Múltiplos temas direcionam cenário internacional em 2026

De forma geral, o ano de 2025 terminou sob um quadro internacional relativamente benigno para o Brasil e emergentes. No entanto, persistem fontes relevantes de risco no contexto global. Uma delas se manifestou já no início de 2026 e envolve as ações unilaterais do governo Trump, na operação executada na Venezuela e no assédio à Groenlândia. Tais episódios recolocaram o tema geopolítico como fonte de cautela para os próximos meses. Na seara econômica, a transição no comando do Federal Reserve e a dinâmica inflacionária nos EUA merecem atenção.

O fator Trump já demonstrou logo no início de 2026 que permanece como fonte de instabilidades, diante da incursão militar realizada na Venezuela e das declarações defendendo tomada de controle da Groenlândia.

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A postura do presidente americano reforça a expectativa de um quadro geopolítico conturbado ao longo do ano, que conta também com outros temas relevantes, como o conflito entre Rússia e Ucrânia, a crise interna no Irã e tensões entre China e Japão.

Especificamente, as pressões norte-americanas sobre a Groenlândia merecem atenção, diante dos impactos nas relações entre EUA e União Europeia no caso de uma tentativa de tomada de controle da ilha dinamarquesa. Fonte de maior preocupação entre os agentes econômicos, as relações entre EUA e China mostram-se menos tensas neste momento, sendo que os países adotam uma linha mais pragmática – mas é algo sob constante ameaça.

No front econômico, as principais economias do mundo devem manter performance moderada em 2026. Os Estados Unidos devem fechar 2025 com um crescimento do PIB acima do esperado, superior a 2%, ritmo que deve ser mantido neste ano diante do efeito carregamento positivo, de investimentos expressivos no segmento de tecnologia e de ganhos de produtividade trazidos pelo crescente uso de inteligência artificial, além de efeitos do expansionismo fiscal gerado pelo One Big Beautiful Bill Act aprovado em 2025.

Na China, persiste a tendência de gradual desaceleração da economia, em meio ao dinamismo comedido da demanda interna, das limitações ao avanço das exportações em contexto global mais protecionista e dos elevados níveis de endividamento público e privado.

Se, em 2025 o crescimento atingiu a meta de 5,0% para o ano, para 2026, a projeção atual é de 4,6% – em março, o governo irá anunciar a meta de expansão para o ano. Com relação à Zona do Euro, o crescimento esperado é de 1,2% (de 1,4% em 2025), mantendo a tendência de expansão modesta na região.

O ano de 2026 também irá marcar a transição do comando do Federal Reserve, o banco central norte-americano, em maio. A preocupação neste caso provém das pressões que têm sido feitas por Donald Trump, visando redução mais rápida da taxa de juros (Fed Funds).

Embora seja mais provável a manutenção de uma linha técnica das decisões de política monetária, não se pode descartar um posicionamento mais voluntarista, no sentido de reduzir a taxa de juros além do sugerido pelos fundamentos, do próximo presidente da instituição. Nosso cenário atual contempla três reduções da taxa dos Fed Funds neste ano, porém com uma pausa nas primeiras reuniões de 2026. O risco para este cenário decorre do processo desinflacionário ainda incompleto no país, com a inflação medida pelo PCE acima da meta de 2% desde o início de 2021.

Ainda nos Estados Unidos, o ano será marcado pelas eleições de meio de mandato, em novembro, que devem definir a força do presidente Trump no restante do seu governo. Eventual perda de controle de uma das casas legislativas atuaria como limitação às agendas do governo, servindo como fonte de maior equilíbrio decisório.

Nos mercados financeiros, ao longo do ano deve se manter o questionamento em torno da existência ou não de uma bolha nos ativos ligados à inteligência artificial. Neste sentido, devemos continuar observando períodos de correção de preços, especialmente nas ações que exibem múltiplos muito acima dos padrões históricos.

No caso do dólar, após um ano marcado pelo enfraquecimento, a tendência para 2026 permanece similar, diante das preocupações em torno da independência do Federal Reserve e dos posicionamentos agressivos de Donald Trump, que têm estimulado um movimento de venda de ativos norte-americanos (sell America).

Por fim, as taxas de juros de mercado  devem permanecer pressionadas, diante do quadro fiscal preocupante no mundo (incluindo os EUA) e da elevação das taxas de juros no Japão – nesse sentido, a política econômica neste país merece acompanhamento, dada a retomada de uma agenda expansionista por parte do governo.

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Para o Brasil, a continuidade do pouso suave da China, a manutenção do dólar mais enfraquecido e os juros dos Fed Funds em queda compõem um quadro benigno, mas são temas que ainda carregam incertezas e que podem mudar durante o ano. O contexto geopolítico volta a ganhar destaque, com a mais recente ação unilateral do governo Trump e potenciais desdobramentos deste e de outros focos de tensão.

Em ano de eleições presidenciais no Brasil, o olhar mais atento do governo norte-americano para a América Latina amplia as chances de ruídos no processo. Ou seja, em caso de agravamento desses pontos, a maior aversão ao risco tende a afetar os ativos brasileiros após um início de ano bastante positivo, considerando também as preocupações locais que devem voltar à tona no auge do ciclo eleitoral.

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