Douglas Rocha Almeida, 31 anos, é um jovem negro natural de Brasília, mas criado em Luziânia, um bairro periférico de Goiás. Filho de mãe diarista, que recebeu Bolsa Família por muitos anos, e de pai pedreiro, Almeida trabalhou por 12 anos como garçom em paralelo aos estudos. Em dezembro, depois de quatro anos de dedicação, foi nomeado como Terceiro-Secretário da carreira de diplomata do Ministério das Relações Exteriores (MRE). Nesta quinta-feira (15/1), o presidente Lula publicou nas redes sociais um vídeo com a história de superação de Almeida.
Em entrevista ao JOTA, Almeida ressaltou que o Estado esteve muito presente na sua criação e formação desde a infância. Ele tinha pouca expectativa de alcançar um cargo tão concorrido e de tamanha relevância quando iniciou sua trajetória acadêmica, mas afirma que as políticas públicas, aliadas aos seus esforços individuais, foram determinantes para sua trajetória profissional. O diplomata foi contemplado com a Bolsa-Prêmio voltada para pessoas negras do Instituto Rio Branco, que concede bolsas de 30 mil reais para formação em diplomacia. E na pandemia teve de recorrer ao auxílio-emergencial.
Bacharel em relações internacionais (RI) pela Universidade Católica de Brasília (UCB), na qual ingressou pelo ProUni (Programa Universidade para Todos) em 2014, Almeida também é licenciado em letras (espanhol) pela Universidade de Brasília (UnB), faculdade que fez em paralelo à formação em RI. Além disso, Almeida fez mestrado em segurança internacional e geopolítica pela Escola Superior de Guerra. O ensino básico e o estudo inicial de idiomas foi todo feito em instituições públicas.
Além de dificuldades financeiras, sua criação foi marcada por dificuldades familiares. Os pais se divorciaram quando ele tinha 13 anos, de forma que ele acabou ajudando na criação de suas irmãs, duas das quais são pessoas com deficiência. Ele também relembra que a precariedade e violência do dia a dia na escola em que cursou o ensino fundamental em Luziânia dificultavam o aprendizado.
Douglas afirma que, apesar das dificuldades, foram criados com o esforço da mãe que “nunca deixou faltar nada em sentido material e emocional”. Na conversa com o presidente Lula, a mãe de Almeida, Cida, contou que um patrão lhe disse que o filho deveria desistir do concurso do Itamaraty, por ser um dos mais difíceis do Brasil, afinal ele tinha um amigo que tentava há dez anos, tinha dinheiro e que não passava. “Eu disse: é porque você não conhece o meu filho. Só eu sei o quanto ele se dedica”.
Leia a entrevista com Douglas Rocha Almeida
Foram quantos anos de estudo até o senhor se tornar diplomata?
Os candidatos contam normalmente o período em que ficaram efetivamente estudando para o concurso. No meu caso, foram quatro anos e meio. Concluí o mestrado na Escola Superior de Guerra em março de 2021, e, no mesmo dia, iniciei os estudos para o concurso. Ainda assim, acho importante ser honesto e dizer que não se trata apenas desse recorte temporal. Tive uma formação sólida anterior a esse período, o que também foi determinante para a minha preparação. .
O senhor fez um post no LinkedIn em que dizia que as políticas públicas lhe deram a oportunidade para arriscar. O quanto isso foi importante na sua trajetória?
Sou filho de mãe diarista, e minha mãe recebeu Bolsa Família por muitos anos. Minha irmã, que era cadeirante, era aposentada e, portanto, recebia um salário mínimo. Eu mesmo, durante a pandemia, recorri ao auxílio emergencial. Para a minha subsistência e a da minha família, o apoio de programas governamentais sempre foi essencial. Ainda hoje, por exemplo, minha mãe paga uma conta de luz mais barata por estar cadastrada no CadÚnico.
O Estado, portanto, sempre esteve muito presente em nossas vidas. Estudei em escola pública durante toda a minha trajetória na educação básica. Na graduação, cursei uma instituição privada por meio de bolsa do ProUni, mas também me formei em uma universidade pública, em Letras – Espanhol. Além disso, fiz o mestrado em Segurança Internacional e Defesa na Escola Superior de Guerra, uma instituição pública vinculada ao Ministério da Defesa, e contei com bolsa de mestrado.
Quando trabalhava como garçom, o senhor já mantinha uma rotina de estudos?
Comecei a trabalhar como garçom aos 15 anos. Na época, eu estudava no Centro de Ensino Médio Elefante Branco, em Brasília, mas morava em Luziânia, a cerca de 50 quilômetros de distância da escola. O custo do transporte era alto. O governo do Distrito Federal oferecia meia-passagem para estudantes que estudassem dentro do próprio Distrito Federal. Por isso, eu precisava arcar com uma passagem muito cara para conseguir estudar.
Foi nesse contexto que comecei a trabalhar como garçom aos finais de semana. Desde os 15 anos, portanto, mantive uma rotina intensa de estudos conciliada com o trabalho como garçom. Essa dinâmica continuou durante a graduação. Dormia cerca de quatro horas por noite. Aos finais de semana, trabalhava como garçom para conseguir me sustentar.
Concluí o mestrado em 2021, no Rio de Janeiro, e, em seguida, voltei para Brasília. Retornei desempregado e voltei a trabalhar como garçom, ao mesmo tempo em que já havia iniciado os estudos para o concurso.
Como o senhor equilibrava as dificuldades financeiras e o esforço para continuar os estudos? Qual era sua motivação principal?
Minha motivação foi se transformando ao longo do tempo. Até 2022, eu ainda tinha muitas dúvidas se esse concurso era, de fato, para mim. Eu desejava muito ser diplomata, mas tinha plena consciência da dificuldade real de aprovação. Em 2023, no entanto, quando fiquei muito próximo da aprovação, minha motivação passou a ser concluir aquilo que eu havia iniciado. A partir dali, eu já tinha confiança suficiente de que daria certo.
Em 2022, meu nome foi publicado no Diário Oficial da União entre os contemplados da Bolsa Prêmio de Vocação para a Diplomacia. A partir daí, minha preparação se tornou muito mais viável. Eu acordava estudando e dormia estudando. Cheguei a fazer 12 horas líquidas de estudo por dia, o que significava, muitas vezes, passar cerca de 15 horas em frente ao computador para alcançar esse volume efetivo.
Nos períodos em que não contei com a Bolsa Prêmio do Instituto Rio Branco, precisei recorrer ao diálogo direto com professores e cursinhos, buscando descontos ou bolsas. Além disso, participei de uma iniciativa extremamente importante conduzida por diplomatas: a Mentoria Mônica de Menezes Campos. Ela foi a primeira diplomata negra aprovada por concurso público, tendo ingressado na carreira na década de 1970, em um contexto no qual não existiam políticas de fomento para pessoas negras, em condições ainda mais adversas do que as atuais.
Como foi a preparação para o concurso do Itamaraty?
Estudei efetivamente para o concurso durante quatro anos e meio. Nesse período, conciliei grande parte dos estudos com o trabalho. Minha meta diária era estudar três horas líquidas: se eu parava para ir ao banheiro, beber água ou almoçar, o cronômetro era pausado e só voltava a contar quando eu retomava o estudo de forma focada.
Houve fases em que consegui estudar muito mais do que essa meta, como em maio de 2023 e janeiro de 2024, em razão da Bolsa Prêmio que havia recebido. Nesse período, cheguei a estudar cerca de 12 horas líquidas por dia, de domingo a domingo. Foi uma rotina intensa, fisicamente e mentalmente desgastante, mas que rendeu resultados.
No início, utilizei majoritariamente materiais gratuitos, estudando a teoria das disciplinas e resolvendo questões objetivas. Na fase final, passei a usar o tempo de estudo principalmente para revisar o conteúdo acumulado e para treinar a aplicação prática, com foco nas provas discursivas. Eu escrevia, no mínimo, duas questões discursivas por dia. Mantendo essa rotina, consegui, finalmente, ser aprovado.
O senhor considera que as políticas públicas atuais são suficientes para que pessoas menos privilegiadas alcancem uma posição como a sua?
Não, as políticas públicas não são suficientes. Eu falo isso a partir da minha própria experiência, enquanto pessoa negra e também enquanto pessoa pobre. As políticas públicas atualmente existentes ainda não dão conta do desafio de promover um acesso verdadeiramente equitativo à carreira diplomática.
Há uma lacuna importante quando se trata da condição socioeconômica. Para pessoas pobres, especialmente aquelas que são ao mesmo tempo negras e pobres, não há políticas públicas suficientes que garantam condições reais de acesso à carreira.
Muitas vezes, o maior obstáculo não é sequer a falta de capacidade, mas o desconhecimento. Isso revela como, mesmo no nível mais básico de acesso à informação, as políticas públicas falham. Por isso, afirmo: elas ainda são insuficientes para que pessoas como eu cheguem a esses espaços. No meu caso, houve muita sorte e muitos privilégios que não estão disponíveis para a maioria.
Qual dica o senhor daria para pessoas que têm uma origem parecida com a sua e que desejam seguir essa carreira?
Minha principal dica é entender que nem sempre o sistema vai ajudar. E, quando ajudar, é preciso agarrar todas as oportunidades que surgirem. No meu caso, eu agarrei o ProUni, agarrei a oportunidade de fazer o mestrado no Rio de Janeiro. Decidi ir para o Rio de Janeiro fazer o mestrado mesmo sem saber exatamente como iria me sustentar.
Fui aprovado em primeiro lugar na Escola Superior de Guerra e cheguei lá com apenas R$ 600 no bolso. Era o dinheiro que eu tinha. Morei em uma república, porque era o que dava para pagar com esse valor. Na casa, moravam cerca de 20 pessoas e, somente no meu quarto, éramos seis.
Por isso, acredito que, quando o sistema ajuda, é preciso aproveitar. Sem um sistema cooperando, muitas vezes é preciso dar o próprio jeito. Minha dica é essa: quando o sistema falhar, persista com os recursos que você tiver à disposição — seja criatividade, disciplina ou insistência. Foi assim que consegui seguir em frente.
Quais são as perspectivas para a sua carreira daqui para frente?
No plano profissional, no longo prazo, quero me tornar uma pessoa relevante na formulação da política externa brasileira. Ser posteriormente alocado em uma divisão estratégica dentro do Itamaraty e, depois, ser removido para um país que seja ao mesmo tempo interessante e importante na relação com o Brasil. Quero construir essa trajetória de forma ética, responsável e comprometida com o serviço público.
A carreira diplomática, no entanto, também abre perspectivas importantes no plano pessoal. Um dos meus principais objetivos é, já a partir do recebimento do meu primeiro salário como diplomata, possibilitar que minha mãe deixe o trabalho como diarista. Quero que ela possa, se ela quiser, trabalhar com outras atividades, estudar, frequentar uma academia e cuidar da própria saúde mental.
Essas são as minhas perspectivas pessoais e profissionais para o futuro, e é isso que pretendo construir a partir da carreira diplomática.