Bolsonarismo aposta em suposto calvário de seu líder para retornar ao poder

A extrema direita brasileira traz em si uma contradição que seus congêneres mundo afora raramente exploram: a tentativa de fazer política despertando a piedade alheia. Se a política de massas é mais emoção que razão, aqueles que claramente ecoam os totalitarismos conservadores do século 20 na atualidade preferem demonstrar força para conquistar respeito em vez de expor as mazelas humanas que também acometem seus líderes.

Como o Brasil não é para principiantes, segundo a frase atribuída a Tom Jobim, coube ao bolsonarismo desenvolver uma versão ímpar de fascismo em que seu líder é exposto em suas fraquezas mais humanas, demasiadamente humanas.

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Preso desde o fim de novembro de 2025 após o trânsito em julgado do processo em que foi condenado por tentativa de golpe de Estado, o ex-presidente Jair Bolsonaro é o personagem principal do BBB — Big Brother Bolsonarista — que busca reverter o sentimento de pena em votos nas eleições presidenciais de 2026.

Inelegível muito antes de sua prisão, o líder da extrema direita nacional pretende transferir votos para o presidenciável Flávio Bolsonaro (PL-RJ), senador que, segundo as pesquisas mais recentes, deve ser o nome da direita com chances de impedir que Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ganhe um quarto mandato democrático para o período 2027-2031.

Em última instância, foi o BBB com cortes estrategicamente feitos para sensibilizar a opinião pública e, portanto, as canetas mais poderosas de Brasília que levou Bolsonaro a ser transferido em 15 de janeiro último da carceragem da Polícia Federal em Brasília para uma cela de Estado-maior da Papudinha, nome popularmente atribuído ao 19º Batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal onde são presos policiais militares e cidadãos com direito a cela especial. A transferência foi autorizada pelo ministro do STF Alexandre de Moraes após visita da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro à corte.

Deixo aos juristas o debate acerca dos direitos de Bolsonaro a tratamento ainda mais especial que o já recebido por conta de seus problemas de saúde. O foco aqui é explorar como, independentemente da validade das reivindicações da defesa do presidente-golpista e da veracidade das alegações apresentadas, a exposição de problemas de saúde em público de um líder político é uma estratégia eleitoral, uma narrativa em que Jair Messias enfrenta seu calvário.

No caso da extrema direita, ela só pode ser aplicada com sucesso num país como o Brasil, em que a noção de cordialidade tal como elaborada por Sérgio Buarque de Holanda explica as relações sociais. Se essa corrente política valoriza o homem forte — ou, como o bolsonarismo prefere, imbrochável, imorrível e incomível (motes de uma medalha criada pelo ex-presidente) —, ela jamais poderia tolerar sinais de fraqueza em público. Donald Trump, aliás, teria deixado Bolsonaro à deriva após sua condenação por não tolerar losers (perdedores).

No entanto, a cordialidade — que não deve ser entendida como sinônimo de tolerância, mas a expressão da prevalência dos afetos e da esfera privada sobre a racionalidade e o espaço público — pavimenta o caminho para um fascismo sentimentaloide.

No lugar dos três Is da medalha bolsonarista, a indigência da condição humana à qual o líder-forte está exposto é um gatilho para a indignação contra seus algozes, os quais seriam, segundo essa narrativa, reflexo da podridão do sistema. Este, por sua vez, conforme visão dos radicais reacionários, deve ser derrubado em nome dos bons costumes. A exposição da indigência do líder, portanto, leva à indignação das massas que devem agir para lhe fazer justiça.

A tática é a mesma que levou Bolsonaro ao poder em 2018, quando a facada da qual o então candidato foi vítima acabou por ser explorada à exaustão e o catapultou nas intenções de voto. Se o voto é raramente fruto de escolhas puramente racionais, no Brasil essa premissa é potencializada pela cordialidade e os afetos nela embutidos, os quais acabam por conduzir o eleitor a decidir com base tão-somente nas emoções do momento.

É como se fossemos um povo a-histórico, ou seja, sem memória alguma. Apiedamo-nos de quem rotulou a Covid-19 de gripezinha e pouco caso fez dos que morriam sufocados durante uma pandemia cujos efeitos devastadores poderiam ter sido mitigados com a aquisição de vacinas no tempo certo. Se amar nossos inimigos é uma virtude cristã, esquecer a morte de nossos concidadãos por deliberada inação de um governante representa o primeiro passo para desmantelar a tênue ideia de nação que (ainda) nos une.

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Que Bolsonaro tenha seus direitos garantidos como expressão da vitalidade daquilo que ele e seu movimento buscam destruir — a ordem constitucional e democrática de 1988. No entanto, o campo político deveria ficar imune ao BBB grotesco patrocinado sobretudo pelos filhos do ex-presidente. Não duvido da convalescência dele, mas ainda me causa espécie que, mesmo lutando por manter o mínimo de qualidade de vida, tenha disposição para lutar pelo poder.

Na prática, é isso que busca com uma eventual prisão domiciliar, situação em que teria mais latitude para fazer as articulações políticas necessárias para levar Flávio ao Planalto e, assim, seguir na missão-mor do bolsonarismo: solapar não apenas o imperfeito regime democrático em que vivemos, mas nosso sentido de nação. Nenhuma vida — nem mesmo a de Bolsonaro — vale esse objetivo vil e mesquinho.

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