JOTA Principal: Tarcísio cancela visita a Bolsonaro, e Ratinho Jr. vai roendo pelas beiradas

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Bom dia!

Com a ordem mundial em desarranjo, Lula e seu entorno buscam cautela na relação com os Estados Unidos de Donald Trump, mas também enxergam uma oportunidade eleitoral. Na avaliação geral, o discurso de soberania ainda pode render dividendos.

No campo oposicionista, Tarcísio de Freitas cancelou a visita que faria amanhã (21) ao ex-presidente Jair Bolsonaro, na Papudinha. O estopim foi uma declaração de Flávio, ontem (20), que levou a relação da família com o governador a um ponto de fervura. Beto Bombig e Marianna Holanda analisam na nota 2.

Enquanto isso, Ratinho Jr. emerge como a melhor opção para uma candidatura livre da órbita dos Bolsonaros e com bom trânsito em setores conservadores na avaliação de atores relevantes. Bombig destrincha na nota 3.

E os ministros do Supremo Tribunal Federal ainda calculam como reagir à crise reputacional gerada pelo caso do Master, Flávia Maia escreve na nota 4. Na manhã de hoje (21), o Banco Central decretou a liquidação do Will Bank, banco digital do grupo de Daniel Vorcaro, registra a Folha de S.Paulo (com paywall).

Letícia Mori colaborou nesta edição.

Boa leitura.

1. O ponto central: The fog of war

Lula em evento no Planalto / Crédito: Ton Molina/Getty Images

O Planalto está convencido de que a aposta no discurso da soberania deve continuar a render pontos para a popularidade do presidente, Vivian Oswald e Daniel Marcelino escrevem no JOTA PRO Poder.

A avaliação é de que a política externa terá peso inédito no pleito deste ano.

Por que importa: Foi justamente a retórica da soberania que trouxe Lula de volta ao páreo com força no ano passado.

No governo, a ordem é manter máxima cautela na relação com os Estados Unidos.
Talvez por isso o governo evite encontros fortuitos em Davos, onde Donald Trump desembarca hoje (21) com uma comitiva que inclui os principais secretários de seu governo e tem na pauta a queda de braço com a União Europeia sobre a Groenlândia.
Assim, ganha-se tempo para entender o cenário e montar o esperado calendário de trabalho com o qual o governo brasileiro pretende lidar para fazer, ou não, um acordo com Washington.
A fumaça ainda é espessa, na avaliação geral.
Ontem (20), em evento no Rio Grande do Sul, Lula disse que Trump “quer governar o mundo pelo Twitter”, registra a Folha de S.Paulo (com paywall).

📊 Panorama: O petista aparece como favorito no consenso das pesquisas, hoje com 79% de chance de reeleição, mas ainda não desponta como franco favorito.

Mantidas as atuais condições, a leitura no governo é que o discurso da defesa da autonomia nacional e da democracia pode lhe render os pontos necessários para a reeleição.
A democracia não é um tema majoritário — tem baixa penetração de massa, mas alto impacto marginal.
Eventos internacionais acabam ajudando a elevar a saliência do tema da soberania no debate público.
A intervenção militar na Venezuela para capturar Nicolás Maduro é majoritariamente aprovada pelos brasileiros, segundo pesquisas recentes: 46% a favor e 39% contra na domiciliar da Genial/Quaest, e 58% a favor contra 41% na online da AtlasIntel.
Ao mesmo tempo, o episódio aciona temores relevantes: 58% dos entrevistados pela Quaest afirmam recear que os Estados Unidos adotem postura semelhante em relação ao Brasil.

⏩ Pela frente: Lula e seus assessores não descartam nova tentativa de interferência na campanha eleitoral.

Não por acaso vêm falando em “vacinas institucionais” para proteger tanto a relação bilateral como a lisura do pleito.

2. Visita cancelada

O governador Tarcísio de Freitas / Crédito: Lula Marques/Agência Brasil – 2.dez.2025

O governador Tarcísio de Freitas informou que não visitará Jair Bolsonaro amanhã (22), Beto Bombig e Marianna Holanda registram no JOTA PRO Poder.

Por que importa: O gesto foi interpretado por aliados de ambos como uma sinalização de que a união para enfrentar Lula ainda tem muitas arestas a serem aparadas.

Para aliados de Tarcísio, a família Bolsonaro está subestimando a força eleitoral de São Paulo e o peso político do governador.
A família Bolsonaro, por sua vez, está incomodada com o que considera ser um apoio envergonhado de Tarcísio até agora a Flávio.

O que aconteceu: Uma declaração de Flávio Bolsonaro, ontem (20), foi mal recebida pelo governador e seu entorno, que decidiram suspender a visita na Papudinha.

À tarde, em evento no interior paulista, o governador chegou a dizer que iria até Brasília visitar “um amigo” para ver se estaria precisando de alguma ajuda.
À noite, porém, por meio de sua assessoria, o governador afirmou ter compromissos no estado: “A visita do governador Tarcísio de Freitas ao presidente Bolsonaro será adiada a pedido do governador para cumprimento de compromissos em São Paulo. Uma nova data será solicitada”.
Horas antes, o senador Flávio Bolsonaro havia dito que o objetivo do encontro era reafirmar a importância de São Paulo, maior colégio eleitoral do país, em seu projeto de concorrer ao Planalto.
“Tarcísio vai ouvir da boca de Bolsonaro que está fazendo um grande trabalho como governador de São Paulo e que sua reeleição é fundamental para a estratégia nacional de derrotar o PT. Eleições presidenciais estão descartadas para ele”, disse ao Globo (com paywall).

♟️ A estratégia: A decisão de não comparecer ao encontro teve como objetivo ganhar tempo e evitar um xeque-mate da família Bolsonaro que impeça Tarcísio de continuar se articulando, segundo um aliado do governador que conversou com o JOTA em condição de anonimato.

Ainda faltam mais de dois meses para o prazo de desincompatibilização, em abril.
Outra sinalização importante é de que o governador não aceitará ser tratado apenas como “linha auxiliar” da família Bolsonaro — alguém que cumpre determinações e não participa ativamente da construção de um projeto para enfrentar o PT.

⏩ Pela frente: A relação entre Bolsonaro e Tarcísio, até agora, estava razoavelmente blindada dos ruídos causados pelo entorno dos dois. Desta vez, parece ter extrapolado.

Muitos bolsonaristas foram surpreendidos com a decisão de Tarcísio e ficaram incomodados com o gesto, interpretado quase como um desrespeito por alguns deles.
Um aliado de Bolsonaro que torcia pela candidatura do governador ao Planalto disse que, se ele não quer mais visitar um amigo, como disse horas antes, que assim seja.

3. 🐀 Roendo pelas beiradas

O governador do Paraná, Ratinho Jr., durante leilão de concessões na B3, em São Paulo / Crédito: Divulgação/Governo do Paraná

Atores do setor produtivo e do mundo político passaram a ver o governador do Paraná, Ratinho Júnior (PSD), como a melhor opção para uma candidatura livre da órbita dos Bolsonaros e com bom trânsito em setores conservadores, Beto Bombig escreve no JOTA.

A avaliação decorre principalmente da falta de apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro e do que consideram reticência de Tarcísio de Freitas em encampar um projeto presidencial.

Por que importa: Assim como Tarcísio, Ratinho teria, conforme essa visão, mais capacidade para unir o campo antipetista de centro.

O projeto de Ratinho conta com aval de Gilberto Kassab, presidente nacional do PSD e secretário estadual de Governo de São Paulo.
Kassab, caso Tarcísio rejeite o projeto presidencial, não deve ir com Flávio e tentará materializar um antigo sonho de ter um candidato do PSD a presidente do Brasil.
Uma das alternativas é atrair o governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), como candidato a vice.
Os três têm intensificado seus contatos e articulações para colocar em pé uma alternativa a Flávio.

⏩ Pela frente: Mesmo que a família Bolsonaro promova novos movimentos arrojados nos próximos dias, ainda é grande o contingente de atores que acreditam em uma composição que não tenha Flávio na cabeça da chapa e que possa unir o campo antipetista.

Enquanto isso, o primogênito de Jair ganha tempo para tentar ampliar sua pré-candidatura e se fortalecer para negociar algo que contemple os interesses de seu clã.

4. Sinuca

Os ministros Edson Fachin e Dias Toffoli em sessão no plenário do Supremo / Crédito: Gustavo Moreno/STF – 21.mar.2024

Ministros do Supremo avaliam que o caso Master desencadeou uma crise de reputação do tribunal que pode aumentar, Flávia Maia escreve no JOTA PRO Poder.

O presidente, ministro Edson Fachin, tenta articular uma resposta conjunta para conter o desgaste institucional.

Por que importa: Há a leitura de que o ritmo das providências não pode ser levado somente pela velocidade de reportagens com novas revelações — mas, ao mesmo tempo, não se pode demorar demais, dada a tendência de o desgaste aumentar.

Os ministros sabem que existe interesse político, em ano eleitoral, de fragilizar a imagem do STF e querem evitar crise de confiança com a Corte.
O principal tema é a atuação de Dias Toffoli na relatoria do caso, mas essa hipótese não está sendo aventada no momento.
O próprio ministro tem dito que não irá deixar as investigações e não vai se deixar constranger pelas reportagens citando negócios de sua família.

🕵️ Nos bastidores: Fachin conversou individualmente com todos os ministros durante o recesso.

A última reunião foi no Maranhão, com Dino. O objetivo é alinhar uma reação coordenada e evitar rachas.

⏩ Pela frente: Fachin busca consenso antes de qualquer providência, para não agravar divisões.

O sucesso da reação dependerá do apoio da maioria dos ministros e da capacidade de conter o desgaste antes que ele atinja a instituição como um todo.

5. Aceno à base

O ministro da Educação, Camilo Santana, conversa com Lula / Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil – 10.dez.2025

Lula assina hoje (21) uma medida provisória com novas regras permanentes para reajuste do piso salarial da educação, Fabio MuraKawa escreve no JOTA PRO Poder.

A medida busca garantir aumento acima da inflação anual, com base no INPC (índice nacional de preços ao consumidor).

Por que importa: Trata-se de uma resposta à insatisfação da categoria com o reajuste previsto de 0,37% em 2024, equivalente a R$ 18.

O governo tenta conter o desgaste político em ano eleitoral e atender à pressão de sindicatos e da base aliada.
Fontes no Palácio dizem que Lula foi convencido pelo ministro Camilo Santana sobre a importância da sinalização.

Sim, mas… Técnicos do Planalto e do Ministério da Educação ainda debatiam os detalhes até a tarde de ontem (20).

⏩ Pela frente: O MEC deve editar uma portaria com o novo piso até o fim de janeiro.

A medida provisória servirá para validar um reajuste mais expressivo ainda neste mês.

6. Sem consentimento

Foto mostra post no X em que Elon Musk pede ao Grok para manipular imagem dele usando biquíni / Crédito: Leon Neal/Getty Images

O Grok, ferramenta de IA generativa do X, de Elon Musk, terá que seguir medidas impostas pelo MPF, pela Senacon e pela ANPD para impedir a geração de mídia sexualizando pessoas reais, inclusive crianças e adolescentes, Edoardo Ghirotto escreve no JOTA PRO Poder.

Os órgãos citaram o acórdão do STF sobre o artigo 19 do Marco Civil da Internet, que ampliou a responsabilidade das plataformas digitais por conteúdos postados por terceiros.

Por que importa: Esse é o primeiro caso de grande repercussão contra uma plataforma digital que traz o acórdão do STF como base — um prenúncio de como a decisão do Supremo poderá impactar casos futuros contra big techs.

A responsabilização agora pode ocorrer mesmo sem ordem judicial ou notificação prévia, caso haja violação sistemática do dever de cuidado.

Sim, mas… O acórdão do Supremo, publicado em novembro, ainda não é definitivo. Embargos com potencial para alterar diversos aspectos da decisão seguem pendentes e não têm data para serem analisados.

⏩ Pela frente: A empresa de Musk tem até 27 de janeiro para mostrar que tomou as primeiras medidas para impedir o Grok de gerar imagens, vídeos ou áudios que sexualizam crianças e adolescentes ou pessoas reais maiores de idade sem consentimento.

A plataforma tem que apresentar um cronograma para implantação das outras medidas, que incluem suspender contas envolvidas, implementar um mecanismo de denúncias e elaborar relatórios de impacto.

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