JOTA Principal: Articulações entre Lula e o centrão passam pela formação de chapas estaduais

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O prazo de desincompatibilização se aproxima, em abril, e as articulações para formação das chapas eleitorais se intensificaram na semana passada, com quatro movimentos que mobilizaram o mundo político:

Lula indicou que seu vice, Geraldo Alckmin (PSB), pode ser convidado a aceitar participar de um projeto eleitoral em São Paulo, em entrevista ao UOL;
o MDB passou a ser cotado para ocupar a vice da chapa de Lula ou para formar uma frente de centro com o PSD;
o governo retomou diálogo com Hugo Motta e Davi Alcolumbre, expoentes do Centrão;
e Lula está muito perto de um acerto com o senador Rodrigo Pacheco (PSD) para lançá-lo como seu candidato a governador em Minas Gerais pelo União Brasil.

Nas duas primeiras notas desta edição, Beto Bombig e Fabio MuraKawa conectam os assuntos e analisam o saldo geral do que aconteceu até aqui.

Na semana pré-Carnaval, o Congresso deve seguir em cortejo lento, ainda que com projetos importantes na pauta.

Maria Eduarda Portela e Victoria Lacerda colaboraram nesta edição.

Boa leitura.

1. O ponto central: Centro expandido, pt. 1

Os principais partidos do centrão ainda resistem a aderir a Lula ou a Flávio Bolsonaro, Beto Bombig e Fabio MuraKawa escrevem no JOTA.

MDB, PSD e a federação União Brasil–Progressistas deram sinais de que ainda devem aguardar gestos mais concretos dos dois principais candidatos ao Planalto para decidirem qual caminho seguir — o que pode incluir até uma candidatura própria de “terceira via”.
De maneira geral, esses partidos de centro-direita são refratários a uma aliança com Flávio, ao mesmo tempo em que se encontram em posição difícil para formalizar um apoio a Lula em âmbito nacional.

Por que importa: A percepção é de que Lula entrou para valer no jogo de buscar apoio do centrão, que ainda resiste a Flávio.

Para isso, o presidente pode contar com um ativo poderoso: nessa movimentação toda, o entorno do vice Geraldo Alckmin está em alerta com a possibilidade de ele ser deslocado da posição em que está para ser candidato em São Paulo, seja ao governo ou ao Senado.
Em sentido contrário, setores do PT passaram a conversar com líderes do MDB e acenar ao PSD no sentido de que a vaga de vice na chapa de Lula pode ser negociada na formação de uma aliança eleitoral.

Fontes no Planalto afirmam que a possibilidade de Alckmin concorrer ao governo em São Paulo depende de dois fatores combinados — e ambos tidos como improváveis.

O primeiro é que MDB ou PSD indiquem um vice para Lula, mas com a garantia de que a legenda apoie o petista de maneira monolítica em âmbito nacional.
O segundo seria o governador Tarcísio de Freitas conseguir se viabilizar para disputar o Planalto — o que tornaria Alckmin um candidato ainda mais competitivo.

Assim, a fala de Lula em relação ao vice serve também como “recado” para Tarcísio de que, se ele deixar o Bandeirantes, seu grupo político pode perder o controle sobre o estado.

O pano de fundo dessa postura é a percepção de que o petista prefere concorrer contra Flávio e prefere que Tarcísio permaneça onde está.

2. Centro expandido, pt. 2

Rodrigo Pacheco sussurra no ouvido de Lula / Crédito: Mateus Bonomi/Anadolu via Getty Images – 8.jan.2024

As articulações de Lula com partidos do centrão envolvem também a formação de palanques nos estados, prosseguem Bombig e MuraKawa.

Ainda não há conversas oficiais entre Lula e o MDB, segundo apurou o JOTA.

Líderes do partido entendem ser difícil uma costura nacional porque as realidades regionais tendem a falar mais alto — como nos casos de São Paulo e Minas Gerais, onde os emedebistas estão em grupos políticos contrários ao presidente e ao PT.
No entanto, se houver acordo, os nomes mais cotados do partido para serem candidatos a vice são Renan Filho, ministro dos Transportes, e Helder Barbalho.
Simone Tebet, que vem sendo cogitada para disputar o Senado em São Paulo migrando para o PSB, também aparece em conversas dentro do governo como possível vice de Lula pelo MDB, seu atual partido.
O problema é que ela é vista dentro da própria legenda como uma ministra da “cota de Lula” na Esplanada.
Outra porta que se abriu ao MDB e que também satisfaz o Planalto é a possibilidade de composição com o PSD de Gilberto Kassab, dos presidenciáveis Ratinho Jr. (PR), Ronaldo Caiado (GO) e Eduardo Leite (RS).

Rodrigo Pacheco, por sua vez, se filiará ao União Brasil depois do Carnaval, confirmam aliados.

Se Lula ainda está longe de ter um palanque sólido em Minas, esse movimento, articulado com a ajuda de Davi Alcolumbre, é visto tanto no Planalto como no entorno do senador como um primeiro passo para que isso aconteça.
Pacheco ainda terá que amarrar alianças no estado e tentar arrastar políticos de seu grupo para a nova legenda.

O presidente do União Brasil, Antônio de Rueda, também vem sinalizando a intenção de se aproximar de Lula, segundo fontes do Planalto.

Ele participou, inclusive, da escolha do ministro do Turismo, Gustavo Feliciano, filho do deputado Damião Feliciano (União Brasil-PB).
Em todos os cenários, Lula levaria uma vantagem porque, por força gravitacional no campo da política brasileira, a tendência natural desses partidos seria estar no campo da oposição nas eleições, ainda que mantenham ministros no atual governo.

Do lado de Flávio, os sinais não foram bons na semana passada.

O senador Ciro Nogueira (PI), presidente nacional do PP, se reuniu com Lula em busca de um acordo que facilite sua reeleição no Piauí — informação publicada pela Folha de S.Paulo e confirmada pelo JOTA.
Em troca, ele trabalharia para afastar a federação União Brasil-PP da candidatura de Flávio Bolsonaro.
Pela proposta de Nogueira, a chapa do governador Rafael Fonteles (PT) teria apenas um senador, Marcelo Castro (MDB), deixando de fora Júlio César (PSD), mas isso também depende de movimentos de Kassab.
Essa composição — um “apoio velado” no estado mais lulista do país — aumentaria as chances de Ciro Nogueira, ex-ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro.
Em troca, a federação União-PP abriria palanques para Lula no Ceará, onde o governado petista Elmano de Freitas está em situação difícil, e possivelmente na Paraíba, além de declarar neutralidade nos estados mais ao sul.

🔭 Panorama: No geral, o saldo recente foi melhor para a articulação de Lula do que de Flávio Bolsonaro.

O sentimento em relação a Flávio é de que, mesmo bem colocado nas pesquisas, ele ainda não se lançou nas costuras por alianças e tem tensionado a relação com o centrão nos estados em busca de candidaturas próprias do PL.
Lula, por sua vez, vai comendo pelas beiradas e pode ao final das contas obter apoio de partidos que, pela lógica, deveriam estar alinhados à candidatura do filho 01.

3. Pré-Carnaval

Hugo Motta em sessão da Câmara / Crédito: Kayo Magalhães/Câmara dos Deputados

Na semana que antecede o Carnaval, o Congresso deve manter ritmo mais lento, com sessões reduzidas na Câmara.

As lideranças se reúnem hoje (9) para alinhar a pauta e podem destravar votações pontuais.

Por que importa: A definição da pauta e de relatores poderá permitir a votação de projetos relevantes antes do recesso informal do Carnaval.

A movimentação também condiciona o avanço de temas econômicos e acordos internacionais nas semanas seguintes.

🔭 Panorama: Na Câmara, as sessões serão presenciais apenas na terça (10) e semipresenciais hoje (9) e na quarta (11).

Comissões ainda não instaladas podem eleger presidentes, mas dependem de definições dos líderes.

🕵️ Nos bastidores: O JOTA apurou os textos do governo e de interesse do setor produtivo que estão no radar.

Possível inclusão do PLP 14/2026, que cria uma transição em 2026 para o Programa Especial de Sustentabilidade da Indústria Química, com início em janeiro de 2027.
Definição de relator e data de votação do PL 278/2026, que replica a MP 1318/2025 e cria o regime de data centers.
Possibilidade de votação do PL 278/2026 ainda nesta segunda-feira.

⏩ Pela frente: Amanhã (10), às 10h, está prevista a votação da mensagem presidencial sobre o acordo Mercosul–UE na Representação Brasileira no Parlamento do Mercosul.

O relator é Arlindo Chinaglia, e a expectativa é de envio ao plenário da Câmara na semana após o Carnaval.

4. 🗣️ O que estão dizendo: Eliziane Gama, PSD-MA

Design de Chris Moreira/JOTA sobre foto de Andressa Anholete/Agência Senado

Em linha com a agenda do governo, a senadora Eliziane Gama mostra disposição para aprovar o fim da jornada 6×1.

Entre as prioridades de seu mandato, ela também menciona a aprovação de um pacote de medidas para conter o avanço da violência contra as mulheres.

“É preciso dar um basta nesse quadro terrível de que, a cada 24 horas, pelo menos quatro mulheres são vítimas de feminicídio. É um enfrentamento que este Congresso precisa fazer e com urgência.”

5. Cálculos

O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, na caminhada promovida pelo deputado Nikolas Ferreira / Crédito: Beto Barata/PL

O PL acionou o Supremo Tribunal Federal contra a condução da gestão fiscal do governo Lula, Lucas Mendes registra no JOTA.

O partido pede que a Corte reconheça um estado de coisas inconstitucional nas contas públicas da União.

Por que importa: A ação leva ao Supremo o debate sobre limites fiscais, transparência orçamentária e trajetória da dívida.

Uma eventual decisão pode impor mudanças na forma como o Executivo calcula resultado fiscal e organiza despesas.
A ADPF foi protocolada na quarta passada (4) e ainda não teve a relatoria distribuída.
O PL sustenta que há desorganização das contas públicas, aumento da dívida e comprometimento da integridade do orçamento.
Segundo o PL, o objetivo da ação é obrigar o Executivo a trabalhar com o resultado fiscal efetivo, sem excluir despesas dos limites fiscais.

⏩ Pela frente: A ação aguarda distribuição.

6. A cadeira de Silveira

O ministro Alexandre Silveira / Crédito: Lula Marques/Agência Brasil

O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, reduziu sua exposição pública enquanto avalia uma candidatura em Minas Gerais.

A indefinição eleitoral tem impacto tanto na chapa eleitoral de Lula em Minas Gerais como na disputa pela sucessão na pasta, Larissa Fafá e Marianna Holanda escrevem no JOTA PRO Poder.

Por que importa: A possível saída de Silveira abre espaço para disputas internas no MME.

A indefinição também afeta o desenho do palanque de Lula em Minas e a relação do governo com o Congresso.

🔭 Panorama: Anos eleitorais costumam esvaziar a Esplanada de indicações políticas, à medida que ministros avaliam candidaturas.

No caso de Silveira, falta a confirmação do posto a ser disputado em Minas.
Desde dezembro, o ministro reduziu aparições públicas e entrevistas.
Eventos recentes do ministério ocorreram sem convite à imprensa especializada.
A cautela visa evitar questionamentos sobre seu futuro eleitoral.

🕵️ Nos bastidores: Aliados de Silveira avaliam que ele quer disputar o Senado como candidato de Lula. A estratégia, porém, depende de definições externas ao seu controle.

Rodrigo Pacheco ainda não decidiu se concorrerá ao governo, e uma definição é esperada nesta semana.
Diante da incerteza no PSD, Silveira busca uma nova legenda.
Marília Campos, pré-candidata do PT ao Senado, pediu apoio exclusivo de Lula e rejeita disputar o governo.

⏩ Pela frente: Enquanto Lula não define o desenho eleitoral em Minas, o futuro de Silveira segue em aberto.

7. Agenda BSB: Pesquisas de intenção e mais

Ao menos quatro levantamentos nacionais de intenção de voto devem ser publicados nesta semana.
Está prevista para hoje (9) a divulgação da Real Time Big Data. A pesquisa não incluiu projeções de segundo turno nem mediu a avaliação do governo Lula.
Amanhã (10) será a vez do levantamento Apex/Futura, que testou quatro cenários de primeiro turno e 11 de segundo turno.
Já na quarta (11), a Genial/Quaest divulga nova rodada mensal, com sete cenários de primeiro e segundo turnos.
A partir de quarta (11), o Instituto Colectta divulga sua primeira pesquisa presidencial, com quatro cenários de primeiro turno e sete de segundo, tendo como novidade a inclusão do empresário Tallis Gomes — uma de suas empresas financia o levantamento.
A CPMI do INSS pretende ouvir dois depoentes hoje (9): o deputado estadual pelo Maranhão Edson Araújo (PSB) e o empresário Paulo Camisotti, filho do empresário Maurício Camisotti. Edson está entre os investigados pela Polícia Federal na Operação Sem Desconto por envolvimento no esquema de fraudes em benefícios. Já Paulo é apontado também como envolvido nos desvios, como um dos elos usados pelo pai, que está preso.
Na quarta (11), os senadores do grupo de trabalho da Comissão de Assuntos Econômicos têm audiências com o diretor da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e com o presidente do STF, Edson Fachin, em busca de informações sobre o caso Master. Na semana passada, Renan Calheiros (MDB-AL), e outros senadores, foram até o presidente do Banco Central, Gabriel Galipolo, solicitar acesso a dados e requisitar uma “linha do tempo” dos fatos. Eles avaliam pedir ao plenário do Senado acesso a documentos sigilosos. Galipolo, por sua vez, pediu apoio à pauta regulatória do BC.
Na terça (10), o ministro André Mendonça fará uma audiência para discutir o plano para combater o desmatamento na Amazônia. Foram convocados a AGU, a ministra Marina Silva, os presidentes do Ibama, do ICMBio e da Funai, entre outras autoridades.
O TSE julga amanhã (10), às 19h, o senador Jorge Seif (PL-SC) por abuso de poder econômico. O parlamentar é acusado de ter sido beneficiado pelo apoio dos empresários Luciano Hang, da rede de lojas Havan, e Almir Manoel Atanázio dos Santos, presidente do Sindicato das Indústrias de Calçados da cidade de São João Batista durante a eleição de 2022.
A ministra Cármen Lúcia se reúne amanhã (10) com presidentes dos TREs para apresentar a recomendação de condutas éticas da magistratura eleitoral. A proposta pode trazer indicativos do que ela pode propor para ministros do STF.

8. Um olhar sobre o Tema 6

Fonte: JOTA

Os vários tipos de câncer são as condições que mais levam pacientes à Justiça, mostra levantamento exclusivo de Jéssica Gotlib no JOTA PRO Saúde.

Em 55,7% dos casos relacionados ao Tema 6 na Justiça Federal, os pacientes pedem medicamentos oncológicos.
O índice é muito superior a qualquer outra doença.
Entre os casos de câncer, tiveram maior taxa de sucesso aqueles com menor impacto econômico, segundo valores informados nos processos.
É o caso dos pedidos para câncer de próstata, com 72% dos pedidos atendidos e um custo médio anual de R$ 29,5 mil.
Na outra ponta estão as solicitações de tratamento para câncer de mama, com custo médio anual de R$ 153,9 mil e 45,7% de medicamentos concedidos.

🔭 Panorama: Foram analisados 657 acórdãos dos seis tribunais federais categorizados como “Tema 6” e “Direito à Saúde”, publicados entre 28 de novembro de 2024 e 31 de agosto de 2025.

Para este levantamento, foram considerados apenas os casos do período que especificavam doença e tratamento.
Em segundo lugar aparecem as doenças raras, com 9,7% e as respiratórias, com 9,4% do total de pedidos.
Na outra ponta, o índice de judicialização é baixo para doenças historicamente bem atendidas pelo sistema público.
É o caso do HIV/Aids, que, apesar de uma população de 1,6 milhão de pessoas, não foi mencionado em nenhum dos 1,4 mil acórdãos da base de dados original.
Hepatite C, diabetes e asma também são doenças com baixa representação de ações judiciais na amostra.

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