar.
Coincidência ou não, a reunião que aprovou os requerimentos quase não aconteceu, por uma questão regimental incomum, sobre presença virtual de senadores. A Mesa Diretora, que responde ao presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP), tentou impedir, mas o encontro acabou acontecendo e os documentos foram aprovados.
Os poucos no Congresso que têm interesse em mexer nesse vespeiro a poucos meses da eleição começam a se mexer, incomodar e tentar convencer outros de que pode valer a pena a empreitada.