JOTA Principal: A margem de Tarcísio para concorrer ao Planalto — e o palanque de Lula em São Paulo

Esta é a versão online da newsletter JOTA Principal. Quer receber as próximas edições e acompanhar os principais temas do momento? Cadastre-se gratuitamente!

Todos estão à espera de quem vai piscar primeiro.

A definição final do principal candidato de oposição à Presidência — se Flávio Bolsonaro ou, hoje menos provável, Tarcísio de Freitas — afeta a escolha do palanque governista em São Paulo.

A chance que o governador de São Paulo ainda tem de desbancar o filho e senador passa por uma prisão domiciliar do ex-presidente, na avaliação de aliados. Marianna Holanda analisa na nota de abertura.

Enquanto isso, o vice Geraldo Alckmin prefere permanecer onde está, e o futuro-ex-ministro Fernando Haddad não quer disputar nada. Mas ambos podem acabar respondendo a um chamado de Lula, ainda mais no caso de Tarcísio abrir mão da reeleição pela tentativa ao Planalto. A apuração de Beto Bombig e Fabio MuraKawa está na nota 2.

E, em meio às articulações eleitorais, o Supremo Tribunal Federal segue no centro das atenções — com o sigilo no caso Master e a instauração de uma nova apuração de ofício.

Boa leitura.

1. O ponto central: A margem de Tarcísio

Quase um mês após a divulgação da carta de Jair Bolsonaro selecionando Flávio para disputar a Presidência em 2026, o filho do ex-presidente subiu nas pesquisas, mas não empolgou aliados, Marianna Holanda analisa no JOTA PRO Poder.

Há um clima de desalento em setores do bolsonarismo, numa mistura de decepção com a escolha, mas sem disposição de abrir divergência às claras.
Lideranças religiosas, agronegócio e setores do mercado — que sempre tiveram predileção pelo ex-presidente — ainda resistem ao senador.
Em paralelo, a divergência na família também piorou.
Nas redes, os filhos do ex-presidente, a ex-primeira-dama e aliados trocam indiretas e divulgam notas, enquanto Flávio busca união em torno de sua candidatura.

Por que importa: A possibilidade de uma mudança de rumo é considerada remota, mas não impossível — até porque Bolsonaro é reconhecidamente imprevisível.

Michelle Bolsonaro nega que esteja na campanha pelo governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, mas os gestos públicos dela por Flávio foram considerados tímidos por aliados.
Além disso, Michelle se ressente pela forma como foi feito o anúncio: a carta foi escrita pouco antes de uma cirurgia e, antes disso, Michelle ficou sabendo da escolha do marido pelos jornais.

Um aliado próximo ao ex-presidente arriscou uma projeção.

Ele avalia em 1% as chances de Tarcísio ainda ser candidato à Presidência da República, com duas condicionantes.
Para ele, isso pode acontecer num cenário em que o desânimo com a campanha de Flávio permaneça até meados de março e abril e em que o ex-presidente esteja em prisão domiciliar.
É por isso que aliados têm insistindo tanto nessa tecla — além, por óbvio, das preocupações com o quadro de saúde.
A avaliação desse aliado de Bolsonaro, compartilhada por tantos outros que não se arriscam a projetar um número, é de que, em casa, o ex-presidente teria mais acesso a informações e outras pessoas poderiam discutir política e tentar dissuadi-lo.
Hoje o ex-presidente tem visitas restritas de Michelle e dos filhos, os dois lados da polarização familiar. E, neste caso, a ex-primeira-dama está em minoria.

🔭 Panorama: Michelle e Tarcísio estiveram com Alexandre de Moraes para pedir por uma domiciliar para Bolsonaro num movimento independente, costurado sem o apoio das alas mais radicais do bolsonarismo.

Coube ao ex-líder do PL na Câmara Altineu Côrtes (RJ) ajudar a fazer a ponte.
A decisão de Moraes de enviá-lo para a Papudinha após o encontro foi vista como um gesto a essa ala mais pragmática, um resultado da atuação de Michelle.
Além disso, segundo relatos, o magistrado também teria prometido no encontro realizar uma perícia a respeito da saúde do ex-presidente, o que fez em seguida.

O fato de a atuação de Michelle e Tarcísio ter gerado resultados amplia o clima de tensionamento, cuja consequência direta é aumento das cobranças em cima de do governador.

Aliados de Flávio querem gestos mais enfáticos do governador para que os que articulam por ele se convençam de vez que o candidato é o senador.
A hora certa de Tarcísio pode depender daquele 1%.
Mas a campanha de Flávio vai aumentar a pressão a fim de reduzir mais e mais essa margem.

Aliás… Flávio começa hoje (19) uma viagem a Israel e que pode se estender a países da Europa.

Ele e Eduardo foram convidados para uma conferência de combate ao antissemitismo em Jerusalém, em 26 e 27 de janeiro, com a presença do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, registra a Folha de S.Paulo (com paywall).

2. O palanque paulista

Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil – 30.jun.2025

Lula deu início na semana passada nas articulações para o palanque em São Paulo, estado estratégico para os planos de reeleição do petista, Beto Bombig e Fabio MuraKawa escrevem no JOTA PRO Poder.

O presidente teve conversas com o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e com o vice-presidente Geraldo Alckmin, nomes preferidos de Lula e do PT para disputar o Bandeirantes.
As conversas não tiveram desfecho conclusivo, segundo relatos, mas tanto Alckmin como Haddad deixaram claro que não gostariam de disputar contra Tarcísio.
O vice e o ministro são cotados tanto para o governo como para o Senado — e uma “chapa dos sonhos” da esquerda paulista seria formada pelos dois.

Por que importa: A possibilidade de uma candidatura ao Executivo estadual pode crescer caso Tarcísio consiga se viabilizar para a disputa presidencial, cenário que hoje não é visto como o mais provável.

Ainda assim, Alckmin pretende permanecer onde está, enquanto Haddad quer atuar como principal coordenador da campanha de Lula neste ano.

Diante da indefinição, ganhou força nos últimos dias o nome de Simone Tebet para concorrer ao governo paulista.

Em 2022, quando disputou o Planalto, ela teve desempenho acima de sua média nacional no estado e ficou em terceiro lugar, com 6,34% dos votos válidos.
A ministra do Planejamento recebeu convite para se filiar ao PSB e deve se reunir com Lula até o fim do mês para definir seu futuro eleitoral.
Tebet, que tem base política no Mato Grosso do Sul, onde se elegeu senadora em 2014, é vista como uma peça estratégica, capaz de conquistar apoios no agronegócio e atrair eleitores de classe média que historicamente rejeitam o PT em São Paulo.
Segundo interlocutores, ela seguirá a decisão de Lula, podendo ser candidata ao governo ou ao Senado.

Outros dois nomes citados como possíveis candidatos são os de Márcio França (PSB) e Marina Silva (Rede).

Líderes partidários avaliam que apenas com esses quatro nomes Haddad, Alckmin, Marina e França seria possível montar uma chapa competitiva em São Paulo, com um candidato ao governo, um a vice e dois ao Senado.

⏩ Pela frente: Em privado, dirigentes dos principais partidos que apoiam Lula em São Paulo avaliam que a definição passará pela decisão de Tarcísio sobre concorrer ou não à reeleição.

A meta do PT é manter o desempenho de Lula no mesmo patamar de 2022 e, se possível, ampliá-lo, especialmente se o adversário no segundo turno for Flávio Bolsonaro.
Apesar da derrota no estado, o presidente obteve 44,76% dos votos válidos, o equivalente a 11.519.882 votos, contra 55,24% do adversário, que somou 14.216.587 votos no segundo turno.
Essa votação foi considerada determinante para a vitória do petista.
Quatro anos antes, em 2018, Bolsonaro havia aberto uma diferença de 35,94 pontos percentuais sobre Fernando Haddad no segundo turno.
Caso o candidato seja Tarcísio, a tarefa petista se torna mais complexa.

3. Sob sigilo, pt. 1

Rosinei Coutinho/STF

Integrantes do governo veem com apreensão a investigação aberta de ofício pelo ministro Alexandre de Moraes contra a Receita Federal e o Coaf para apurar vazamentos sobre familiares de magistrados, Marianna Holanda e Flávia Maia escrevem no JOTA PRO Poder.

Na avaliação desses interlocutores, a apuração tem potencial para gerar uma crise que pode ficar fora de controle.
O momento é de cautela, uma vez que não está claro o escopo da investigação, como ela será conduzida e até onde pode chegar — afinal, está sob sigilo.
Há incômodo entre uma ala de ministros com os vazamentos de informações de parentes, como o contrato do escritório da esposa de Moraes, a advogada Viviane Barci, com o Master.

🕵️ Nos bastidores: A crise foi tema de uma reunião no Planalto com Moraes, Lula, Fernando Haddad, o secretário da receita, Robinson Barreirinhas, e outros envolvidos.

Oficialmente, o assunto seria segurança pública.
No geral, a avaliação é de que as revelações envolvendo o Master podem acirrar a crise entre os Poderes e até chegar a autoridades públicas, mas que o presidente — por ora — está afastado desse foco de problema.

4. Sob sigilo, pt. 2

Gustavo Moreno/STF

O ministro Dias Toffoli prorrogou por mais 60 dias o inquérito no Supremo que investiga fraudes no Banco Master, Lucas Mendes e Flávia Maia escrevem no JOTA.

O pedido foi feito pela Polícia Federal — e a prorrogação se dá em meio a um desgaste entre Toffoli e a corporação por conta da operação Compliance Zero, na última quarta (14), em que a corporação demorou para deflagrar a ação autorizada pelo magistrado.
O ministro reclamou que a demora poderia atrapalhar as investigações e pediu explicações para o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues.

Por que importa: A prorrogação do prazo demonstra que o ministro deve continuar à frente das investigações, apesar da pressão para que ele deixe a relatoria do caso após reportagens revelarem negócios da família dele com fundos ligados ao Master.

A condução da investigação por Toffoli vem gerando críticas de advogados, especialistas e da imprensa.
Entre as medidas criticadas estão o sigilo absoluto, a investigação no STF, a retirada da custódia das provas da PF para a Procuradoria-Geral da República e a indicação de peritos específicos para a análise das provas apreendidas.

⏩ Pela frente: Na sexta (16), o ministro determinou à PF a alteração no cronograma dos depoimentos dos investigados para concentrar as diligências em apenas dois dias — antes, eram seis.

Os depoimentos se dariam entre a última semana de janeiro e a primeira de fevereiro próximo

5. Sem parar

Gustavo Moreno/STF

Flávio Dino determinou na sexta (16) que o Ministério da Saúde apresente um plano emergencial para recompor a capacidade de trabalho do Departamento Nacional de Auditoria do SUS (DenaSUS), responsável pela avaliação interna da aplicação de recursos no SUS, Lucas Mendes relata no JOTA PRO Poder.

O objetivo é que o órgão consiga fazer frente aos “novos desafios” da “parlamentarização” das despesas na área da saúde, com o aumento de recursos via emendas, segundo a decisão do ministro.
O plano deverá ser apresentado pela pasta em 30 dias.

🏥 Panorama: O DenaSUS perdeu aproximadamente 50% de sua força de trabalho entre 2001 e 2025, segundo dados do governo.

Dino destacou a necessidade de acompanhamento e fiscalização do dinheiro empregado na saúde via emendas.
Ele citou que o montante de emendas para a área saiu de R$ 5,7 bilhões, em 2016, para R$ 22,9 bilhões, em 2023, atingindo o patamar de R$ 26,3 bilhões em 2025.
Dino também cobrou que o DenaSUS refaça um cronograma de fiscalização de contas bancárias para o recebimento de recursos de emendas pendentes de regularização.
Segundo o ministro, a finalização das auditorias não pode ultrapassar o atual mandato do Executivo Federal. Antes, o órgão informou que terminaria o trabalho em 2027.
De 497 contas analisadas, para 291 é recomendada a realização de auditoria, segundo dados enviados ao STF.

6. Ano novo, comissões novas

Bruno Spada/Câmara dos Deputados

As negociações em torno das presidências das comissões da Câmara neste ano devem ganhar corpo nesta e na próxima semana.

A primeira reunião de líderes do ano está marcada para 28 de janeiro, quando as conversas de bastidores chegarão à superfície.

Por que importa: Comissões mais poderosas podem gerar disputas, como a CCJ, que analisa todos os projetos que não vão diretamente ao plenário, e a Comissão de Saúde, que controla a maior fatia de emendas de comissão.

Alguns partidos, como o PL, querem negociar a permanência da chefia das comissões que já controlam.
Nas lideranças partidárias, poucos grandes partidos terão mudanças: no PT, Lindbergh Farias (RJ) será substituído por Pedro Uczai (SC); no PSB, Pedro Campos (PE) dará lugar a Jonas Donizete (SP).
Nos partidos de centro, como PSD, MDB, PP e União, a movimentação gira em torno da recondução dos líderes atuais: Antônio Brito (PSD-BA), Isnaldo Bulhões (MDB-AL), Dr. Luizinho (PP-RJ) e Pedro Lucas Fernandes (União-MA).

No Senado, a divisão é feita a cada dois anos e, em 2026, seguirá a definição feita no início de 2025.

7. Tensão na Europa

Demetrius Freeman/The Washington Post via Getty Images

Donald Trump levará nesta semana a Davos, na Suíça, a maior delegação dos Estados Unidos já presente em uma edição do Fórum Econômico Mundial, segundo o Financial Times (com paywall).

Por que importa: As recentes investidas de Trump contra a Groenlândia estão no centro das discussões na Europa.

O presidente americano ameaçou aplicar tarifas a partir de fevereiro contra oito países europeus que se opuseram à intenção dele de anexar a Groenlândia.
Líderes europeus responderam com ameaças de tarifas contra os Estados Unidos e restrições à atuação de empresas americanas no bloco.
Os governos de Alemanha e França buscam uma resposta coordenada, em uma reunião marcada para esta segunda (19), e os 27 líderes da União Europeia terão um encontro de emergência ainda nesta semana.
Em Davos, além de Trump, têm presença confirmada o presidente da França, Emmanuel Macron, o chanceler alemão, Friedrich Merz, e o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, entre outras autoridades europeias de primeiro escalão.
Por ora, haverá somente uma autoridade de alto escalão do governo brasileiro: a ministra da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos, Esther Dweck.

Generated by Feedzy