A anunciada saída do ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), do cargo marca a largada nos movimentos dentro do governo para a campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à reeleição. Ainda não há uma data definida, mas Haddad deixará o posto em fevereiro. Tampouco está selado o destino do ministro, que resiste a concorrer novamente ao governo de São Paulo, segue relutante em disputar o Senado e já expressou ao presidente a vontade de encabeçar a coordenação de sua campanha para ser reconduzido ao Planalto.
O cenário eleitoral foi um dos temas principais de uma conversa de cerca de três horas entre o presidente e o ministro na última quarta-feira (14/1), no Palácio do Planalto. Segundo interlocutores, na reunião foram traçados cenários para a eleição de outubro, mas não houve uma definição sobre o destino de Haddad. Certo é que há grandes pressões dentro do PT para que ele vá para o sacrifício e concorra ao Bandeirantes contra o governador Tarcísio de Freitas — que está cada vez mais distante de se cacifar ao Planalto, com a consolidação da candidatura de Flávio Bolsonaro. Mesmo com a derrota quase certa, Haddad seria um bom puxador de votos para a bancada paulista que o partido pretende formar.
Nessa equação do palanque em São Paulo, entram também o vice-presidente Geraldo Alckmin e a ministra do Planejamento, Simone Tebet. Ambos são cotados para disputar o governo ou o Senado. Mas a tendência, hoje, é que Alckmin permaneça como vice na chapa de Lula. Outro que tenta se viabilizar é o ministro do Empreendedorismo, Márcio França, sem grande entusiasmo tanto do PSB, seu partido, como do entorno de Lula.
Esboço de discurso para a economia
Enquanto não há uma definição sobre o destino de Haddad, integrantes do governo começam a esboçar um discurso para Lula na área econômica durante a campanha. Ainda é cedo para dizer que o programa do quarto mandato já está em construção. Mas algumas diretrizes e ideias começam a circular tanto no Palácio do Planalto como no Ministério da Fazenda.
Um ponto pacificado é que Lula investirá pesadamente em comparações com a gestão Jair Bolsonaro. Indicadores como crescimento do PIB (média de 3% ao ano nos três primeiros anos do atual governo x 1,2% no governo Bolsonaro), inflação anual média (4,57% de Lula x 6,17% de Bolsonaro) e taxa de desemprego (5,2% em novembro de 2025 x 7,6% em dezembro de 2022), entre outros, serão repetidos de maneira exaustiva. Lula também tem na manga feitos como a redução da pobreza e a retirada do Brasil do Mapa da Fome.
Outro grande trunfo do petista, acreditam seus auxiliares, é a aprovação da isenção do Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5 mil. A nova lei conseguiu colocar uma renda extra no bolso sobretudo das famílias de classe média e contribuiu para dar uma marca ao governo, que até meados do ano passado era visto como amorfo. Agora, ajudará a reforçar um discurso de Justiça Tributária que o petista pretende levar ao debate no processo eleitoral deste ano.
Jornada 6×1 e ônibus grátis
A concretização de sua principal promessa de campanha em 2022 confere ao presidente credibilidade para apresentar ao eleitorado outras medidas de impacto. Nesse sentido, a bandeira do fim da jornada 6×1 e a gratuidade do transporte público podem ser usadas como arma na próxima campanha eleitoral.
Há três diferentes textos sobre a jornada de trabalho em tramitação no Congresso. A avaliação no Planalto é que o tema ganhou tração, a ponto de alguns cogitarem sua aprovação ainda neste ano pelo Congresso. Mas a visão majoritária na Esplanada é que o tema ainda não está maduro o suficiente, o que aumenta as possibilidades de ele entrar no debate eleitoral.
Já a gratuidade no transporte público é descrita dentro do governo como um desejo real do presidente Lula, apesar do ceticismo de ministros em diversas pastas sobre a viabilidade de implementação da medida. Mas Lula, de fato, determinou ao Ministério da Fazenda que realize estudos econômicos para achar uma maneira de concretizá-la. Segundo fontes da pasta, no entanto, ainda não foi encontrada tal “fórmula mágica”.
Estabilidade na Fazenda
Haddad sairá da Fazenda no mês que vem, mas continuará tendo grande influência sobre o ministério. A pasta será comandada pelo seu secretário-executivo e homem de confiança, Dario Durigan. E praticamente todo o seu secretariado deverá permanecer intacto. Robinson Barreirinhas (Receita Federal) e Rogério Ceron (Tesouro), por exemplo, têm a permanência garantida.
Segundo fontes ouvidas pelo JOTA, para além da influência de Haddad, a ideia de mexer o menos possível na atual equipe é evitar a instabilidade e as incertezas que um novo perfil da pasta poderia gerar. Assim, montou-se uma estratégia para que a possível saída de Haddad fosse noticiada a conta-gotas pela imprensa desde o fim do ano passado. Agora, com a sua saída confirmada, o objetivo é certificar o mercado de que haverá poucas ou nenhuma mexida em figuras-chave do ministério.
A maior dúvida é sobre a continuidade de Guilherme Mello, secretário de Política Econômica. Ele foi o coordenador do programa econômico do candidato Haddad em 2018 e de Lula em 2022. E, devido aos seus laços com o PT, pode ser novamente escalado pelo presidente para desempenhar algum papel nas eleições. Entretanto, fontes ouvidas pelo JOTA asseguram que ainda não houve uma conversa entre Lula e Mello sobre o assunto.