Mais do que uma mera dor de cabeça, a enxaqueca é uma doença neurológica severa e a segunda condição mais incapacitante do mundo. Só no Brasil, afeta mais de 31 milhões de pessoas em idade produtiva, com maior prevalência em mulheres, de acordo com o Global Burden of Disease, da revista Lancet1. As crises de dor de cabeça intensas e recorrentes podem durar de algumas horas a vários dias e restringir ou impedir o paciente de realizar atividades como estudar, trabalhar e realizar simples tarefas do dia a dia.
O número de casos, no entanto, é subnotificado devido aos obstáculos na etapa do diagnóstico e tratamento adequados. “O maior desafio diagnóstico decorre da ausência de biomarcadores, tornando-o dependente da acuidade clínica do profissional e da capacidade do paciente de descrever seus sintomas, o que favorece o subdiagnóstico e implica em atrasos no tratamento eficaz da doença”, observa o neurologista Mário Peres, presidente da Sociedade Internacional de Cefaleia e da Associação Brasileira de Cefaleia em Salvas e Enxaqueca (Abraces).
Outro fator que contribui para a subnotificação de casos de enxaqueca é o estigma social da doença. Segundo pesquisa apresentada no Simpósio Internacional de Enxaqueca (MTIS, na sigla em inglês)2 sobre o impacto da doença em seis países da América do Sul, Ásia e Austrália, 51% dos pacientes escondem o problema e, nesse grupo, 62% não contam para os colegas de trabalho, 37% não compartilham com os amigos e 27% não se abrem nem com o cônjuge.
Otávio Franco, membro da Abraces e paciente de cefaleia em salvas, não ter o diagnóstico adequado para as crises intensas de dor de cabeça é mais um fator que agrava o quadro. “Pior do que a dor é não saber a causa dela, o que leva a tratamentos aleatórios e ineficazes”, observa.
Carga da dor e efeitos do ambiente de trabalho
De acordo com o neurologista Welber Sousa, membro do Comitê de Políticas Públicas da Sociedade Brasileira de Cefaleia, do ponto de vista epidemiológico, a população que sofre com a enxaqueca concentra fatores de risco que amplificam o impacto da condição: longas jornadas, trabalho físico extenuante, instabilidade emocional, higiene do sono inadequada e pouca previsibilidade financeira.
“Já do ponto de vista assistencial, muitas vezes são pessoas que têm acesso limitado a diagnóstico, a tratamento profilático e até mesmo a medicamentos básicos. Trata-se, portanto, de um grupo no qual intervenções de alto custo não são a primeira linha de abordagem – pelo contrário, políticas de baixo custo, amplas e acessíveis tendem a ter efeito substancial na redução da carga da doença.”
O impacto da enxaqueca no mercado de trabalho e na economia dos países já é mensurável, mas ainda é pouco incorporado às empresas e gestão de recursos em saúde, conforme a avaliação de especialistas.
Um estudo do instituto de pesquisa alemão WifOR, feito em parceria com a Federação Latino-Americana da Indústria Farmacêutica (Fifarma)3 e divulgado em 2024, analisou a carga socioeconômica (SoC) de sete doenças crônicas, incluindo a enxaqueca, entre 2018 e 2022. A metodologia considera quanto cada condição reduz a capacidade dos indivíduos de contribuir para a economia.
No Brasil, essa carga representou 4,1% do PIB em 2022, mais de R$ 300 bilhões. A enxaqueca se destacou como a condição de maior impacto, chegando a consumir 1,6% do PIB do país – o que equivale a aproximadamente R$ 168 bilhões, perdas comparáveis às do câncer.3
Para a líder de Economia da Saúde do WifOR, Malina Müller, o estudo evidencia que saúde é variável-chave para crescimento econômico. “Em um país como o Brasil, onde os setores são fortemente interconectados, as consequências da redução de produtividade não permanecem restritas a uma única empresa. As perdas se propagam por fornecedores, prestadores de serviços, comunidades e indústrias relacionadas.”
Otávio, por exemplo, levou mais de uma década para descobrir que as crises recorrentes que sentia desde os 17 anos eram de cefaleia em salvas – condição rara que provoca dores intensas, recorrentes e unilaterais, e não enxaqueca. “Existem centenas de tipos de dor de cabeça e para cada um há um tratamento recomendado. Por isso é tão importante contar com profissionais capacitados no diagnóstico desde a atenção primária e políticas públicas para atenuar os efeitos crônicos da doença”, pontua o paciente.
Produtividade reduzida e presenteísmo: o custo invisível
A enxaqueca está associada à queda expressiva de produtividade e um elevado presenteísmo, que ocorre quando o trabalhador comparece à empresa, mas com desempenho comprometido. O efeito é especialmente relevante em setores intensivos em conhecimento, como tecnologia, serviços, saúde e educação.
Esse fator eleva as perdas também para empregadores e para o Estado. Não à toa, o estudo do WifOR identificou que o impacto da enxaqueca se aproxima ao dos tumores em termos de perdas econômicas no Brasil, sobretudo em setores que dependem de mão de obra especializada.
“Isso porque a perda de horas úteis gera encadeamentos negativos na cadeia produtiva, afetando todo o ecossistema e trazendo impactos inclusive para as receitas fiscais. A melhora da saúde de um trabalhador estimula a atividade econômica ao longo de toda a cadeia de valor. Reconhecer esses benefícios mais amplos é essencial para compreender a saúde não apenas como um custo, mas como um investimento que impulsiona o crescimento econômico a longo prazo”, explica Müller.
Na avaliação de Welber, o país ainda não dimensiona plenamente a perda econômica decorrente da condição. “O impacto da doença no ambiente de trabalho é subestimado, e ainda persiste, entre profissionais e população, a visão moralizante que dificulta seu reconhecimento como condição neurológica crônica e altamente incapacitante.”
Falhas na porta de entrada do sistema
No âmbito da saúde pública, a enxaqueca segue pouco reconhecida na atenção primária. Apenas 40% dos pacientes chegam a um diagnóstico correto, e o tempo médio até a identificação e tratamento adequados pode variar de 7 a 10 anos.
“Não se trata apenas do tempo excessivo até o diagnóstico ou da elevada proporção de pessoas sem identificação adequada da doença. É necessário fortalecer a atenção primária, nível do sistema de saúde com maior potencial de impacto em condições crônicas como hipertensão, obesidade e depressão”, avalia Peres, e complementa: “é fundamental identificar o número total de pessoas que sofrem com enxaquecas e cefaleias; aquelas que recebem diagnóstico; as que iniciam tratamento; e, por fim, as que atingem controle adequado. Mapear essas etapas é um primeiro passo para orientar políticas públicas efetivas e direcionar gargalos na linha de cuidado da condição.”
O subdiagnóstico não apenas prolonga o sofrimento dos pacientes, mas também perpetua custos evitáveis ao sistema de saúde e à economia. “Reconhecer a enxaqueca como prioridade de saúde pública, com protocolos estruturados, constante avaliação de novas tecnologias e capacitação da atenção primária, é fundamental para reduzir perdas econômicas e ampliar a produtividade nacional”, destaca Müller.
Outra importante medida para aperfeiçoar as políticas é a inclusão da enxaqueca no rol das Doenças Crônicas Não-Transmissíveis (DCNT), conforme a análise do neurologista Welber Sousa. “A ausência da enxaqueca nessa lista do Ministério da Saúde limita sua visibilidade, dificulta a captação de recursos e impede a implementação de programas estruturados de prevenção e cuidado.”
Atualmente, as DCNTs incluem diabetes, hipertensão, doenças cardiovasculares, tumores, doenças respiratórias crônicas, entre outras condições que respondem, anualmente, por mais de 320 mil mortes prematuras (de 30 a 69 anos), em todos os municípios do país desde 2021, de acordo com dados do DATASUS-SIM consultados no Observatório da Saúde Pública 4.
O rol e os dados do DCNT servem de base para o Plano de Ações Estratégicas para o Enfrentamento de DCNT (2021-2030), que busca controlar esses fatores e reduzir mortes prematuras, com metas específicas até 2030.
De acordo com Welber, também é determinante compreender que a enxaqueca afeta desproporcionalmente as mulheres no Brasil. Para o neurologista, essa diferença não se explica apenas por fatores biológicos, mas também pela sobrecarga de papéis sociais: jornada dupla, trabalho doméstico não remunerado, responsabilidade pelo cuidado de filhos e idosos e maior probabilidade de precarização laboral.
“Políticas públicas voltadas à redução dessas desigualdades precisam atuar não apenas no cuidado clínico, mas também sobre determinantes sociais e estruturais de gênero. Integrar a enxaqueca às linhas de cuidado já existentes, como a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Mulher, é um caminho fundamental”, recomenda o especialista.
Um desafio econômico e para o mercado de trabalho
De acordo com Otávio Franco, a adoção de políticas de saúde corporativa – como acesso facilitado a especialistas, acompanhamento contínuo, triagem precoce e programas de prevenção – tende a reduzir significativamente o presenteísmo e melhorar indicadores de desempenho.
Acompanhando essa perspectiva, Müller complementa: “Os achados do WifOR reforçam que o debate sobre enxaqueca não pode ser tratado apenas como tema clínico. Trata-se de uma questão estrutural que impacta produtividade, mercado de trabalho e sustentabilidade fiscal”.
Para Franco, no campo da gestão empresarial, essa discussão envolve não apenas saúde ocupacional, mas também gestão de risco e retenção de talentos. “A literatura internacional demonstra que o presenteísmo provocado pela enxaqueca gera custos maiores às empresas do que as faltas propriamente ditas. Programas corporativos que integram triagem, diagnóstico precoce e acesso a terapias preventivas têm mostrado redução de perdas produtivas em outros mercados.”
BR-ABBV-250663 Janeiro/2026
Referências
1 Vos T, Allen C, Arora M, et al. Global, regional, and national incidence, prevalence, and years lived with disability for 310 diseases and injuries, 1990–2015: a systematic analysis for the Global Burden of Disease Study 2015. The Lancet. 2016.
Disponível em: https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(16)31678-6/fulltext
2 Souza MNP, et al. Survey assessing the burden and impact of migraine across six countries in South America, Asia, and Australia. Presented at MTIS 2020 (MTV20-DP-095). Cephalalgia. 2020.
Disponível em: https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/0333102420962305
3 Ostwald DA, et al. Socioeconomic burden of main diseases in eight Latin American countries: the case of Brazil. Prepared for FIFARMA. WifOR Institute, Germany, 2024.
Disponível em: https://fifarma.org/?jet_download=b0845e6c4329c4018e81a4a3d0b269f8bb3c3e41
4 Brasil. Ministério da Saúde. Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM/DATASUS). Brasília, DF.
Disponível em: https://datasus.saude.gov.br